Milos Morpha

por Cesar Castanha

04 de agosto de 2015, 08h53

Inquietantemente Universal, por Cecília Shamá

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Querido pai,

 Tu me perguntaste recentemente por que afirmo ter medo de ti. Eu não soube, como de costume, o que te responder, em parte justamente pelo medo que tenho de ti, em parte porque existem tantos detalhes na justificativa desse medo que eu não poderia reuni-los no ato de falar de modo mais ou menos coerente. E se procuro responder-te aqui por escrito, não deixará de ser de modo incompleto, porque também no ato de escrever o medo e suas consequências me atrapalham diante de ti e porque a grandeza do tema ultrapassa de longe minha memória e meu entendimento. – Franz Kakfa, Carta ao pai – 1966

 

Walter Benjamin, em seu texto A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica (1936), elucidou o que seria a perda da aura no mundo moderno. As máquinas assumiriam. O clássico não mais seria visto com deleite. Tombaram as esculturas, as salas lotadas do primeiro cinema ao lado de palanques de circo davam ao seu Natal o amargo do tudo e do nada. Um judeu, morto por sua religião desde o momento em que havia nascido, predestinado a ser caçado pelo momento histórico do fascismo e do nazismo e a perder sua vida pelas próprias mãos como forma de manter incólume seus ideais, via nas mudanças mecânicas e no desenvolvimento do maquinário o desenvolvimento da praticidade humana.

E, através da reprodutibilidade imediatista das técnicas de produção, iríamos ver um todo e esquecer os detalhes. Os detalhes seriam nossas essências. Nossa necessidade de evasão num mundo caótico. Nossa insignificância. Em sua solidão e desespero, Benjamin poderia ser um pai do pós-moderno gótico visto em Penny Dreadful: Décadas depois estamos tão desamparados quanto ele, ainda precisamos nos esconder e revelar entre as luzes e a escuridão do nosso coração.

Se pegarmos a mulher vitoriana, e ela ainda existe em cada mulher do agora, que ama diferentes séculos dentro de si mesma, que pode ser pastoril no conforto de um livro ou moderna num ônibus lotado na hora do rush, Vanessa Ives (Eva Green) católica e bruxa seria a encarnação da contradição feminina movida pelo tecido frágil da própria sexualidade. O que é o gótico senão o horror de ser moderno em lares tacanhos e castradores e ao mesmo tempo viver a ambiguidade de uma ternura antiga e fora de lugar? Ser gótico é estado de espírito do pós-modernismo e do pastiche, é viver entre tempos e não se adequar a nada. Não está no batom escuro e na aparência hype do “gótico suave”. O verdadeiro gótico vitoriano é antítese barroca da alma. E não é nada suave.

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Porque a bruxa representada por Vanessa é uma mulher e nada mais. Ela é sexual e religiosa, maternal e órfã, é filha, puta e nunca santa. Então como colocar uma mulher e seus desejos de oceano limitados pelo lago londrino da Revolução Industrial no filtro de 2015?  Você contradiz o sexo feminino com a literatura gótica clássica: Dorian Grey (Oscar Wilde, 1890), nossa vaidade física, Viktor Frankenstein (Mary Shelley, 1818), nossa vaidade intelectual. O homem racional torna-se um animal na época de maior vigília da moral e dos bons costumes da Rainha Vitória. E a aura que Benjamin via como perdida na reprodução volta como os monstros debaixo de nossas camas, reproduzidos na televisão, transpostos dos clássicos literários para o audiovisual do entre lugar televisivo: Penny Dreadful não é série, não é cinema puro, é uma criatura cultural híbrida, para usar de Néstor García Canclini em seu livro Culturas Híbridas: Estratégias para entrar e sair da Modernidade (1990) ao dizer que uma heterogeneidade na obra de arte pós-moderna é impossível, uma vez que observamos nossos antepassados em desenhos de cavernas ou em museus de história natural através da proteção do vidro que separa o ontem do agora.

Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então – Lewis Carroll, Alice no país das maravilhas.

Veja só: Frankenstein foi escrito por Mary Shelley como um desafio entre amigos, reunidos em um final de semana para que alguém produzisse a peça mais assustadora. E como mulher ela deu luz a um filho grotesco, ao criar alguém, à imagem e semelhança de si mesmo, que em troca lhe odeia. O cientista solitário Viktor é rejeitado por seu próprio filho. Tal como racionalmente fizemos com Deus.

A segunda temporada de Penny Dreadful é centrada nas mulheres. Vanessa luta por sua alma, contra seus desejos e se refugia na natureza. Mas como todo anjo pós-moderno caído, essa mulher, que vive na cidade e parte em busca de um campo pastoril é uma figura natural de fertilidade da própria natureza. O erotismo de ser mulher por conta própria.

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Madame Kali ou Evelyn Poole (Helen McCroy) inspirada na condessa sanguinária Isabel Bathory (1560-1614), que matava suas amas e drenava o sangue de moças virgens para se manter com a aparência jovem e que, condenada, foi praticamente emparedada dentro de seu castelo até morrer de fome, chega como uma oponente pagã ao catolicismo de Vanessa. A condessa Drácula, como era chamada, já levava o nome de lésbica, assassina, bruxa quando foi condenada por seus crimes. Ela existiu historicamente. Ela ainda existe todas as vezes que odiamos nossos corpos, que somos menos por nossa aparência, quando não somos relevantemente bonitas para sermos desejadas. Existe uma parte de Madame Kali em toda mulher. Kali fala que existe desde o Egito. Poderia até mesmo ser uma forma madura de Cleopátra.

E nesse ponto vemos Joan Clayton (Patti LuPone), a aborteira feia, velha, grosseira. Uma criatura da mata. Irmã de Kali. Colhendo plantas, cozinhando, sendo mãe natureza. Dando abrigo a Vanessa. Mandando-a se proteger do mal ao invocar seu próprio demônio pessoal.  E nomeando a nossa Vanessa pequeno escorpião. Porque por melhor que sejam as intenções de nossa protagonista, a picada de sua cauda irá surgir deliberada ou indiretamente. De onde brotam os frutos da culpa.

Culpa do pai que abandonou o filho moribundo em outro continente. Culpa de Ethan (Josh Hartnett), que carrega um animal em si sempre em fuga do lar. Ele é o cão de Deus, por assim dizer, e seu maior medo ainda é ir para casa. Culpa de Sembene, traidor de sua raça. E culpa de Frankenstein, por se ver carente e passional, que cria e abandona seus filhos, ao seu deleite. Culpa por todos os lados. Culpa e transgressão.

Há uma revistinha datada de 1876,  que mostra um esqueleto com uma faca na mão com a legenda: o verdadeiro assassino é a negligência da sociedade. É o fantasma que mata as moças pela noite. O fantasma da negligência. Essa revistinha se referia à Jack, o Estripador. Um homem que não amava as mulheres. Como em nosso estado atual: Pernambuco não ama as mulheres. Recife não se ama. A negligência continua. E se não coloco a gravura em meu texto, é para que você ative o horror da sua imaginação, para ver um fantasma, atrás de você, sussurrando que ele é a negligência.

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Em 2015, uma jovem sai de casa, à procura de uma entrevista de emprego. Uma moça buscando liberdade financeira dos pais. Quando é abusada e morta por uma besta. Um animal de puro instinto, como seu padrasto definiu a si mesmo ao falar do assassinato que cometera. Que não pôde se controlar e lhe tirou a vida. Pois, segundo ele, enfeitiçado pela sexualidade da jovem, o monstro dentro de si falou mais alto. Por culpa ainda da mulher dentro da menina que ele violentou e matou. Como ser humano, não há nada mais humano que a violência. Para cada esquina que cruzo no bairro onde moro, não há mais como não caminhar até minha casa sem olhar cinco, seis vezes por cima do ombro. Buscando fugir fisicamente dos monstros.

E, dentro da minha cabeça, dos meus monstros góticos e pós-modernos, clássicos e atuais, da minha sexualidade, cada mulher bruxa será julgada pelos anos que virão. Quando protegemos um filho: bruxa. Quando rejeitamos um homem: bruxa. Quando me sinto solitária ou muito séria: bruxa. Quando me isolo: bruxa. Quando me importo demais ou sou apática: bruxa. Quando me nego a ser mãe: bruxa. Cada vez que sou uma mulher, uma irmã, uma filha, uma puta, uma vadia, uma pudica: bruxa. Mil vezes bruxas ao redor do mundo.

E cada uma dessas vezes quem está ateando fogo aos meus demônios que assuma seu papel. Porque nenhum desses adjetivos serão assumidos pelas mulheres, pelos homens, pelas pessoas, vitorianas e modernas, que, bruxas em essência, conhecem e encaram a si mesmas, tal como Vanessa. E você? Conhece a si mesmo? De perto? Faria isso e nos olharia sem véu de bondade ou racionalidade e se contentaria em não nos reduzir? Você o faria?

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