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29 de Maio de 2012, 21h29

Juan L. Ortiz: Três poemas

Juan L. Ortiz (Juanele) nasceu em 11 de junho de 1896 em Puerto Ruiz, Entre Ríos. Em 1942 mudou-se a Paraná, capital da mesma província, onde morou até sua morte, em 2 de setembro de 1978. Com a exceção de algumas rápidas idas a Buenos Aires e uma breve visita à China e a outros […]

Juan L. Ortiz

Juan L. Ortiz (Juanele) nasceu em 11 de junho de 1896 em Puerto Ruiz, Entre Ríos. Em 1942 mudou-se a Paraná, capital da mesma província, onde morou até sua morte, em 2 de setembro de 1978. Com a exceção de algumas rápidas idas a Buenos Aires e uma breve visita à China e a outros países socialistas em 1957, jamais abandonou sua morada, às margens do rio. Ali dedicou toda a vida a uma única tarefa: tecer uma obra poética singular, que renovaria o idioma como poucas. Debutou em 1933 com El agua y la noche. Seus primeiros dez livros – todos publicados discretamente, sem estardalhaço, sem reclamos de atenção, como cifras para um leitor futuro – seriam reunidos a outros três volumes inéditos sob o título En el aura del sauce em 1971. Há uma pequena amostra da obra de Juanele disponível na internet.

Dele, eu já traduzi “Sim, as escamas do crepúsculo”, que abre o volume De las raíces y del cielo (1958) e “Por quê …?”, do mesmo poemário.  Seguem abaixo “Dia cinza” e “Deus se despe na noite”, de A água e a chuva (1933), e “Vi dois homens…”, de A brisa profunda (1954)

 

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Dia cinza

Que nos pergunta o vago

horizonte que vem

à nossa melancolia

cheio de gestos molhados

– estendido fantasma que

absorve os arvoredos

e nos inverte o lírio

úmido e sozinho d’alma?

 

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Deus se despe na chuva….

Deus se despe na chuva

como uma carícia

inumerável.

Cantam os pássaros entre a chuva.

As plantas dançam de alegria molhada.

 

A terra

como uma fêmea

se dissolve nos dedos penetrantes

com uma palidez de mil olhos desmaiados.

 

Caminho sob a chuva, todo molhado, cantando,

para miragens que fogem num rumoroso sonho.

 

Chuva, chuva!

Nudez do deus

primaveril,

que desce dançando, dançando,

a fecundar a amada

toda aberta de espera, quebrada já de ardor

amarelo e longo.

 

*********

Vi dois homens … 

Vi dois homens que se davam as mãos, alegres

Ó, vi saltar a luz dessa alegria

como um ligeiro fogo novo.

A noite, ainda iluminada, da rua não existia.

Era a noite primeira e era a noite para mim jogada desses fogos.

Bastava o encontro, o puro encontro, para que a chispa brotasse?

 

E vi os outros homens, todos os homens, encontrando-se

na festa revelada de uma ainda tímida unidade.

 

As mãos se uniam fortes para que o calor não escapasse

e fosse esse o hálito da criação conjunta …

 

Mas as outras criaturas? Ah, todas esperam.

Não é só “o homem e as pedras”.

Os outros também esperam, também vivem e podem “colaborar”.

Do homem, e fora do homem, para voltar ao homem, quiçá,

ao ser que será tudo, mesmo que humilde, no absoluto do amor …