28 de junho de 2018, 16h39

Jean Wyllys: Stonewall é o levante do orgulho LGBT

“Não, não creio que estejamos nos dirigindo para uma sociedade melhor na qual a opressão exercida contra LGBTs desapareça por completo. Mas acredito que é possível construir espaços políticos, culturais e sociais de resistência a essa opressão”, afirma o deputado e ativista

Por Jean Wyllys*

Hoje é o dia em que se comemora em todo mundo o Orgulho LGBT. Porque foi num dia 28 de junho, há 49 anos, que aconteceu o levante do bar Stonewall, em Nova York, nos EUA. Gays, lésbicas, bissexuais e trans, cansados das frequentes humilhações e violências físicas por parte da polícia, reagiram em nome de sua dignidade, inaugurando uma nova fase do então movimento homossexual, no rastro dos movimentos de contracultura do final dos anos 60 e início dos 70, como o feminista, o hippie e o de afirmação dos direitos civis dos negros.

Comemorar o levante de Stonewall é, portanto, mais que constituir uma mitologia para LGBTs: é reafirmar as conquistas políticas e culturais feitas por aquela geração.

A herança dos anos 60 e 70 é bastante considerável e devemos defendê-la a qualquer preço contra todas as tentativas de retorno às situações anteriores. Contudo, o que nos surpreende é o fato de que essa herança, que afetou a situação das mulheres em geral e de LGBTs, ao menos nas sociedades ocidentais, não tenha alterado, definitivamente, a estrutura mesmo daquilo que o sociólogo Pierre Bourdieu chama de “dominação masculina”.

Devemos, portanto, refletir não somente sobre o que mudou a partir de Stonewall, mas também analisar o que permaneceu; o que não variou e denunciar as instituições que operam para perpetuar as ordens social e sexual, promovendo, em contrapartida, o orgulho que poderá desafiar política e culturalmente essa ordem.

Por que precisamos promover o orgulho LGBT?

Porque a sociedade define um lugar estigmatizado para nós e, por causa disso, somos assim definidos coletivamente, seja qual for a maneira através da qual cada indivíduo pensa — aceita ou recusa — a sua relação com tal coletivo. Essa definição coletiva é feita, sobretudo e primeiramente, a partir do insulto que vitima “viados”, “travecos” e “sapatões” desde a mais tenra infância, quando se apresentam os primeiros sinais da “inversão”, seja a da identidade de gênero (o menino que gosta de “coisas de meninas” e vice-versa), seja a da orientação sexual (o garoto que gosta de garotos em vez de garotas ou o contrário). Cada LGBT é, assim, e desde muito cedo, ao menos potencialmente, vítima do insulto em sua própria família, na rua, no local de trabalho, em todos os lugares onde se desenvolve sua vida.

E esse insulto aparece também sob a forma de estereótipos ridículos ou difamantes em jornais, na tevê e no cinema. Tudo isso forma o que o antropólogo Didier Eribon chama de “mundo de injúrias”, responsável pela estruturação da relação da pessoa LGBT com os outros e consigo mesma (no caso da relação consigo, é praticamente impossível não experimentarmos, principalmente na adolescência, um ódio ou vergonha de quem somos; de nossa identidade ou desejo).

Ora, é justamente essa subjetividade (eu, caráter, identidade) insultada e inferiorizada que se deve superar por meio da afirmação de si; por meio da reinvenção da própria personalidade e da vida, num gesto pessoal e coletivo de desconstrução e ruptura das normas que nos inferiorizam. A ordem social homofóbica da cultura heteronormativa nos impõe um status inferiorizado, o que determina profundamente nossa personalidade, mas também nossa identidade coletiva.

Logo, não temos outra escolha que não aceitar(-se) e se reapropriar positivamente dessa identidade forjada pela cultura homofóbica na qual nascemos e crescemos ou então vivê-la na vergonha e na dissimulação, frutos da homofobia internalizada. Ser um LGBT “autêntico” ou “rebelde” é, portanto, sentir orgulho de si, daquilo que a cultura homofóbica e transfóbica fez de nós; de nosso desejo/afeto (orientação sexual) ou da maneira como nos percebemos e nos sentimos (identidade de gênero).

Sempre que uma minoria reivindica direitos ou tenta mexer em certas peças do jogo que lhe oprime e estigmatiza, os guardiães da ordem social – e que gozam de privilégios por conta dela – mobilizam-se para se oporem às transformações e ao progresso que a reivindicação da minoria pode trazer. E a mobilização mais frequente desses guardiães da “ordem e da moral” consiste em afirmar que as minorias estão impondo uma “ditadura” (quem já não ouviu estupidezes como a expressão “ditadura gay” ou “ideologia de gênero”?). Como se afirmar o direito à homossexualidade e transexualidade significasse impedir os heterossexuais e cisgênero de ser o que são… Essa mobilização reacionária é apenas a maneira pela qual os dominantes sempre defendem os próprios privilégios.

Não, não creio que estejamos nos dirigindo para uma sociedade melhor na qual a opressão exercida contra LGBTs desapareça por completo. Mas acredito que é possível construir espaços políticos, culturais e sociais de resistência a essa opressão. Meu mandato é um desses espaços. Acredito em resistência. Nós somos resistência!

*Jean Wyllys é deputado federal pelo PSOL do Rio de Janeiro