Cinegnose

por Wilson Ferreira

24 de setembro de 2015, 17h00

A ingenuidade semiótica das suásticas brasileiras

Era o que faltava! Em meio a atual atmosfera politicamente pesada de polarização e intolerância, eis que suásticas começam a se espalhar não só em cartazes de grupelhos neofascistas, mas agora também em instituições que deveriam trazer a esperança civilizatória em meio à barbárie: escolas públicas e universidades. Cheios de boas intenções (conscientizar, debater e denunciar), estudantes desfilam com suásticas e um estande de uma feira universitária transforma-se num bizarro parque temático nazista com prisioneiros judeus com camisas listradas com a estrela de Davi e alunas felizes e elegantes em seus uniformes da SS e braçadeiras com a indefectível suástica, posando para selfies. Nas suas ingenuidades semióticas, falam que as suásticas são apenas “expositivas”, com as melhores intenções pedagógicas,  como se as imagens pudessem ser neutras e apenas ilustrativas. Sem saberem, estão manipulando cepas de ícones-índices de alto poder viral com efeitos imprevisíveis em redes sociais e opinião pública.

Como se já não bastasse a pesada atmosfera atual de polarização que domina a opinião pública no País, de forma surpreendente o setor educacional (que deveria ser uma referência civilizatória em meio à barbárie) dá também sua contribuição à turbulência política, de forma ingênua e desajeitada.

Em um desfile promovido pela Prefeitura da cidade de Taboão da Serra, para comemorar o Dia da Independência, alunos representando uma escola municipal traziam nas mãos suásticas nazistas para representar os Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim. O tema do desfile era “Olimpíadas” (alusão aos jogos olímpicos que serão disputados no Brasil no próximo ano) e para cada escola foi sorteada uma edição das Olimpíadas.

Em nota, a secretaria de educação do município justificou que a suástica teve apenas um “teor de representação de fatos históricos ocorridos na Alemanha”.

Das boas intenções ao inferno

De Taboão da Serra para a cidade de Bauru. Pouco tempo depois das pichações racistas com desenhos de suásticas nazistas no campus da Unesp com dizeres como “A Unesp está cheia de macacos” e “as mulheres negras fedem”, a USC (Universidade Sagrado Coração) promoveu a semana da Feira das Profissões 2015 onde mais uma vez suásticas foram expostas por uma instituição de ensino.

A feira da USC chamou a atenção ao apresentar os estudantes de História utilizando bandeiras com a suásticas e felizes alunos trajando o uniforme da SS e outros com a vestimenta dos prisioneiros judeus em campos de concentração, listrada e com a estrela de Davi – o que transformou o estande do curso de História da universidade em um mórbido parque temático nazista.

Repleto de boas intenções, a resposta da USC à polêmica falava que o estande era “expositivo” e que o propósito das imagens era “ensinar, conscientizar e abrir espaço para debates” e a “importância da Democracia, da Justiça e da Igualdade”.

Na prática, o resultado foram inacreditáveis selfies que se espalharam na redes sociais de estudantes alegres, felizes, sorridentes, confortáveis e elegantes em seus uniformes da SS e empunhando braçadeiras com a suástica. É inegável que houve alguma contradição entre forma e conteúdo, intenções e resultado.

O que há em comum nos episódios de Taboão da Serra e Bauru é uma concepção semioticamente ingênua de que as imagens podem ser meramente ilustrativas, como se existisse um grau zero da representação – as imagens como simples decalques da realidade.

Tabu e idolatria das imagens

Em toda História, a imagem nunca foi neutra: ela pode fascinar e exigir ser tocada (a chamada “imagem-índice”), pode inspirar somente prazer como na arte (“imagem-ícone”) ou ainda produzir distanciamento e reflexão – “imagem-símbolo”. 

Por isso a imagem foi motivo de tabu e idolatria: das advertências do Velho Testamento bíblico sobre a idolatria por imagens à utilização propagandística da Igreja Católica com seus vitrais e afrescos com “imagens-índices” que produziam fascínio e temor.

Os designers do III Reich certamente compreendiam isso ao pegarem um símbolo esotérico (a “swastika”, na Índia associado ao “auspicioso”, Buda, ou a Ganesh, divindade da sabedoria) e converter em um ícone – com sua forma invertida, ganhou dinamismo com a nova apresentação em sinistrogira: como se girasse em sentido anti-horário. 

Qualquer símbolo transformado em ícone ganha força viral de disseminação. Isso porque a imagem jamais é neutra (“ilustrativa” ou “expositiva”) – ela tem a força da intenção. Imagem é propaganda. 

Os “déficits da imagem”

Para a Semiótica, quatro “déficits” impediriam a imagem de atingir essa suposta neutralidade ou representação objetiva da realidade:

a) A imagem ignora o enunciado negativo. Toda imagem é afirmativa, auto-suficiente e completa. É impossível negar um objeto por meio da apresentação da sua imagem em uma proibição, um programa ou um projeto. Dessa maneira, como conscientizar sobre os horrores do nazismo expondo publicamente a suástica e uniformes? Como proibir mostrando publicamente o que é negado?