Raphael Silva Fagundes

18 de abril de 2019, 06h00

Jair Bolsonaro, o deus da mais-valia

Raphael Silva Fagundes: “A força de trabalho deveria custar, no mínimo, R$ 3.928,73, já que esse é o valor necessário para manter a força de trabalho viva dignamente”

Foto: Agência Brasil

Ao aumentar os anos de prestação de serviço da classe trabalhadora usando o discurso de que a expectativa de vida aumentou, o que se quer, na verdade, é diminuir a expectativa de vida da força de trabalho. Isto é, nos fazer morrer mais cedo.

A reforma da Previdência irá reduzir acesso a remédios e outros benefícios, ao mesmo tempo em que se quer impor a carteira de trabalho verde e amarela. O trabalhador terá que trabalhar mais para poder tirar férias, já que estas não serão remuneradas. Ele também terá que trabalhar mais para ter, no fim do ano, dinheiro para comprar o presente de Natal e realizar a ceia com a família.

Ou seja, trabalharemos mais para obter a mesma quantia que recebemos atualmente. Se há mais-valia no sistema de trabalho atual, nesse novo sistema ela ganhará uma robusta musculatura. Mais-valia é o trabalho não pago, ou seja, o tempo dedicado na jornada de trabalho para pagar o patrão. Ninguém trabalha para sobreviver apenas, pois parte da jornada de trabalho é dedicada para o trabalhador e outra parte para o patrão.

As férias remuneradas não são um bônus, mas parte da mais-valia recuperada. O mesmo é o caso do 13° salário. Contudo, evidentemente, a maior parte da mais-valia não é recuperada, pois não existiria capitalismo e viveríamos na Coreia do Norte.

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“O capital não se preocupa com a duração da vida da força de trabalho. Interessa-lhe exclusivamente o máximo de força de trabalho que possa ser posta em atividade.” Marx escreve essas linhas em “O Capital”, em meados do século XIX. Seria anacronismo usarmos as mesmas palavras para classificar as reformas que estão sendo implementadas desde 2016?

Estamos fazendo o caminho inverso. Aumentando o tempo de trabalho ao mesmo tempo que se tiram os “benefícios” (entre aspas porque se trata do resgate de uma parte ínfima da mais-valia, isto é, do trabalho não pago). Acho que precisamos mais do que nunca das palavras de Marx, não é à toa que o governo busca tanto depreciá-lo.

Não se critica o socialismo porque ele não deu certo, critica-se porque ele é o único capaz de combater o projeto covarde do governo. Não digo o sistema socialista, mas as ideias socialistas já assombram a burguesia. São as únicas com uma perspectiva contundente e economicamente concreta, pois estão baseadas na investigação científica, capazes de denunciar racionalmente as mazelas trazidas pelo novo governo.

Os governos petistas passaram por um ataque mais brando devido à crise dos paradigmas nas ciências humanas. As universidades deixaram de adotar uma perspectiva marxista, principalmente os cursos de História, Filosofia, Sociologia e Antropologia. A “linguistic turn”, Foucault e outros modelos pós-modernos assumiram a dianteira acadêmica. Mas com a ascensão da extrema direita e com o acirramento da exploração capitalista anunciado pelo Ministro da Economia, a crítica marxista precisa voltar, sendo mais útil do que no período militar, pois agora tem o direito de falar, de usufruir do poder de convencimento.

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“A produção capitalista, que essencialmente é produção de mais-valia, absorção de trabalho excedente (como se trabalhássemos metade do dia pelo nosso salário e a outra metade de graça para o patrão), ao prolongar o dia de trabalho, não causa apenas a atrofia da força humana, à qual rouba suas condições normais, morais e físicas de atividade e de desenvolvimento. Ela ocasiona o esgotamento prematuro e a morte da própria força de trabalho” (1).

As reformas querem que morremos antes de aposentar, não só porque pretendem aumentar o tempo de trabalho (aumentando o tempo que trabalhamos de graça para o patrão), mas porque tiram diversos “benefícios”, somando-se a isso o fato recente de o governo declarar que não haverá mais aumento real no salário mínimo. Será que há realmente anacronismo nas palavras de Marx?

De acordo com o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o salário mínimo necessário para sustentar uma família de quatro pessoas deveria ser de R$ 3.928,73. “O departamento divulga mensalmente uma estimativa de quanto deveria ser o salário mínimo para atender às necessidades básicas do trabalhador e de sua família, como estabelecido na Constituição: moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e Previdência Social” (2). A força de trabalho deveria custar, no mínimo, R$ 3.928,73, já que esse é o valor necessário para manter a força de trabalho viva dignamente. O trabalhador trabalha para isso, já que os produtos que fabrica, que são também os que consome, sendo necessários para a sua existência, somados chegam a esse valor. Mas o lucro… Ou seja, qual é o valor da mais-valia? Quanto tempo de trabalho não está sendo pago? Quanto está sendo roubado? Quase 400%, com propensão a aumentar, já que a retirada de direitos apenas começou.

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(1) MARX, K. O Capital. Livro 1 vol 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. p. 307.

(2) https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2019/02/06/salario-minimo-ideal-em-janeiro-dieese.htm

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.