07 de novembro de 2018, 12h28

Livro de Marielle Franco traz análise sobre militarização e mantém viva sua voz

Dissertação de mestrado da vereadora brutalmente assassinada é lançada em obra que traz prefácio de Frei Betto. “Um livro para ser lido, reproduzido, distribuído, debatido e repartido como pão quente, capaz de alimentar a mesma esperança encarnada, vivida e batalhada pela Marielle”, diz o frade

Foto: NINJA

A dissertação de mestrado de Marielle Franco, defendida na Universidade Federal Fluminense, em 2014, acaba de ser lançada em livro. A obra UPP – Redução da favela a três letras: uma análise da política de segurança pública do estado do Rio de Janeiro (editora N-1) traz a voz e o pensamento da vereadora do PSOL brutalmente assassinada, junto com o motorista Anderson Gomes, em 14 de março deste ano, e até hoje as perguntas “quem e por que os mataram” não foram respondidas.

Segundo Ricardo Muniz Fernandes, da editora N-1, foram feitas pequenas adaptações para tornar a leitura mais atrativa, sem alterar o texto. “Este momento de lançamento tem muito a ver com a Marielle. Ela foi brutalmente assassinada, mas ela não pode ser calada. Esse livro é para não a silenciar. O pensamento dela expresso no livro é muito ligado à prática. É muito importante, é a voz dela. A voz dela está viva”, disse.

A obra faz uma análise da segurança pública do Rio de Janeiro e apresenta, com dados muito concretos, como aconteceu a militarização da vida cotidiana. “Não se trata de uma política de segurança, é quase uma instalação de uma necropolítica [termo usado pelo sociólogo camaronês Achille Mbembe]. Uma militarização de determinado espaço, determinadas pessoas e comunidades. Não é o Rio inteiro que está militarizado”, comentou.

De acordo com Fernandes, Marielle deixa muito claro como isso ocorre, e “não só apresenta uma situação, como mostra soluções e saídas para não se criar esse Estado penal”.

Todo o lucro com as vendas será revertido para a família, para que deem continuidade à memória viva e presente da Marielle. Frei Betto fez o prefácio e afirmou que se trata de um livro que deve ser “lido, reproduzido, distribuído, debatido e repartido como pão quente, capaz de alimentar a mesma esperança encarnada, vivida e batalhada pela Marielle”.

“Unificar as polícias, desvinculá-las do Exército, caminhar para desarmar a sociedade e reforçar uma visão de segurança integrada, muito superior a questões policiais, são medidas fundamentais”, dizia Marielle. “A política estatal de combate às drogas e à criminalidade violenta, nesses territórios das favelas, é caracterizada por estratégias de confronto armado contra o varejo do tráfico, em que as incursões policiais ou a sua permanência nesses locais reforçam a iminência de confrontos e o cerceamento da vida cotidiana.”

Lançamento no Aparelha Luzia

Nesta quarta (7) o livro é lançado às 20h, no Aparelha Luzia (Rua Apa 78, São Paulo), um espaço de resistência, conhecido como um “quilombo urbano” e idealizado pela primeira deputada estadual mulher negra e trans de São Paulo, recém-eleita pelo PSOL.

A organização do livro é de Lia de Mattos Rocha. A curadoria do lançamento é de Sidney Santiago e Sonia Sobral. Os livros estarão à venda no site da N-1 e no showroom da editora em São Paulo (Rua Frei Caneca 322).

Para o dia do lançamento vários nomes estão confirmados, como Akins Kinte, Allan da Rosa, Ana Maria Gonçalves , Anielle Franco, Aretha Sadick, casadalapa, Coletivo Transverso, Erica Malunguinho, Gumboolt Dance Brasil, Lia de Mattos Rocha, Lucelia Sérgio Os Crespos, Micro roteiros da Cidade, Monica Benicio, Paulistanos, Raul Zito, Rico Dalasam, Viny Rodrigues, Zona Agbara.

Assista à entrevista com Ricardo Muniz Fernandes