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14 de Fevereiro de 2018, 09h43

E o golpe continua: no entanto, é preciso cantar

Não estamos derrotados. Muito menos estamos na ofensiva. O que conseguirmos fazer nos próximos meses será decisivo para o futuro do Brasil

Julian Rodrigues: “Tarefa imediata: impedir a prisão de Lula!! E organizar a resistência, que a luta é longa” Foto: Ricardo Stuckert/Fotos Públicas

“Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou”
Vinícius de Moraes

Brasil afora, blocos entoaram o “Lula lá”. No Rio, o aeroporto Santos Dummont foi literalmente ocupado por uma multidão que juntou à folia um contundente protesto. O mega-politizado – e já histórico – desfile da Grêmio Recreativo Escola de Samba Paraíso do Tuiuti quebrou a internet e encheu de esperança os corações da militância de esquerda. Uma faixa com os dizeres: “STF: se prender o Lula o morro vai descer” apareceu na entrada da Rocinha, eletrizando a blogosfera e a bolha progressista nas redes sociais.

Na última sexta, 9 de fevereiro, abrindo as festividades momescas, Edson Fachin (o último ministro indicado pelos governos petistas, que havia publicamente apoiado Dilma e era conhecido como aliado do MST), negou o Habeas Corpus a Lula. Na mesma canetada, manobrou para que o assunto não fosse apreciado pela segunda turma da Corte, onde as chances de vitória do petista seriam maiores. Jogou o pedido para o plenário do STF, que só deliberará se Carminha, a desqualificada, amiga dos banqueiros e da mídia, decidir colocar na pauta o pedido da defesa de Lula.

Enquanto isso, o Tribunal Superior Eleitoral assume papel de vanguarda no processo golpista, tendo o inominável Luiz Fux (patrono do auxílio-moradia ilegal para a juizada e amigo íntimo de Sérgio Cabral) como seu presidente e porta-voz. Ao mesmo tempo que atropela a lei e cria a categoria de candidatos “irregistráveis” – sem disfarçar que a interpretação é para barrar Lula –  Fux baixa resolução permitindo o autofinanciamento irrestrito das campanhas. Ou seja: candidatos ricos poderão bancar 100% dos custos de suas campanhas eleitorais. Uma mãozinha para os Doria da vida. TSE bateu de frente com a própria Câmara dos Deputados, que havia derrubado o veto de Temer que liberava a farra dos candidatos milionários.

E Sergio Moro continua ativo, mesmo desmoralizado pelas denúncias de Tacla Durán, por seu super-salário e pela confissão de que o auxílio-moradia que recebe indevidamente é compensação para falta de reajuste para os pobrezinhos magistrados. Na sexta-feira, 9, o autoritário juizeco mandou encarcerar em Curitiba, numa decisão secreta (sim, é isso mesmo, o advogado não foi informado antes), o irmão de Zé Dirceu, que mora em Ribeirão Preto, é primário, tem residência fixa, bons antecedentes e sempre contribuiu com as investigações.

Com a publicação do Acórdão da bizarra decisão dos três patetas do TRF-4, a defesa de Lula tem até 20 de fevereiro para impetrar os embargos de declaração. Em processos normais, os desembargadores levariam de 2 a 3 meses para se pronunciar. Considerando os prazos excepcionais que os juízes golpistas de Porto Alegre adotaram para Lula, no início de março o processo deve estar prontinho para ser devolvido ao vingador Moro.  Daí o juiz de camisas pretas poderá decretar a prisão de Lula – a menos que o STF tenha concedido um HC para o ex-presidente.

Organizar a resistência

Todos esses acontecimentos do Carnaval, mais as pesquisas eleitorais que mostram Lula com 60% dos votos válidos, a dificuldade para aprovar a reforma da previdência e a bateção de cabeça das elites para criar um candidato forte mostram que os golpistas não ganharam hegemonia política, não venceram a batalha das narrativas e não podem tudo.

Por outro lado, tudo indica que a “linha-dura” do consórcio golpista segue dando o tom.

Ou seja, grande mídia, capital financeiro, burguesia associada ao capital internacional – e seu braço no judiciário – dobram a aposta no fechamento do regime. Projetam uma democracia cada vez mais oca e artificial.  Trata-se de guardar as aparências de um regime não-ditatorial para, de fato, assegurar que só as forças neoliberais possam governar.

O fato concreto é que – a despeito de todas mobilizações dos movimentos sociais, das Frentes e dos partidos de esquerda – as massas trabalhadoras ainda não se mexeram.

Mais um desafio: o PT e a maioria da esquerda não estão preparados para um enfrentamento direto e radical com as classes dominantes. A maioria da militância foi formada, nos últimos vinte anos, para acreditar na democracia liberal, na institucionalidade e na via eleitoral – sem priorizar a organização de base.

Agora, em momento de radicalização, nem os quadros dirigentes, nem a maioria da vanguarda ou dos quadros médios têm experiência e formação para organizar ações diretas, agitação e propaganda com as massas, ocupações, passeatas, greves-relâmpagos, fechamento de ruas e estradas etc.

Frente Brasil Popular aponta rumos

Unidade e resistência organizada.

A Frente Brasil Popular (UNE, CUT, CTB, MST, PT, PCdoB, PCO, CMP, Levante da Juventude e muitas outras organizações) pactuaram orientações de mobilização para luta contra a reforma da previdência e para impedir a prisão e inabilitação de Lula.

Dia 19 é o dia nacional de luta e paralisação contra o fim da aposentadoria.  A Frente também convoca, orienta e aponta:

I) Construir ocupações nas fábricas, escolas e universidades.

II) Orientar todas as bancadas de parlamentares progressistas que façam obstrução dos trabalhos no Congresso Nacional, para que a reforma não seja votada.

III) Construir uma Greve de Fome no Congresso.

IV) Construir um acampamento permanente, reunindo milhares de pessoas, em defesa da democracia e do Presidente Lula, em São Bernardo.

V) Realizar ações de denúncia em frente à Globo, inclusive nas suas transmissões ao vivo, denunciando o papel desta corporação tanto na perseguição ao Presidente Lula, quanto no desmonte da Previdência.

VI) Divulgação em âmbito internacional das denúncias contra as violações ao Presidente Lula.

VII) Construção de uma Frente Nacional por Eleições Livres e Democráticas, reunindo os partidos progressistas.

VIII) Realizar uma campanha nacional de pichação e colagem de lambe.

IX) Aprofundar o diálogo com as periferias, organizando brigadas de trabalho de base.

X) Articular as Centrais Sindicais e a Povo sem Medo para a construção dessa Jornada.

É preciso cantar, é preciso ir às ruas

O ponto que eu gostaria de fixar aqui é o seguinte: o golpe é estrutural, internacionalmente articulado.

E, se por um lado, cresce a consciência popular sobre o caráter regressivo do governo Temer, por outro, não há sinais visíveis de mudança qualitativa na disposição de mobilização das grandes massas.

A provável prisão de Lula é um fator imponderável. Por isso que há vacilações no lado de lá. A prisão do maior líder popular do país pode gerar uma comoção e mobilização gigantescas.

Ou pode impulsionar movimentos pontuais, sem base de massa, restritos aos primeiros dias de cárcere. Sem ilusões messiânicas, é preciso entender o quadro defensivo e jogar nossas forças para concretizar as campanhas e ações indicadas pela Frente Brasil Popular.

Não estamos derrotados. Muito menos estamos na ofensiva. O que conseguirmos fazer nos próximos meses será decisivo para o futuro do Brasil.

Tarefa imediata: impedir a prisão de Lula!! E organizar a resistência, que a luta é longa.