11 de fevereiro de 2019, 11h46

Jornal evangélico americano comemora, com Damares e Bolsonaro, acesso de religiosos a tribos isoladas

Segundo o The Christian Post, a política de acesso a tribos isoladas deve mudar sob Jair Bolsonaro e sua ministra da Família, Mulher e Direitos Humanos, a pastora Damares Alves.

O jornal evangélico norte-americano The Christian Post, com sede em Washington, defendeu o missionário Steve Campbell, investigado pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e pelo Ministério Público Federal (MPF) por suspeita de entrar na terra indígena isolada Hi-Merimã. Em matéria deste domingo (10), a publicação online cita o coordenador-geral de Índios Isolados e Recém-Contatados da Funai, Bruno Pereira, afirmando que ele tem uma visão “dura” sobre o trabalho de Campbell e a atividade missionária em geral. A reportagem expressa esperança de que a política de acesso a tribos isoladas mudará sob Jair Bolsonaro e sua ministra da Família, Mulher e...

O jornal evangélico norte-americano The Christian Post, com sede em Washington, defendeu o missionário Steve Campbell, investigado pela Fundação Nacional do Índio (Funai) e pelo Ministério Público Federal (MPF) por suspeita de entrar na terra indígena isolada Hi-Merimã.

Em matéria deste domingo (10), a publicação online cita o coordenador-geral de Índios Isolados e Recém-Contatados da Funai, Bruno Pereira, afirmando que ele tem uma visão “dura” sobre o trabalho de Campbell e a atividade missionária em geral. A reportagem expressa esperança de que a política de acesso a tribos isoladas mudará sob Jair Bolsonaro e sua ministra da Família, Mulher e Direitos Humanos, a pastora Damares Alves.

Segundo o The Christian Post, “Campbell e sua esposa estão baseados em Rondônia e trabalham com os índios Jamamadi no estado do Amazonas. Ele vive com os Jamamadis desde 1963, quando chegou à região ainda criança trazido pelos pais, afiliados à Wycliffe Global Alliance [organização dedicada à tradução da Bíblia]”.

O jornal afirma que Campbell se reporta à Baptist Bible Fellowship International (BBFI), organização conservadora fundada em 1950, e cita a Igreja Batista Greene, no Maine, como uma de suas igrejas parceiras. Citando reportagem da Folha de S.Paulo em janeiro, o veículo diz que o missionário entrou na área da tribo Hi-Merimã “por acidente”, enquanto ensinava aos Jamamadi como usar o GPS.

“Bruno Pereira, que coordena as pesquisas da Funai sobre grupos isolados na região, tem uma visão dura das atividades de Campbell (e de outros missionários)”, prossegue a matéria.

O representante da Funai afirmou à Folha que, se ficar provado que Campbell tinha interesse em estabelecer contato e usou seu relacionamento com os Jamamadi para se aproximar da tribo isolada, ele pode ser acusado pelo crime de genocídio por expor a segurança e a vida da tribo dos merimã. Pereira ressaltou que o sistema imunológico dos indígenas não está preparado para doenças como um resfriado simples ou conjuntivite. Ele também destacou que o direito à autodeterminação dos povos isolados deve ser respeitado.

Mudanças

A política da Funai de proteção aos povos isolados, contudo, pode mudar sob Bolsonaro e Damares, comemora o The Christian Post. Bolsonaro é descrito como “um conservador algumas vezes comparado ao presidente Trump”. “Criado católico, ele e a família frequentaram regularmente uma igreja batista no Rio de Janeiro”.

Segundo a publicação, “Bolsonaro disse que haverá mudanças na política atual de não contatar índios isolados. Ele enfureceu protecionistas ao indicar uma antropóloga e pastora evangélica, Damares Alves, para um cargo recém-criado: ministra das Mulheres, Família e Direitos Humanos – sob cuja supervisão estarão os cerca de 900.000 indígenas do país”.

O perfil de Damares publicado na página do ministério refere-se a ela como “educadora, advogada, parlamentar e defensora dos direitos humanos”, sem especificar quando ou em quais instituições a ministra se formou. Não há qualquer referência a uma formação em antropologia. No entanto, segundo o The Christian Post, ela é “uma antropóloga, que por acaso também é pastora evangélica”.

A publicação informa ainda que Damares adotou uma criança indígena – a regularidade da adoção de Lulu Kamayurá foi questionada em reportagem da revista Época – e que foi uma das fundadoras da organização Atini – Voz pela Vida, “um grupo que combate o infanticídio de crianças deficientes e indesejadas, ainda praticado em algumas comunidades indígenas”.

Em 2015, o Ministério Púbico Federal no Distrito Federal entrou com uma ação contra a fundação por “dano moral coletivo decorrente de manifestações de caráter discriminatório à comunidade indígena”, em função da divulgação de um filme sobre infanticídio indígena.