“Novembro Azul”: Por que você (que não tem nenhum sintoma urinário) não deve fazer exames de próstata

Hoje o Injeção na Testa republica o texto do colega médico de família e comunidade Thiago Campos, publicado há um ano aqui na Revista Fórum, sobre os riscos da campanha do Novembro Azul. Esse texto foi o gatilho para a criação desse blog. E...

Hoje o Injeção na Testa republica o texto do colega médico de família e comunidade Thiago Campos, publicado há um ano aqui na Revista Fórum, sobre os riscos da campanha do Novembro Azul. Esse texto foi o gatilho para a criação desse blog. E segue sendo extremamente importante no mês de novembro.

Por Thiago Campos*

Seu Laurindo vê na TV a propaganda do Novembro Azul. Com seus 63 anos, vive bem, é sexualmente ativo e não sente absolutamente nenhum sintoma que possa estar relacionado com o câncer de próstata. “Prevenir é melhor que remediar, vai no Centro de Saúde pro médico pedir o exame pra você”, reclama a mulher, ao seu lado.

Seu Laurindo costuma pedalar pelo bairro e vai inclusive de bicicleta até o Centro de Saúde. Na consulta, pede o exame. O médico obedientemente o atende. O toque retal acontece sem problemas, o médico considera o exame normal. Pede o PSA: “é só um exame de sangue”, explica.

No retorno, o médico avisa que o PSA veio muito alto. Seu Laurindo continua bem, sem sintoma algum. O médico repete o exame: continua alto. Pede então uma biópsia de próstata. “É só uma agulha, nem vai doer”, diz o médico. Seu Laurindo faz a biópsia – dolorida, por sinal –, e volta pra casa com a prescrição de três dias de anti-inflamatório. Ele agora sente dor no local da biópsia e esse é seu primeiro sintoma.

A biópsia vem positiva para câncer. O médico tenta acalentar: “Veja pelo lado bom, é um tipo pouco agressivo, e se tirarmos a próstata agora a chance de cura é de 90%”. Seu Laurindo está cabisbaixo e pensativo na vida. Com o passar dos dias, segue melancólico com a notícia. A mulher também. Filhos viajam para encontrar o pai e o clima na família é de medo mas também de esperança. Seu Laurindo está extremamente preocupado e triste e esse é o seu segundo sintoma.

Três meses depois da cirurgia, Seu Laurindo está com incontinência urinária e não pode ficar muito tempo longe do banheiro. A vida sexual também não anda boa e tem sido difícil manter ereções. O médico tenta consolar: “Toda cirurgia tem seus riscos, mas veja pelo lado bom, o senhor está curado do câncer!”. Incontinente e impotente, esses são seus terceiro e quarto sintomas.

Seu Laurindo nunca teve sintoma algum de câncer de próstata, mas colecionou diversos sintomas (muitos deles incapacitantes) ao longo do processo de “cura” do câncer descoberto. Evidentemente, morrerá de outra causa que não o câncer de próstata. O que ele não sabia é que, muito provavelmente, o câncer de próstata jamais o mataria; ele morreria com o câncer, mas não do câncer.

Seu Laurindo foi um paciente que conheci na graduação – não sob esse nome, claro. Não fui eu quem requisitou os exames ou realizou a cirurgia. Seu Laurindo – e o médico – foram parte da – no mínimo – suspeita estratégia por trás do Novembro Azul.

O programa é apoiado pela Eurofarma, a oitava maior farmacêutica do mundo, por hospitais e clínicas privados. Não é recomendado, porém, pelo INCA, pelo Ministério da Saúde, pela OMS e outras instituições internacionais. A propaganda na TV promete diagnóstico precoce e cura, mas esconde que os riscos da doença são pequenos, à diferença dos riscos que acarretam os exames e as intervenções.

É mais fácil decidir fazer parte disso com todas as cartas na mesa. Informe-se com seu médico – e cobre dele uma postura isenta.

*Thiago Campos é médico de família e comunidade da Clínica da Família Maria do Socorro, na Rocinha-RJ.

Foto: Commons