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02 de julho de 2014, 16h26

Lola Benvenutti: “Ser feminista é ser dona do seu corpo”

A garota de programa mais famosa do momento tem 22 anos, é apaixonada por literatura, formada em Letras e não tem medo de dizer: “a mulher só se objetifica se ela se sente como tal” Por Anna Beatriz Anjos “Sempre fui assim: a única diferença é que agora eu cobro”. É assim que Lola Benvenutti se refere à sua profissão: puta. E completa: “Eu não me incomodo se a pessoa quiser me chamar de acompanhante, mas eu acho que ‘puta’ é a raiz do negócio.” Por trás da avassaladora Lola dos ensaios sensuais, que há dois anos tomou a decisão de...

A garota de programa mais famosa do momento tem 22 anos, é apaixonada por literatura, formada em Letras e não tem medo de dizer: “a mulher só se objetifica se ela se sente como tal”

Por Anna Beatriz Anjos

“Sempre fui assim: a única diferença é que agora eu cobro”. É assim que Lola Benvenutti se refere à sua profissão: puta. E completa: “Eu não me incomodo se a pessoa quiser me chamar de acompanhante, mas eu acho que ‘puta’ é a raiz do negócio.”

Por trás da avassaladora Lola dos ensaios sensuais, que há dois anos tomou a decisão de transformar sexo em fonte de dinheiro, está Gabriela Silva, de 22. Nascida em Pirassununga, no interior de São Paulo, começou a carreira ainda longe da capital, onde vive sozinha há cerca de um ano. Virou puta em São Carlos, durante o último ano da faculdade de Letras, que cursou na universidade federal da cidade. Ela conta que a ideia surgiu do gosto “pela coisa”: já que sabia o que lhe dava prazer, por que não viver disso?

Pensou logo em um artifício para facilitar as coisas. “O blogue foi unir essa coisa de escrever – de que eu já gostava e que tem tudo a ver com a faculdade -, e o sexo. Me pareceu a ferramenta perfeita pra isso”, narra. Os elaborados relatos das experiências com clientes chamaram a atenção de um grande portal, no ano passado. Desde que a matéria foi ao ar, o celular de Lola não parou mais de tocar. “Minha vida mudou do dia pra noite”, conta, parecendo ainda um pouco surpresa com o rumo que as coisas tomaram.

Queridinha da imprensa – já foi assunto de matérias em revistas femininas, programas de rádio e TV -, ela se considera feminista. “Ser feminista é ser dona do seu corpo, e se você decide vendê-lo isso não te torna um objeto, a mulher só se objetifica se ela se sente como tal. Se você não se sente, qual é o problema?”, questiona.

Apaixonada por literatura – frases de grandes escritores brasileiros, como Guimarães Rosa, integram seu extenso conjunto de tatuagens espalhadas pela pele -, Lola revela o livro que mudou sua vida: “Filha, mãe, avó e puta”, escrito por outra Gabriela, que travou bonita luta pelos direitos das prostitutas no Brasil. “A beleza com a qual ela fala, a delicadeza, é exatamente o que eu penso, e encontrar uma pessoa que pensa como eu e que não escreve um livro se colocando como vítima foi muito legal”, afirma.

Prestes a lançar a sua própria obra – um compilado das histórias e experiências que os programas lhe renderam -, Lola conversou com a Fórum sobre preconceito, machismo e libertação. Confira:

Fórum – Como começou a sua carreira – o que te levou a escolhê-la? Em determinado momento da sua vida, você tomou uma decisão ou as coisas ocorreram aos poucos?

Lola Benvenutti – Eu sempre tive uma sexualidade muito precoce e tinha uma curiosidade por isso. Como que seria cobrar – achava glamouroso o negócio. A minha primeira experiência veio aos dezessete e eu morava em Pirassununga, estava no colegial. Foi super legal, mas fiquei com um pouco de medo de alguém descobrir, e falei: “Vou focar, estudar, passar na faculdade, depois eu vejo isso”. No último ano da faculdade, já estava tudo encaminhado, meu TCC [trabalho de conclusão de curso], minha pesquisa, e pensei: “Ah, quer saber? Agora vou fazer o que estou a fim”. Aí criei o blogue. Mas foi muito natural, porque já saía com muita gente que eu conhecia na internet, então criar o blogue foi só uma maneira de me promover para conseguir os clientes. Não acordei um dia e falei “vou fazer”, eu só tive que tomar a decisão. Avisei minhas amigas e elas quase morreram. Já fazia de graça, pensei: “vou monetizar o negócio”.

O blogue foi unir essa coisa de escrever – de que eu já gostava e que tem tudo a ver com a faculdade -, e o sexo. Me pareceu a ferramenta perfeita pra isso. 

Fórum – Você já sentiu muito preconceito? Sente que ele vem diminuindo?

Lola – No começo, em São Carlos, eu passei por algumas coisas ruins. Riscaram meu carro inteiro, escreveram “sua vaca”, “sua puta”, “saiu com o meu marido”. Eu tinha acabado de comprar, tive que pagar uma grana pra pintar. Uma vez, a mulher de um cara me ligou e me falou um monte – ela não sabia o que eu era, ele inventou uma história e ela achou que eu era amante. Que eu me lembre, essas situações foram as piores, que me marcaram. Eu tenho uma postura muito séria, acho que isso me ajudou muito. As mulheres me entendem muito, elas me respeitam, porque eu falo: “Eu nunca vou querer tomar o marido de ninguém, é a minha profissão. Eu vou lá, sou paga por uma hora ou o tempo que for, desenvolvo aquele trabalho e tchau”. Fechou a porta, a puta nunca vai querer tomar o lugar da mulher. Acho que existe estereotipo. Até esses dias eu participei do desfile da Daspu [grife de roupas inspirada na vida das prostitutas], gosto muito da iniciativa, mas acho que não precisava ter sido tão estereotipado – mesmo na tentativa de não ser.

Lola ficou conhecida no ano passado, quando um grande portal da internet se interessou pela sua história (Foto: Reprodução/Facebook)

Lola ficou conhecida no ano passado, quando um grande portal da internet se interessou pela sua história (Foto: Victor Daguano)

Fórum – A Gabriela Leite é uma inspiração para você? 

Lola – Ah, eu amo ela!

Fórum – Na sua opinião, ela simboliza a luta em prol dos direitos das prostitutas?

Lola – Com certeza. Infelizmente, não a conheci pessoalmente, mas pra mim ela é uma puta mulher mesmo. Até no meu livro tem uma dedicatória pra ela, eu acho que me inspirou muito. Li o livro dela, mudou muito a minha vida. Faz um tempo. Eu já estava nessa, já conhecia ela, já tinha visto entrevistas, mas não tinha lido o livro. A beleza com a qual ela fala, a delicadeza, é exatamente o que eu penso, e encontrar uma pessoa que pensa como eu e que não escreve um livro se colocando como vítima foi muito legal. Ela fez um trabalho muito importante nesse sentido, de querer conscientizar as pessoas sobre a importância e a existência em relação à prostituição.

Fórum – Qual a sua posição sobre o Projeto de Lei Gabriela Leite, de autoria do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), que regulamenta a prostituição como profissão? 

Lola – Concordo plenamente com a questão da legalização. Acho que tem tudo a ver. Outro dia, fui a um programa e um tinha um cara discutindo comigo, dizendo que acha que não tem que legalizar. Ele estava falando: “Você pode recolher como autônoma”, e eu respondi: “Meu amigo, o principal não é isso, é uma questão social”. Enquanto não falar que ser puta é um trabalho, vai ter essa coisa de querer colocar como vítima, marginalizar, então o principal é ser visto como profissão, ser tratado como um trabalho, e eu sou totalmente a favor.

É uma briga muito foda com as feministas, a Gabriela Leite inclusive dizia: “Sou feminista e sou puta”. Ser feminista é ser dona do seu corpo, e se você decide vendê-lo isso não te torna um objeto, a mulher só se objetifica se ela se sente como tal. Se você não se sente, qual é o problema? Socialmente, a gente está marginalizada, por isso a regulamentação é fundamental. E as feministas falam que isso incentiva… Isso existe de qualquer jeito, legalizando ou não. O tanto de meninas que me escrevem e dizem: “Ah, Lola, eu queria tanto entrar nessa vida, que dicas você me dá?”, e eu fico: “Gente do céu, está tudo errado!”, eu não posso fazer isso. Você quer entrar nessa, então ok, vamos te dar um curso sobre realidade no trabalho e você vai decidir se quer mesmo. Porque se você quer entrar nessa, pelo menos entre sabendo, entre com condições de conseguir atender o cliente,  de não entrar numa roubada, de saber se portar. Elas entram de qualquer jeito, então que tenham pelo menos um apoio. Eu acho que esse argumento de que vai incentivar é uma piada, eu nem levo muito a sério.

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Fórum – De que maneira o PL tem repercutido no seu meio?

Lola – A maioria das meninas que conheço não tem interesse, porque elas não gostariam de ter esse registro na carteira de trabalho, por exemplo. Eu entendo, acho que é um problema a ser pensado, mas acho também que tem tanto a agregar. Hoje é muito complicado, mas talvez daqui a alguns anos, muitos anos talvez, ter esse registro na carteira não te faça menos merecedora de ter um emprego como advogada ou juíza. Você fez isso por um período da sua vida e agora você vai trabalhar como outra coisa. Então eu fico pensando que talvez seja uma mudança necessária agora. Eu sei que é difícil, mas a gente tem que forçar um pouco, senão vai ser sempre marginalizado.

Fórum – Algumas feministas acreditam que a prostituição é a “exploração das mulheres pelos homens”, e que, portanto, é um símbolo forte do patriarcado. O que pensa sobre isso?

Lola – Esse pensamento, pra mim, é um retrocesso. Hoje a mulher é muito mais sexualizada do que antes. O grande problema da prostituta que se vitimiza é porque é social. Socialmente, as pessoas olham e falam: “Essa daí é puta”, e ela se sente mal por causa disso, mas se não acontecesse… Claro, isso demora muito tempo pra ser mudado, mas se a gente não começa nunca, nunca vai mudar. A culpa é social mesmo, não é que a mulher fica: “Nossa, eu sou um objeto dos homens”, isso não existe. Mesmo sem ser puta, a mulher gosta de dar, se fosse assim, a gente sempre estaria sendo usada. Eu acho ridículo isso, a gente tem vontades, não é só o homem que decide. Eu até diria que, na maioria das vezes, é a mulher que escolhe. Então, é um argumento muito flutuante, talvez elas deveriam se prostituir para ver a realidade e mudar de ideia. É fácil você falar quando está de fora, quem está de fora tem um pensamento, quando você está lá é que a coisa aperta. É importante ter essa vivência pra falar com propriedade sobre o assunto.

Fórum – Essa questão da vitimização ocorre, claro. Mas no seu meio, você sente que as mulheres ainda se veem muito muito dessa maneira? Muitas das prostitutas ainda recorrem a esse caminho por ser a última opção ou tem cada vez mais mulheres querendo, de fato, fazer isso?

Lola – Eu acho que tem muita gente que se diverte, acho que tem muita gente que se culpa, mas acho que as que se culpam é essa coisa social. Ela gosta, ela se diverte… Não gosto de trabalhar em boate, mas conheço algumas meninas, e elas gostam, é divertido pra elas, mas eu vejo que elas ficam mal porque têm um filho, e o filho não pode saber, a mãe recrimina, os amigos têm vergonha. Então, ela se sente mal porque tem uma pressão social pra que não seja aquilo. Acho que o principal problema é esse. Lógico, tem as mulheres que não têm outro meio de vida e acham que esse é o mais propício no momento, mas penso que existem muitas que escolheram sim, que se divertem, que não sofrem.

Aos 22 anos, ela é formada em Letras pela UFSCar e pretende, por meio de um mestrado, estudar o universo da prostituição (Foto: Reprodução/Facebook)

Aos 22 anos, ela é formada em Letras pela UFSCar e pretende, por meio de um mestrado, estudar o universo da prostituição (Foto: Reprodução/Facebook)

Fórum – E a sua experiência em relação à família e amigos, como foi?

Lola – É engraçado, porque muita gente fala mal, que eu fiz isso pra aparecer, e eu digo: primeiro, nunca achei que tudo isso ia acontecer, mesmo. Minha vida mudou do dia pra noite. Eu criei um blogue, pra mim não tinha nada de tão diferente. Mas renunciei a muitas coisas, muitas. O primeiro ano em que fiquei em São Paulo aprendi muita coisa. Minha mãe ficou um ano sem falar comigo, sem atender um telefone, foi difícil. Meu pai, aconteceu de eu encontrar com ele e ele nem me abraçar – meu pai, que sempre me deu um beijo de boa noite, me carregou no colo pra cama -, e isso foi muito difícil, essa desilusão nos olhos deles. Pra mim foi pior, porque um namorado, por exemplo, tem que gostar de mim do jeito que eu sou, e sempre fui assim: a única diferença é que agora eu cobro. Quem gostar de mim tem que entender que é meu jeito, eu não vou conseguir me castrar pra ser o que as pessoas querem. A família é um negócio que me vez muita falta. Graças a deus a gente retomou, conseguimos conversar.

Eles aceitam. É assunto em que a gente não toca muito, sei que é difícil e também não é de se esperar que eles falem: “Filha, parabéns, continue dando e cobrando”. Não espero isso. Eles optaram por estar do meu lado. E agora com o livro, acho que acendeu um orgulho nos dois. 

Fórum – Você comentou que muitas meninas te procuram e dizem querer seguir a profissão, mas que elas vêm muito despreparadas. Você já passou por situações ruins? Tem alguma específica para contar?

Lola – Acho que eu tenho muita sorte, devo ter um anjo da guarda muito bom. Coitado dele, deve estar em frangalhos já! Eu acho, por exemplo, que você não pode levar ninguém pra sua casa, não pode entrar no carro de um cara. E no começo, eu não tinha carro, então fazia essas coisas. Uma coisa muito ruim nunca aconteceu, por sorte. Eu mesma há pouco tempo saí com um cara, um estrangeiro, e ele falando que tinha sido jogador de futebol, mostrando fotos dele com o técnico. Já sou experiente, como ia imaginar que uma pessoa ia fazer um negócio desse? [Confira a história aqui]. Perdi uma grana. Por isso, acho que às vezes você pode entrar numa roubada. Por exemplo, no começo da carreira, eu achava extremamente deselegante pedir o pagamento antes. Até hoje acho. Mas você não sabe, se depois que você transou com o cara ele te diz: “Não tenho dinheiro”. O que você vai fazer? Até você chamar a polícia… São pequenas coisas que você só aprende apanhando na vida, e talvez isso sendo ensinado antes, profissionaliza mesmo.

Fórum – Então você propõe que, com essa regulamentação que pode vir com o PL Gabriela Leite, sejam criadas iniciativas como essa?

Lola – Sim, porque existem cursos profissionalizantes e especializações pra várias carreiras, por que não pra essa? Pra elas terem uma noção de inglês e espanhol. Como agora, na Copa do Mundo. Muita gente está perdendo dinheiro sendo enganada por cliente porque não sabe lidar com isso. Conseguir abrir uma empresa, conseguir o cartão de crédito para atender o cliente, onde anunciar, como fazer a publicidade dela. São questões que elas têm que aprender mesmo, como se comportar, eu acho que talvez até um apoio psicológico pra enfrentar essas coisas do dia-a-dia que a gente escuta.

Fórum –  Em uma entrevista recente, você disse que o que precisa mudar em relação à prostituição não é o trabalho em si, mas sim a relação entre o cliente e a garota de programa. Em que sentido essa relação precisa ser transformada?

Lola – O que é problemático é o cara que vem falar comigo e acha que porque ele está pagando pode fazer o que quiser. Esse é o cara que eu não atendo. Falta um respeito dos donos de boate, falta um respeito dos clientes. Eu acho que o homem que objetifica a mulher no sentido de achar que “é vagabunda, vai fazer o que eu quiser”. Essa relação do cara respeitar a mulher, apesar de ela cobrar, é o que é o mais difícil hoje em dia.

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Lola está prestes a lançar seu próprio livro, que reunirá relatos sobre suas experiências como prostituta (Foto: Victor Daguano)

Fórum – E o machismo? Como ele se faz sentir de forma mais direta no seu meio?

Lola – Esse é o principal, isso de o cara achar que só porque está pagando, pode te tratar como um pedaço de carne, te jogar pra lá e pra cá. É realmente o ponto de não ser visto como profissão, acham que você é uma vagabunda, uma vadia, e vai te tratar de qualquer jeito. E se for, qual o problema? Cobrando ou não, é um respeito, você decide, a mulher tem o poder da escolha, e às vezes não se respeita isso. Por isso, acontecem esses episódios de violência… Nunca aconteceu comigo nada de ruim, mas vejo histórias ruins, então acho que ainda é um reflexo do machismo.

Fórum – Você tem intenção de iniciar um mestrado. O que quer estudar, exatamente?

Lola –  Quero estudar os mais diferentes ambientes da prostituição. As prostitutas da boate, as prostitutas do site, qual é a principal diferença… Gostaria muito de conversar com as meninas, de ter uma pesquisa com as entrevistadas, e de ser uma pesquisa que signifique alguma coisa pro movimento. Eu gostaria que tivesse um peso. Durante a graduação, sempre me perguntei: “O que isso muda para a sociedade”? Gostaria de estudar alguma coisa que possa mudar uma visão, possa ajudar as pessoas. Não sei se vai, mas só de querer já é o ponto fundamental.

Fórum – Quais os efeitos da Copa sobre o mercado?

Lola – A minha vida é muito agitada, e essa coisa de a mídia me dar muita visibilidade me ajuda, mas sempre falo, o foco dos estrangeiros são as mulatas, as morenas, eles querem ir pro Rio. Cidade que tem essa beleza das praias e das meninas atrai mais esse tipo de cliente. E lógico, tem clientes que querem meninas que falem inglês, que sejam modelos, mas é uma parcela um pouco menor. Então movimenta o mercado, muito, mas não sinto tanto porque meu cliente é muito específico.

O cara que sai comigo quer conversar, ele quer carinho, é um cliente diferenciado. Acho que o meu perfil atrai muito isso, e isso me ajudou a encontrar pessoas muito legais, clientes que viraram amigos, pessoas que estão do meu lado. É um pouco da imagem que você constrói e eu tive a possibilidade porque fui pra mídia. Às vezes, a menina é muito legal, mas ela não consegue dizer isso porque está só no site, e no site você vê só as fotos, você não sabe como a pessoa é.

Fórum – O que te atrai tanto assim nessa profissão que você escolheu? O que te move a continuar?

Lola – Na escola, eu era o patinho feio. Ninguém acredita, mas é verdade. E aí eu falei que ia gostar de mim – as tatuagens são parte de um processo de criação do “eu”. É muito legal um cara pagar pra estar com você. Por isso que eu falo que pra mim isso não é tratar a mulher como objeto, é valorizar: ele está pagando pelo prazer da sua companhia. Naquela hora, sou paga pra ser a mulher perfeita, e sou. Quando o cara sai do quarto, ele está apaixonadíssimo, isso é muito legal, saber que você tem esse poder. E uma adrenalina também, essa coisa de você abrir a porta e não saber quem é, eu acho fantástico. E gosto muito de sexo, tenho uma facilidade pra chegar ao orgasmo, isso me motivou. Se eu fosse uma mulher frígida ia ser bem complicado. São todas essas coisas juntas.

Fórum – E com relação às denominações? A própria Gabriela Leite falava que não aceitava ser chamada de prostituta, de garota de programa, ela era puta. Você tem também esse tipo de opinião ou não?

Lola – Eu gosto, aliás, comecei a falar isso depois de ler o livro da Gabriela, depois que vi as entrevistas. Acho até engraçado, acho que choca, e é um choque legal, porque eu falo com muita naturalidade. A Gabriela Leite dizia que usar os outros termos é como se a gente pedisse desculpa à sociedade por um termo tão forte. Eu não me incomodo se a pessoa quiser me chamar de acompanhante, mas eu acho que “puta” é a raiz do negócio. E também tira essa coisa de as pessoas olharem pra mim e acharem que eu sou uma patricinha que está vendendo o corpo.

Fórum – Você falou, em outros depoimentos à imprensa, que já conseguiu conciliar um namoro ao seu trabalho. Como isso aconteceu?

Lola – Se um dia eu me apaixonar e decidir que quero fazer outra coisa, não tenho nenhum problema quanto a isso, mas deixar de trabalhar porque alguém veio e falou: “Filhinha, ou você fica comigo, ou você trabalha”, não dá, não sou uma pessoa assim. Com esse cara foi assim, ele era meu cliente e no dia que em que abri a porta, já rolou uma química. A gente saiu mais algumas vezes e começamos a namorar. Depois de uns meses o cara pirou. Machista, começou a ter uns rompantes de violência, e aí eu falei: “Chega”.

Fórum – O que o sexo significa na sua vida, além de ser a base para a sua profissão? Ele é um símbolo de libertação?

Lola – Acho que a minha briga, inclusive, é mais pela libertação sexual do que pela prostituição em si. Se as pessoas se libertassem, o mundo ia ser muito melhor, as pessoas iam ser muito mais felizes. O sexo na minha vida teve uma contribuição tamanha, não só como profissão, mas na maturidade, paciência. Acredito que o sexo me possibilitou viver muitas coisas e acho que não necessariamente precisa ser puta pra ter essas vivências. Uma vez, um jornalista me perguntou quanto o sexo fazia parte da minha vida. O sexo está em tudo! Foi na hora em que parei pra pensar: eu leio sobre o assunto, eu escrevo sobre o assunto, eu falo sobre o assunto, eu sou uma pessoa muito sexualizada. Não consigo me imaginar daqui uns anos uma dona de casa. Não é uma crítica, mas não consigo me imaginar, largar mão de tudo isso e ter uma vida mais tranquila.

Fórum – Você gosta muito de literatura – tem até frases de grandes escritores tatuadas. Quais são os seus autores preferidos?

Lola – Gosto muito de Mia Couto, que é um escritor moçambicano. Ele e Guimarães Rosa, me emociono sempre que leio; às vezes tenho que parar o livro porque o olho enche d’água. É uma sensibilidade que quase não é humana, acho muito lindo o jeito que eles escrevem. Mas tem vários, gosto muito de Hilda Hilst, que tem muito essa pegada erótica; gosto do Nelson Rodrigues, Gabriel García Márquez. O meu livro de cabeceira é “Grande Sertão: Veredas”, do Guimarães Rosa – ele entende muito da alma do ser humano. Mas gosto muito da literatura em geral, acho que me move.

Fórum – Você se considera feminista?

Lola – Sim, com certeza. Eu sou dona do meu corpo, tenho orgulho de ser mulher, acho que o machismo existe, acho que tem mulheres que são machistas… Acho que tem muita coisa errada – a questão do aborto, por exemplo, é ridículo que a mulher não tenha o poder sobre isso, só ela pode decidir. Tudo bem, é uma vida, mas é você que vai cuidar da vida ou é o cara que está falando que você tem que ter o filho? Não! É você. Acho que as pessoas têm que lutar, que a gente tem que brigar sempre, mas acho que falar que não existe preconceito e machismo é uma mentira. As pessoas velam as coisas, mas elas estão lá.

(Crédito da foto de capa: Victor Daguano)

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