26 de julho de 2018, 16h25

Linchamentos em tempos de fake news

"A presunção da culpa é um dos pilares da revolução da tecnologia da comunicação (...) Em tempo de Fake News, dependendo de como soa o 'eco', tudo vira verdade, principalmente se o propósito for linchar um desafeto ou atrair um contrato"

Foto: Wikimedia Commons

Denegrir é um “esporte” barato que não exige muito dispêndio de força, sequer talento, daí encontrar tantos praticantes.

A prática do falar mal dos outros e do rir da vergonha alheia transformaram-se em mania nacional naturalizada.

A presunção da culpa é um dos pilares da revolução da tecnologia da comunicação.

A frase “má notícia chega a cavalo” não faz nenhum sentido neste mundo virtual em que a velocidade nada tem a ver com galopes.

Graciliano Ramos conta um caso em que destaca a precipitação em condenar tendo por base “fortes evidências”.

Um sertanejo cearense fugindo da seca chegou a uma vila carregando a filhinha de quatro anos. Instalou-se em um casebre de palha e taipa. Fugiam da morte e tinham no corpo muitas feridas. Os vizinhos ouviram o choro doído da criança e ao invadirem a casa encontraram o pai abrindo à força a perna da filha nua e ensanguentada. O sujeito foi espancado e quase morto, levado a confessar que estuprou a menina. Linchado, julgado, condenado e preso. Tido como um monstro.

“Anos depois os médicos examinaram a pequena: estava inteirinha. O que havia sujidade e um corrimento. Tratando a doença da filha com remédios brutos da medicina sertaneja.”1

Neste caso, não houve a violência do estupro incestuoso, mas sim a violência do linchamento baseado em fortes evidências. O pai cuidadoso cumpriu sentença depois de ter sido linchado. Tamanha injustiça não se repara. Essa marca fica para sempre.

O livro Angústia foi publicado por Graciliano Ramos em 1936. Mas a cultura do linchamento baseado em “fortes evidências” não ficou lá no passado no sertão do nordeste brasileiro.

Recomendo que assistam ao documentário A primeira pedra dirigido por Vladimir Seixas (2018). A cultura do linchamento enquanto banalização da violência por gente tida como “pessoas do bem” que atuam como se estivessem expurgando o mal. O documentário intercala cenas de linchamentos, testemunhos de pessoas diretamente afetadas e pronunciamentos interpretativos de pesquisadores do fenômeno.2

Ou seja, mesmo nos grandes centros urbanos desenvolvidos e civilizados com polícias e tribunais de justiça, as “pessoas do bem” se sentem atraídas e autorizadas para executarem linchamentos.

Graciliano Ramos retrata os conflitos entre o Luís da Silva (protagonista e narrador da história) e Julião Tavares. Em dado momento Luís da Silva se pergunta por que não punha fim à vida do seu desafeto. Existia a vontade de atacá-lo, existiam motivos para repelir aquele sujeito tão rico quanto asqueroso, então, o que o detinha?

Luís da Silva concluiu nos seus devaneios que não era o medo da polícia, tribunal e prisão que o demovia dessa ideia. Também não tinha medo de Julião Tavares. O que podia ser de alguma forma considerado um fator impeditivo seria o medo da opinião pública? Dessa forma, o que poderia demovê-lo da ideia de matar a Julião Tavares não eram os poderes coercitivos nem o poder social do rival, muito menos os pudores éticos, mas o constrangimento comunitário expresso na opinião pública.

Neste ponto do romance regionalista de Graciliano Ramos encontramos ideias sobre a famigerada “opinião pública”. Antes de tudo, necessário dizer que o autor reconhece o poder das narrativas dos fatos cotidianos. Contudo, demonstra que a “opinião pública”, confundida com as opiniões publicadas no jornal, não passa de uma farsa.

Os homens que frequentavam o café reproduziam as opiniões que leram no dia anterior na imprensa local. Tagarelas reprodutores de opiniões alheias. Quem não demonstrava medo da justiça nem dos chefes locais não poderia ser contido pelos inconstantes blefes da “opinião pública”.3

Graciliano Ramos não viveu para presenciar o linchamento virtual baseado em “fortes evidências”. O tal do fake news é assombroso de tão real. Humanos comportam-se como robôs passando adiante as versões sem dó nem piedade. Linchamentos dos inimigos e promoção dos amigos num morde e assopra.

Umberto Eco disse que a internet deu voz aos idiotas. Pois é, em tempo de Fake News, dependendo de como soa o “eco”, tudo vira verdade, principalmente se o propósito for linchar um desafeto ou atrair um contrato.

 

1 RAMOS, Graciliano. Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2014, p. 81, 102

2 A PRIMEIRA pedra. Direção de Vladimir Seixas. 2018. Disponível em: <http://www.futuraplay.org/video/a-primeira-pedra/424810/>. Acesso em: 13 jul. 2018

3 RAMOS, Graciliano. Angústia, p. 192-194