11 de fevereiro de 2018, 12h37

Inocentado no Crime da Rua Cuba é hoje advogado na Laja Jato: “Fui condenado pela imprensa”, diz Jorge Bouchabki

Em 1988, ele foi acusado de assassinar os pais: “Eu nunca fui tratado como suspeito. Ser tratado como suspeito eu até entenderia. Mas me trataram sempre como culpado”

Foto: Reprodução/Youtube

Um dos casos de homicídios mais famosos da crônica policial paulista é o chamado Crime da Rua Cuba. Na véspera do Natal de 1988, o advogado Jorge Toufic Bouchabki e sua esposa, Maria Cecília, foram assassinados na casa onde moravam: Rua Cuba, 109, em um elegante endereço da capital, no Jardim América. Na época, o filho do casal, Jorge Delmanto Bouchabki, então com 18 anos (foto), foi acusado pelo Ministério Público de São Paulo de ser o autor dos disparos fatais.

Absolvido pela Justiça por falta de provas em duas instâncias – a última em 1999 – Bouchabki não conseguiu apagar por completo o estigma da acusação. “Eu nunca fui tratado como suspeito. Ser tratado como suspeito eu até entenderia. Mas me trataram sempre como culpado. Eu fui condenado pela imprensa”, diz o hoje advogado, em entrevista a Wálter Nunes, da Folha de S.Paulo – a primeira vez que fala à imprensa, segundo ele, em 27 anos.

“Mas a vida é redonda”, arremata, para dizer que deu a volta por cima. Aos 47 anos, ele segue frequentando tribunais, mas para defender seus clientes – entre eles, réus em cinco processos ligados à Operação Lava Jato. “Eu não tenho problema em falar sobre o assunto. Eu não matei meus pais. Estou tranquilo”, garante.

Bouchabki é advogado de João Muniz Leite na ação em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é acusado de ser o verdadeiro dono de um apartamento vizinho ao seu, em São Bernardo do Campo. Outro réu defendido por ele é Alexandre Margotto, ex-sócio do operador Lúcio Funaro, acusado nas operações Cui Bono? e Sepsis de participar de um esquema que extorquia dinheiro de empresários com interesse em financiamentos na Caixa. Bouchabki atua ainda em processos da operação Greenfield, que investiga desvios em fundos de pensão, e da Porto Victória, que apura uma quadrilha especializada em evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

Jorge Bouchabki guardou durante anos tudo o que era publicado sobre ele. Acumulou recortes de jornais e revistas. Pensou em processar os autores das reportagens, mas preferiu não levar adiante. “Joguei tudo fora anos atrás, nem me lembro quando”. Mas conserva na memória boa parte das matérias.

“Eu sofri um bombardeio. Um dia um perito foi em casa e achou uma mancha azul num colchão que ficava embaixo da minha cama. Era uma mancha de caneta que tinha estourado, mas na imprensa saiu que a perícia tinha achado uma mancha no meu quarto que podia ser de sangue dos meus pais”, diz.

“Outra vez um policial entrou no sótão de casa e sujou a camisa nas paredes empoeiradas. Tirou a camisa e saiu de casa com ela na mão, vestido apenas com a camiseta que estava por baixo. No dia seguinte havia uma matéria dizendo que a polícia achou uma camisa com vestígios de sangue no meu quarto.”

Ele reclama até da maneira como o identificaram nas reportagens. “Eu nunca fui chamado de Jorginho. O meu apelido em casa e com os amigos era Ginho. Esse negócio de Jorginho foi invenção de jornalistas. Eu odeio ser chamado assim”, diz. “Por isso eu peguei aversão a policial, promotor e a jornalista.”

Em 2010, porém, a família de um delegado preso numa operação da Polícia Federal bateu à sua porta. No primeiro encontro com o cliente preso, foi questionado pelo policial o que achava da profissão que ele exercia. “Eu disse que não gostava e contei o que tinha acontecido com minha vida, mas que iria defendê-lo da melhor forma”, diz.

“No final das contas, o caso era uma enorme injustiça contra ele, que foi absolvido em segunda instância nos sete processos. Hoje somos amigos”, afirma. “A vida é redonda”, arremata.

Com informações da Folha de S.Paulo