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05 de agosto de 2014, 09h20

Lobby de Israel nos Estados Unidos defende a guerra em Gaza

Em encontro realizado em Washington, ativistas pró-Israel dos EUA declararam seu apoio incondicional à campanha militar no território palestino

Em encontro realizado em Washington, ativistas pró-Israel dos EUA declararam seu apoio incondicional à campanha militar no território palestino

Por Mitchell Plitnick, da IPS/Envolverde

Ativistas pró-Israel dos Estados Unidos declararam seu apoio incondicional à campanha militar israelense na Faixa de Gaza, em um encontro realizado nesta capital do qual participou uma longa lista de legisladores e diplomatas cujos discursos minimizaram as tensões entre os governos dos dois aliados.

As principais figuras dos partidos Republicano (opositor) e Democrata (governante) no Congresso norte-americano expressaram opiniões semelhantes: que Israel exerce seu direito de legítima defesa e que toda culpa pelas hostilidades iniciadas em 8 de julho recaem sobre o movimento islâmico palestino Hamas. Os oradores também recordaram ao público presente que o Hamas tem o apoio do Irã, em uma mensagem apenas velada ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

A assessora para segurança nacional, Susan Rice, representou Obama no evento, realizado no dia 28 de julho, em Washington, com o nome de Assembleia Nacional de Liderança por Israel. Um manifestante, Tighe Berry, interrompeu o discurso de Rice gritando “Acabem com o cerco a Gaza”, enquanto levantava um cartaz com as mesmas palavras. Foi acompanhado por um protesto fora do prédio da organização pacifista Code Pink.

Após Berry ser retirado à força, Rice apresentou o ponto de vista da Casa Branca. “Os Estados Unidos apoiam um cessar-fogo humanitário imediato e sem condições, que deve levar ao fim definitivo das hostilidades, com base no acordo de novembro de 2012”, afirmou a assessora. A declaração difere da postura israelense e de quase todo os oradores no evento.

Embora Israel tenha aceito um cessar-fogo desse teor com a mediação do Egito há várias semanas, agora insiste na eliminação dos túneis em Gaza que levam a território israelense e também no desarmamento do Hamas como medidas prévias para deter sua ofensiva.

Manifestante que gritou “Acabem com o cerco contra Gaza” interrompeu a conselheira de segurança nacional, Susan Rice. (Foto: UN Photo/Mark Garten)

Manifestante que gritou “Acabem com o cerco contra Gaza” interrompeu a conselheira de segurança nacional, Susan Rice. (Foto: UN Photo/Mark Garten)

Robert Sugarman, presidente da Conferência de Presidentes das Organizações Judias dos Estados Unidos, que dirigiu o encontro, marcou a pauta com seu discurso de abertura. “Temos de continuar apoiando as decisões do governo de Israel, seja qual for nosso ponto de vista pessoal”, declarou, acrescentando que “devemos continuar insistindo no apoio de nosso governo” às decisões de Tel Aviv.

A maioria dos oradores não expressou uma oposição direta à política de Obama, mas quase todos destacaram a necessidade de desarmar o Hamas e que o governo israelense de Benjamin Netanyahu conte com o apoio incondicional de Washington.

John Boehner, presidente da Câmara de Representantes e um dos principais opositores políticos de Obama, se aproximou mais ao fazer uma crítica direta ao presidente quando vinculou a crise na Faixa de Gaza com o Irã. “Vamos continuar pressionando para que esta administração aborde a causa principal dos conflitos no Oriente Médio”, afirmou.

Segundo Boehner, “o que vemos em Gaza é o resultado direto do terrorismo patrocinado pelo Irã na região. Isto é parte da extensa história iraniana de fornecimento de armas às organizações terroristas com sede em Gaza, que deve acabar. Os inimigos de Israel são nossos inimigos. Esta será nossa causa enquanto eu for presidente” da Câmara de Representantes.

Muitos dos oradores mencionaram que o Irã patrocina o Hamas, embora a relação entre ambos tenha se quebrado quando o movimento palestino declarou seu apoio às forças insurgentes na Síria que lutam contra o presidente Bashar al Assad, o aliado estratégico de Teerã na região. Entretanto, para muitos dos que discursaram, a conexão lhes deu uma via para vincular o combate em Gaza com o ceticismo do Congresso diante da diplomacia em relação a Teerã pelo problema nuclear iraniano.

Entretanto, as tensões entre o governo de Obama e o de Netanyahu não faltaram no evento de Washington.

O embaixador de Israel na Organização das Nações Unidas (ONU), Ron Dermer, ofereceu um tom conciliador para equilibrar a determinação de Tel Aviv de continuar com suas operações em Gaza apesar de os Estados Unidos e a maior parte da comunidade internacional pedirem o cessar-fogo imediato e incondicional. Segundo o embaixador, seu país “descobriu dezenas de túneis cuja única finalidade é facilitar os ataques contra civis israelenses. Israel continuará destruindo esses túneis e estou seguro de que a administração de Obama entende isso”.

Dermer afirmou que “todo o mundo entende que deixar esses túneis seria como apreender dez mil mísseis e devolvê-los ao Hamas. Não vamos parar até que se faça esse trabalho. Israel acredita que uma solução sustentável é aquela que compreende a desmilitarização de Gaza, a remoção dos foguetes e a destruição dos túneis para que o Hamas não possa se rearmar em um ano ou dois. Agradecemos o apoio de todos os líderes dos Estados Unidos”.

Dermer também enviou uma mensagem de conciliação moderada após as fortes críticas em Israel contra o secretário de Estado, John Kerry, depois que um suposto texto seu sobre uma proposta de cessar-fogo vazou para os meios de comunicação israelenses. “Agora falo em nome do meu primeiro-ministro”, afirmou o embaixador. “As críticas contra o secretário Kerry por seus esforços de boa fé para avançar rumo a um cessar-fogo não se justificam. Esperamos com interesse trabalhar com os Estados Unidos para progredir para um cessar-fogo que seja duradouro”, afirmou.

Rice também se referiu às críticas contra Kerry. “Representando os Estados Unidos, Kerry trabalhou com Israel em cada momento para apoiar nossos interesses comuns. Em público e em privado, apoiamos firmemente o direito à defesa de Israel. Vamos continuar apoiando e deixar as coisas claras quando alguém distorcer os fatos”, afirmou.

Em 29 de julho, dia seguinte ao encontro de Washington, começou outra polêmica em Israel, quando emissoras de rádio israelenses informaram sobre uma transcrição que vazou de um telefonema entre Netanyahu e Obama. O Canal 1 de Israel informou que Obama “se comportou de maneira grosseira, condescendente e hostil” em relação a Netanyahu na chamada telefônica. Tanto a Casa Branca quanto o escritório do primeiro-ministro negaram as versões da imprensa.