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20 de fevereiro de 2018, 16h30

A intervenção no Rio é uma resposta do governo à indignação carnavalesca

No último domingo, dia derradeiro dos festejos pela cidade, já havia gente declarando que a segurança estava bem melhor que a do ano passado. A intervenção civil-militar também foi uma resposta do governo à revolta dos foliões

Foto: Francisco Proner Ramos/Mídia NINJA
A ação das Forças Armadas na cidade do Rio de Janeiro, nos últimos anos, sucede-se, costumeiramente, por dois motivos: ou econômico, ou político. Uma coisa é certa: nunca foi para resolver definitivamente o problema da violência. Geralmente o empresariado do estado exige a presença dos militares para a realização de grandes eventos, como foi no caso das Olimpíadas e do Rock in Rio. Hoje, com maior clareza, vemos o elemento político saltar aos olhos, embora a ação federal tenha tido um grande apoio dos empresários do estado. As reformas nunca foram necessárias Dizia-se que sem a Reforma da Previdência, o...

A ação das Forças Armadas na cidade do Rio de Janeiro, nos últimos anos, sucede-se, costumeiramente, por dois motivos: ou econômico, ou político. Uma coisa é certa: nunca foi para resolver definitivamente o problema da violência. Geralmente o empresariado do estado exige a presença dos militares para a realização de grandes eventos, como foi no caso das Olimpíadas e do Rock in Rio. Hoje, com maior clareza, vemos o elemento político saltar aos olhos, embora a ação federal tenha tido um grande apoio dos empresários do estado.

As reformas nunca foram necessárias

Dizia-se que sem a Reforma da Previdência, o Brasil afundaria ainda mais na crise, no entanto, com uma imensa pressão popular, o governo recuou com esse projeto e agora passa a investir em questões menos impopulares como a privatização da Eletrobrás, autonomia do Banco Central etc.. acompanhadas de uma suposta investida contra a criminalidade, questão de grande apreço popular.

Segundo alguns especialistas, a economia vem mostrando sinais de retomada, e tudo indica que ela irá crescer mesmo sem a aprovação da Reforma. Se isso acontecer, teremos uma prova cabal de que o governo, em conluio com o empresariado, usou a crise como retórica para promover as reformas que visam massacrar a classe operária (tanto na prática laboriosa quanto na organização) e aumentar os benefícios dos patrões. Somente quem é tonto se esforçará para não ver que a Reforma Trabalhista, que passou e já está em vigor, fazia parte dessa estratégia.

Mas para passar um pano em todo o processo, o Governo, ao lado do empresariado, banca uma intervenção na cidade do Rio de Janeiro. O ministro da Fazenda afirma, por seu turno, que será necessário direcionar mais recursos para as Forças Armadas por conta da ação militar no estado. Depois vem o jornalista da CBN, Carlos Sardenberg, dizer que o governo não tem dinheiro para a manutenção das estradas e viadutos, educação e saúde.

Governar é uma questão de prioridade”, disse uma vez John F. Kennedy, frase hoje repetida inúmeras vezes pelos políticos condutores do golpe. Privatizar e reprimir parecem ser a prioridade atual do governo num momento em que se está ficando cada vez mais claro que não havia necessidade alguma das Reformas.

A memória política e a solução para o desespero

A população da Cidade está tão desesperada com a onda de criminalidade que qualquer proposta para solucionar este problema é bem recebida. O jornal O Dia, de grande circulação popular, afirma que 65% dos seus leitores são favoráveis a intervenção.1 A indignação era enorme com o governo, por isso que o desfile da escola de samba Paraíso do Tuiuti encantou tanto os cariocas. Mas quando acabaram os confetes, o medo real retornou e com ele o tormento, o medo de sair de casa à noite, dos tiroteios etc.. e o mesmo governo criticado propõe a intervenção militar.

Esse apoio da população é proveniente da memória política popular que acredita firmemente que no período militar a segurança era melhor. Um culto ao saudosismo, uma armadilha da memória. A memória política confronta a realidade jurídica, cultural e política e pretende silenciar a memória social (a que se encontra nos livros) que produziu versões do passado onde o cidadão comum não se enxerga.

Maurice Halbwachs observa que quando há uma crise nas instituições sociais e políticas, a melhor forma de ajudá-las é se apropriar das tradições.2E com a crise atual das instituições detentoras da verdade (políticas e culturais), as classes dirigentes que se apoderam da tradição, do gigantesco repertório de lembranças entranhadas na memória coletiva das pessoas, no nosso caso o uso dos militares no próprio território, sabe o quer está fazendo e o impacto que isso desencadeia na mentalidade popular.

Assim, reconstrói-se elementos rejeitados pela história oficial (aquela onde uma parcela considerável de indivíduos não se vê representada). A ditadura militar pode ser vista como positiva na memória de grupos que não participaram de movimentos políticos da época, que não tiveram parentes perseguidos etc.. Inclusive, pesquisas indicam que as Forças Armadas é a instituição que os brasileiros mais confiam. Por que não trazer isto para a discussão política? As possibilidades de provocar uma reação positiva são imensas?

No último domingo, dia derradeiro dos festejos pela cidade, já havia gente declarando que a segurança estava bem melhor que a do ano passado. Enfim, a intervenção civil-militar também foi uma resposta do governo à revolta dos foliões, uma forma de silenciar a indignação. Não digo que Temer quer popularidade, mas apenas acalmar os ânimos, manter o descontentamento ligado apenas a uma questão ideológica, enfim, “despopularizá-lo”, para dar, assim, prosseguimento a sua política tenebrosa.

Os golpistas podem ter perdido a peleja da Previdência, vencida pelo povo, principalmente através da festa, porém, entraremos agora em uma nova fase: as das privatizações em massa. Se o povo não se unir, por se sentir seguro com a presença dos militares nas esquinas, o pacote da maldade irá avançar. Empresas nacionais e universidades estarão em risco.

2HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. Tradução de Beatriz Sidou.  2ª ed. São Paulo: Ed. Centauro, 2013.

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