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16 de janeiro de 2019, 13h04

Já podemos tirar a palavra “progresso” da bandeira

Raphael Silva Fagundes: “Um governo que se elegeu apresentando um modelo inspirado no passado não pode ter em sua bandeira a palavra ‘progresso’ estampada”

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Para o historiador Jacques Le Goff, o principal empecilho para a irrupção da ideia de progresso em seu sentido moderno, isto é, na esfera do conhecimento acerca do tempo era o fato de “o modelo continuar a ser posto no passado” (1). E, de mais, a ideia de progresso pertencia ao domínio científico, somente por volta de 1740 que “o conceito de progresso tende a generalizar-se e difunde-se nos domínios da história, da filosofia e da economia política” (2).

No entender de Robert Nisbet, a ideia de progresso é antiga e não sofreu mutações consideráveis. O sociólogo americano afirma que “a partir de Hesíodo e talvez de Homero, a fé no progresso tenha sido a fé dominante” (3), e que Eusébio apresentava uma visão “desenvolvimentista ou progressiva” (4) de Roma, e ainda que as palavras de Santo Agostinho sobre o progresso material encontradas no Livro 22 de A Cidade de Deus “poderiam ter sido igualmente escritas por Sófocles, Lucrécio ou até mesmo por Condorcet ou Godwin, no século XVIII”(5). Segundo Nisbet, é em Lucrécio que encontramos, pela primeira vez, em toda literatura ocidental, a expressão progredientes, “da qual deriva a nossa palavra ‘progresso’”(6).

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Não duvidamos de que o ideal de progresso esteve presente entre os antigos e os medievos, contudo, ele vivia sob o véu da sacralidade. O próprio Nisbet afirma que: “Grande parte do pensamento político e social do Ocidente não consiste tanto em mudar ou acrescentar a perspectiva de Santo Agostinho e do Cristianismo. Ao contrário, consiste – especialmente no Ocidente moderno – na remoção das fundamentações teístas que para um Agostinho eram essenciais para o progresso e a perfeição (7).

Sendo assim, somos inclinados a acreditar que foi exatamente devido à extração do divino (das “fundamentações teístas”) da concepção de tempo, a razão de sua transformação pelos modernos. Embora uma consciência progressista possa ser encontrada nas Sagradas Escrituras (aliás, segundo François Hartog, é no livro de Êxodo que uma forte tensão para frente aparece na noção temporal judaica (8)), a história da humanidade, até meados do século XVIII, estava vaticinada em suas palavras; o destino do mundo estava preso às descrições bíblicas. Ainda não nos deparamos com uma noção de progresso como a que irá surgir nos finais do XVIII, na qual o futuro torna-se uma incógnita e totalmente aberto ao novo.

Essa noção de progresso profano, contextualizado dentro de uma dessacralização da sociedade ocidental, fez nascer no século XIX várias teorias sociológicas pautadas na evolução, do marxismo ao positivismo passando até mesmo pelo kardecismo.

Esse movimento se deu no Brasil com o positivismo que chegou ao Exército através do professor de matemática da Escola Militar, Benjamin Constant. O positivismo defendia o progresso pautado na ciência; era extremamente materialista de modo que as instituições acadêmicas imperiais o viam como anticristão e antimonárquico.

Alguns enxergavam essa valorização extrema à ciência com desconfiança, como era o caso de Machado de Assis, que satiriza a apreciação exagerada à ciência em seu famoso conto, “O Alienista”.

Foram esses homens positivistas que proclamaram a República. O céu estrelado da bandeira, inclusive, foi feito por um astrônomo da época que conseguiu registrar a posição exata das estrelas.

Hoje a ideia de progresso está muito mais relacionada à crítica às consequências provenientes da industrialização, tanto sociais quanto ambientais. Uma questão que vem se desenvolvendo desde o pós-guerra. O discurso progressista, por exemplo, destaca a pós-modernização das relações de gênero, consequência das necessidades do mercado que exigiram alterações permanentes levando a mulher a trabalhar fora de casa.

Portanto, se temos um governo que não apreende essas questões, pelo contrário, as execra, é porque não está dedicado ao progresso. Se um governo descartar as questões ambientais, de inclusão social e de modernidade das relações de gênero, ele não pode dizer que se pauta no progresso. Além disso, vemos os É uma questão de conceito e seu sentido no tempo histórico, ou como destaca Wittgenstein, da palavra e seu uso.

Um governo que se elegeu apresentando um modelo inspirado no passado, que prioriza valores tradicionais em detrimento de valores modernos, não pode ter em sua bandeira a palavra “progresso” estampada. Seria muito mais sensato arrancá-la.

(1)LE GOFF, Jacques. História e Memória. 7 ed. Trad: Bernardo Leitão. Campinas: EdUnicamp, 2013. p. 228.

(2)Ibid.

(3)NISBET, Robert. História da Ideia de Progresso. Trad: Leopoldo José Collor Jobim. Brasília: UNB, 1985. p. 16.

(4)Ibid., p. 65.

(5)Id. p. 66.

(6)Id. p. 54.

(7)NISBET, Robert. Op. Cit., p. 68.

(8)HARTOG, François. Op. Cit., p. 89.

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