#FÓRUMCAST
11 de Maio de 2018, 14h36

Liberdade a Jesús Santrich, parlamentar das Farc: mais um prisioneiro político

Em novo artigo, Yuri Martins Fontes e Diana Paola Gómez Mateus*, coautora do texto, abordam a prisão arbitrária do representante indicado para a Câmara Legislativa da Colômbia, pelo novo partido Farc

Foto: Divulgação/PCB

No último dia 9 de abril foi encarcerado ilegitimamente Seusis Pausivas Hernández Solarte “Jesús Santrich”, representante indicado para a Câmara Legislativa pelo novo partido político Força Revolucionária Alternativa do Comum (Farc), e ex-comandante do Bloco Caribe das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (Farc-EP). Santrich, responsável pelas comunicações das Farc, foi um dos negociadores pela Paz nos recentes diálogos realizados em Havana, Cuba – processo que culminou no “Acordo para o Término Definitivo do Conflito”, assinado em 2016.

Pedagogo e historiador, sua militância socialista começou na Universidade, quando ingressou no Partido Comunista. Por estes tempos, engajou-se na construção da União Patriótica – pioneira proposta política pelo fim da guerra, promovida nos anos 1980 pelas FARC e outros grupos guerrilheiros marxistas, mas que acabou sendo traída, deixando como saldo mais de 3.000 assassinados, entre políticos eleitos e militantes, mortos pelas forças paramilitares fascistas associadas ao governo conservador (historicamente hegemônico na política do país).

Após a arbitrária detenção, em pronunciamento público, Santrich pediu à militância fariana “força e atenção”, pois ele vê nesse novo gesto de traição da Paz, o reinício de perseguições contra ativistas democráticos – processo que aliás vem se alastrando por toda a América Latina. Neste sentido, pediu a atenção do povo colombiano para observar as falhas do Acordo de Paz, conclamando ainda aos vários presos políticos da Colômbia que tenham união, em busca de dignidade e justiça.

O congressista (estava por assumir seu posto no Parlamento), logo que encarcerado, iniciou greve de fome, lançando à população uma mensagem de firmeza e esperança: vai lutar até o fim pela liberdade, pela paz que é inseparável da justiça social, pela Nova Colômbia.

No começo de maio, após um mês de greve, foi transladado de prisão de segurança máxima para um hospital, devido a seu grave estado de saúde.

A acusação contra Santrich é resultado de uma suposta investigação por narcotráfico, segundo a qual ele, que é cego, teria organizado o envio de toneladas de cocaína para os Estados Unidos “após a assinatura do Acordo”, o que constituiria um crime, não podendo assim ser tratado pela Jurisdição Especial para a Paz (instância judicial criada para implementar o fim do enfrentamento armado).

Segundo observa – com lucidez – sua defesa, tal alegação é um completo absurdo, posto que Santrich, desde o “Acordo”, vive supervigiado, cercado por policiais dia e noite.

A acusação, portanto, não passa de uma montagem judicial, farsa que expressa à revelia do pactuado a posição autoritária da extrema-direita colombiana, ligada ao ex-presidente Álvaro Uribe (chefe paramilitar envolvido com o narcotráfico nos 1990, segundo a própria CIA, que nos 2000 apoiou seu governo ultraliberal), e cujo objetivo é anular a Paz assinada entre o presidente Juan Manuel Santos e a guerrilha marxista.

A libertação de Jesús Santrich, assim como a libertação dos demais presos políticos que seguem encarcerados, é, portanto, um passo fundamental para que se cumpra efetivamente o acordado nas negociações de Paz.

Esse ato de traição e manipulação judiciária-midiática – mais um na história recente de golpes “brandos” em nossa América –, tende logicamente a minar o complexo processo de construção da Paz na Colômbia, devendo assim ser repudiado por todas as forças do campo progressista.

Apoio Institucional: Núcleo Práxis do Laboratório de Economia Política e História Econômica da Universidade de São Paulo

Para aderir ao “Comitê Santrich Libre”, enviar nome e referência pessoal ou da organização em que milita para: [email protected]

Yuri Martins Fontes conviveu com guerrilheiros das Farc-EP no acampamento de Los Pozos, San Vicente de Caguán, palco de anteriores negociações pela Paz, nas florestas do Sul da Colômbia, produzindo entrevistas e artigos sobre a Revolução

*Diana Paola Gómez Mateus, doutoranda no Programa de Antropologia Social da Universidade de São Paulo; pesquisadora sobre dinâmicas de urbanização da Amazônia colombiana