Blog do Valdemar

política e teologia

04 de novembro de 2016, 15h44

José Serra é notívago, mas se quiser pode dormir tranquilo

Diante da delação premiada que aponta o ministro José Serra (PSDB-SP) como beneficiário de propina, o que se espera do tribunal do juiz Sérgio Moro? Exatamente o comportamento que o magistrado vem adotando:
– Firme nas investigações
– Comedido nas conclusões
– Discreto quanto à exposição de dados e acusações
– Presunção da inocência
Processos que “correm” no sistema judiciário não são administrados segundo as preferências políticas que dividem os cidadãos entre amigos e inimigos. No caso José Serra, o procedimento do juiz Sérgio Moro tem sido exemplar. Lembrando que perante a lei todos são inocentes até se prove o contrário. Delação premiada não é “confissão” da culpa alheia, muito menos visão premonitória.
Os fatos apurados que são classificados como “fortes indícios” podem ser catalogados também como “não há provas”. E não é o acusado que tem que provar a inocência, suponho. Mas quem acusa deve “documentar” suas ilações.
O José Serra é antipático, presunçoso e arrogante. Mas daí a condená-lo porque foi citado numa delação…. O sistema judiciário não é pautado pela vingança, muito menos pela opinião pública.
Neste caso, o juiz Sérgio Moro tem se comportado de forma republicana. Enche os seus pares de orgulho e sinaliza para os brasileiros que podem confiar na justiça e no amplo direito à defesa. A justiça tem o seu ritmo e sua velocidade. Ou seja, não funciona a toque de caixa, como gostaria a indústria que transforma qualquer notícia em entretenimento.
Diante da delação premiada que aponta o ministro José Serra como beneficiário de propina, o que se espera da cobertura jornalística séria? Exatamente o comportamento que os grupos de comunicação vêm adotando.
– Noticiaram que o José Serra foi citado da delação
– Não emitiram juízo de valor
– Não produziram estardalhaço televiso criminalizando o acusado
– Não o colocaram na capa das revistas semanais atrás das grades
– As acusações estão sendo investigadas, logo, os editoriais não fazem análises baseados em suposições.
Enfim, o mínimo que se espera de um jornalismo republicano é a devida distância entre acusação e condenação sumária. Com a honra das pessoas não se brinca.
Lembrar que a notícia de que o ministro José Serra foi citado na delação como alguém que transgrediu a lei e participou de atos ilícitos, recebendo dinheiro de empreiteiras em conta no exterior, surgiu em pleno período eleitoral. A chamada grande imprensa soube separar as coisas. Não misturou “alho” com “bugalhos”. Simplesmente este tema foi retirado da pauta para não contaminar o pleito. Quando o juiz Sérgio Moro se pronunciar sobre o caso, então que os comentaristas façam suas análises. Enquanto isso, o nobre ministro trabalha para “internacionalizar” o Brasil.
Comportamento cuidadoso, mas tão cuidadoso, que não inflama as massas a saírem às ruas ou das suas janelas baterem panelas no horário nobre da TV brasileira. Convenhamos, quem é acusado não pode ser jogado à humilhação pública.
Quero me congratular com os editores e com os intelectuais que fazem jornalisticamente a cobertura da política nacional. Comportamento exemplar, digno de um país democrático em que direito de opinião não é confundido com “monopólio da fala” (salve o conterrâneo Muniz Sodré).
O caso José Serra leva-nos a concluir que o tribunal do juiz Sérgio Moro e os grandes grupos de comunicação do país estão numa sintonia fina. Respeitosos, cuidadosos, comedidos, recatados, amistosos, enfim, tratando o servidor público em questão com tamanho respeito como esperamos ser comum ao sistema judiciário e ao jornalismo investigativo imparcial. Belos desempenhos.
Imagine viver num país em estado de exceção em que o sistema judiciário usa pesos e medidas diferentes de acordo com a pessoa ou grupo político? Quando o sistema judiciário é seletivo, ele consagra os justiceiros e sepulta a justiça. O personalismo no judiciário é típico dos sistemas políticos totalitários em que a lei serve a interesses escusos. Que bom que entre nós prospera a impessoalidade tropical, ainda que a toga seja preta e a gravata não admita florais.
Imagina viver num país em estado de exceção em que os grandes grupos de comunicação assumem protagonismos políticos e disputam poder? Ainda bem que no Brasil a comunicação é pública, laica e os concessionários prestam contas dos seus serviços. O fato de não existir concentração de veículos nas mãos de um mesmo grupo (família) deixa-nos protegidos do monopólio da informação (salve o mestre Venício A. de Lima).
Que bom sabermos que o José Serra terá amplo direito de defesa e não será conduzido coercitivamente para prestar depoimento como se fosse um criminoso caçado. Imagina um juiz qualquer ligar para um veículo de comunicação e antecipar a operação em que o José Serra seria conduzido pela Polícia Federal. Cobertura “jornalística” histórica com tomadas de imagens dos helicópteros e os grandes jornalistas devidamente posicionados nos estúdios para dizer a verdade e traduzir as imagens.
O José Serra não é um caso à parte. É assim que procedem os bons juízes e o jornalismo sério. Não há presunção da culpa. Sabemos que o ministro em questão é notívago, mas, se quiser, pode dormir, porque é certo que o juiz Sérgio Moro não vai importuná-lo de forma abrupta para constrangê-lo diante da “opinião pública”. Os grupos de comunicação de abrangência nacional sabem que estão no limite. Preferem a verdade aos simulacros. Os brasileiros estão se cansando da linguagem espetaculosa.
Então, que José Serra durma durante o dia e trabalhe nas madrugadas com a certeza de que o que é seu está bem guardado.
Que o juiz Sérgio Moro siga despertando o respeito dos brasileiros e brasileiras pelo seu trabalho “coerente” em que não admite, sob hipótese alguma, o estrelismo dos operadores do direito, muito menos a justiça seletiva.
Que os grandes grupos de comunicação continuem a sinalizar que o show tem que continuar. Vejam vocês que, diante de tantos disparates, desvios de função e ilícitos envolvendo dinheiro, o setor mais limpo, jamais citado pelos delatores, é justamente o setor dos grupos de comunicação. Famílias honradas que estão acima dos tribunais e das disputas político-partidárias. Os três poderes transgridem e eventualmente decepcionam, mas eis que temos um setor que inspira e impõe respeito. As famílias que mandam nas notícias nacionais são exemplos de honradez. Caráter que passa de pais para filhos. Percebam, contra eles nenhuma citação neste festival de delações que fazem tremer a república.
@ValdemarDema2

Veja também:  O Colunista conversa com Alexandre de Santi, do The Intercept Brasil

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