24 de março de 2011, 20h17

Levanta e Cai

Já falei com muitos amigos sobre a Levanta e Cai, cachaça que existia em Nova Resende até a minha adolescência, fortíssima, com até 54 graus de álcool. Muitos achavam que era ficção minha, que eu estava inventando.Um amigo que tinha um rótulo dela, um dia fez uma cópia colorida pra mim, mas eu não sabia por onde ela andava. Um dia destes achei, no meio de um livro. E é ela que está aí, ampliada. E me lembrei de muitas histórias.Quando íamos fazer serenata nos tempos de frio beirando a zero grau, usávamos a Levanta e Cai não só pra beber, mas também para acender uma fogueira para nos aquecer.O alambique do Ventura – ou Vintura, como dizíamos, apelido do Boaventura Bachião – ficava a cerca de seis quilômetros da cidade e quem ia lá, logicamente, podia experimentar uma cachacinha de graça.
Uma dorna bem grande tinha uma torneirinha, e num banquinho ao seu lado era mantida uma xícara. Qualquer um podia beber ali. De vez em quando, um bando de moleques ia lá, a pé, “experimentar” a Levanta e Cai. E “experimentava” bastante, voltava todo mundo cambaleando pra cidade.
Eu era um molecão ainda – não me lembro se já tinha feito dez anos – quando Jacy Corrêa, político da UDN, que fazia oposição ao PSD, partido que governava Nova Resende havia muito tempo, construiu um campo de aviação onde seria possível aterrissar teco-teco, aqueles pequenos aviões monomotores.
E esse campo de aviação era ao lado do alambique da Levanta e Cai. Bastava atravessar o rio São João – que ali ainda é estreito – por uma pinguela que se chegava ao alambique.
Na inauguração festiva do pequeno campo de pouso, num domingo, foi quase toda a população da cidade para lá. Inclusive, claro, a molecada. E logo veio a ideia: vamos tomar uma pinga do Vintura.
Uns dez ou doze moleques atravessamos a pinguela e fomos beber. Não havia ninguém no alambique, a própria família do alambiqueiro estava toda no campo de aviação.
Fizemos uma fila em frente à dorna com a xícara. O moleque da frente tomava uma dose, passava a xícara para o seguinte e entrava no fim da fila de novo. Eu tomei só duas e voltei pro campo, que não queria perder a chegada do primeiro avião ali (o que acabou não acontecendo, ele não pousou).
O resto do bando continuou bebendo. E a volta ao campo foi um espetáculo para a “torcida” que não viu nenhum avião aterrissar, mas se divertiu vendo a molecada tentando atravessar a pinguela. Todos os moleques, bêbados, vacilavam, ninguém queria ser o primeiro a encarar a pinguela. Até que um topou, que achou que tinha condições de atravessá-la, chegou até o meio e… tchibum! Caiu no rio. O segundo também, o terceiro também… Todos caíram. Mas acharam bem divertido.