24 de março de 2018, 15h33

Luiz Marinho, pré-candidato do PT ao governo de SP: “Podem vir quente que eu estou fervendo”

Luiz Marinho, que deve ser o escolhido como candidato ao governo do Estado no encontro do PT paulista que acontece hoje, concedeu entrevista à Fórum e se mostrou otimista para enfrentar nas urnas o que classificou como o "PSDB 1" e o "PSDB 2", se referindo a Doria e França

Foto: Filipe Araujo/Fotos Públicas
O Partido dos Trabalhadores de São Paulo define, em encontro realizado neste sábado (24), quem será o candidato ao governo do estado pela legenda. No páreo estão Elói Pietá, ex-prefeito de Guarulhos, e Luiz Marinho, ex-prefeito de São Bernardo do Campo e atual presidente do diretório estadual do PT paulista. Com o apoio de Lula, do ex-prefeito da capital, Fernando Haddad, e da maioria dos delegados petistas, Marinho já tem praticamente como certa a confirmação de sua pré-candidatura. Em entrevista à Fórum, o ex-prefeito se mostrou otimista com a candidatura, mesmo diante do fato de que o PT perde eleições...

O Partido dos Trabalhadores de São Paulo define, em encontro realizado neste sábado (24), quem será o candidato ao governo do estado pela legenda. No páreo estão Elói Pietá, ex-prefeito de Guarulhos, e Luiz Marinho, ex-prefeito de São Bernardo do Campo e atual presidente do diretório estadual do PT paulista.

Com o apoio de Lula, do ex-prefeito da capital, Fernando Haddad, e da maioria dos delegados petistas, Marinho já tem praticamente como certa a confirmação de sua pré-candidatura.

Em entrevista à Fórum, o ex-prefeito se mostrou otimista com a candidatura, mesmo diante do fato de que o PT perde eleições para o PSDB em São Paulo há mais de vinte anos. Para ele, a atual conjuntura política pode beneficiar seu partido, visto que a população estaria percebendo os efeitos do golpe de 2016.

“Agora, em 2018, nós estamos no pós-golpe, com o resultado do golpe em curso, com a ficha caindo pra valer na sociedade, observando, de fato, o que está acontecendo. E o alvo com o impeachment era a Dilma, o Lula, o PT, mas não somente. Era o também o pré-sal, era o direito dos trabalhadores, dos aposentados, e por aí vai. Isso nos leva a um processo de retomada na preferência partidária. Hoje nós estamos melhor que os candidatos estavam em 2014 na eleição da Dilma. E isso também é muito expresso na liderança do Lula”, afirmou.

Quanto às possíveis alianças, Marinho disse que o PT tem capacidade e força para enfrentar uma eleição sozinho no estado. De acordo com o petista, há conversações em curso com o PDT, mas nada definido. “Estamos acostumados também a fazer essa disputa, mesmo que eventualmente, sozinhos. Nunca tivemos uma grande aliança no estado de São Paulo e, de novo, não enxergamos uma grande aliança. Há algumas alianças que nem desejamos. Mas o PT tem tamanho para, se precisar, enfrentar sozinho essa empreitada e disputar para valer”, pontuou.

Marinho disse ainda, na entrevista, que nestas eleições terá que enfrentar o “PSDB 1” e o “PSDB 2”, em uma ironia às candidaturas de João Doria, candidato oficial dos tucanos, e de Márcio França (PSB), vice-governador do Estado e que vem encampando um discurso de “continuidade” do governo de Geraldo Alckmin.

“Podem vir quente que eu estou fervendo”, garantiu.

Confira a entrevista.

Fórum – Há um grupo no PT questionando sua candidatura como governador por achar que não é viável eleitoralmente. Como o senhor tem debatido isso?

Luiz Marinho – Primeiro, eu desconheço esse questionamento com relação a minha candidatura. Tem um ritual petista, como em todos os períodos, de escolha de candidatura, mas o clima está tranquilo. É evidente que o encontro vai definir e o nome do Elói Pietá [ex-prefeito de Guarulhos] foi colocado para fazer um debate. Seguramente eu serei candidato, a não ser que Deus não queria e eu caia da calçada indo para casa, mas seguramente serie escolhido para liderar o PT em São Paulo com a missão número um de ajudar a eleição do Lula. A missão número dois é derrotar os tucanos no Estado de São Paulo. Nesta missão, crescer nossas bancadas federal e estadual. Temos toda a condição de fazê-lo. Acredito sinceramente que essa eleição está em aberto e nós estaremos com a convicção das possibilidades de vencer.

Fórum – Durante e depois do impeachment de Dilma, principalmente, muito se criticou as alianças feitas pelo PT. Como pretende trabalhar essas alianças, caso seja escolhido candidato, e não ser alvo das mesmas críticas?

Luiz Marinho – Veja, as alianças vão ser as possíveis dentro do nosso campo. Como sempre foi aqui em São Paulo. Temos que avaliar que as alianças estão bastante apertadas. O golpe nasce nas entranhas da elite paulista, naturalmente com muitos partidos paulistas. Há também a questão que você tem partidos que se fingem de esquerda e são de direita. E agora ainda tem a extensão do PSDB. O PSDB está com duas candidaturas aqui. Uma do que diz que vai ser a continuidade do Alckmin e a outra daquele que não tem palavra.

Dentre as possibilidades, tem o PDT, que estamos conversando. Estamos conversando com outros partidos também. Mas sinto uma ansiedade. As alianças vão se dar mesmo nas convenções. Ainda temos um processo até as convenções partidárias, será outro nível de conversação. Mas nós estamos acostumados também a fazer essa disputa, mesmo que eventualmente, sozinhos. Nunca tivemos uma grande aliança no Estado de São Paulo e, de novo, não enxergamos uma grande aliança. Há algumas alianças que nem desejamos. Mas o PT tem tamanho para, se precisar, enfrentar sozinho essa empreitada e disputar para valer.

Se você olha o cenário de 2014, foi uma das eleições mais difíceis que tivemos. Depois do PT maduro, 2014 foi a eleição mais difícil da nossa história. E agora, na minha leitura, estaremos em uma situação melhor que em 2014. Só olhar do ponto de vista de preferência partidária, por exemplo.

Fórum – Acha, então, que há uma aceitação maior do PT em São Paulo agora do que havia na época da candidatura do Alexandre Padilha?

Luiz Marinho – Por conta do cenário nacional, não por conta da candidatura do Padilha, de seu nome em si, que é uma liderança importante do PT, mas muito por conta do debate com a sociedade – não com a militância petista – que foi muito complicado, muito difícil. A eleição da Dilma foi bastante complicada, e isso complicou a eleição das nossas bancadas, tanto federal quanto estadual. Eu vejo em 2018 um processo de recuperação de crescimento de nossas bancadas.

 

Fórum – Há 20 anos o PSDB governa o Estado de São Paulo e, nas últimas eleições, as candidaturas petistas sequer foram uma ameaça para Alckmin, perdendo espaço para outras candidaturas de fora da polarização PT X PSDB. Qual acha que tem sido o erro do PT nesse sentido e qual seria a estratégia para superar isso nas eleições deste ano? O que faria de diferente?

Luiz Marinho – Veja bem. Nós deixamos de ganhar em 1998, apesar de estarmos em segundo lugar. Se você recordar, nesse ano teve um trabalho da grande mídia nacional em São Paulo e de institutos de pesquisas, que não divulgaram as últimas pesquisas, e diziam que tinha o risco de ter um segundo turno entre Maluf e Rossi (PDT). Enquanto, na verdade, era a Marta que estava em segundo lugar. Com isso, pregaram o “voto útil” no segundo turno e colocaram o Covas no segundo turno com uma diferença minúscula.

Em 2002 eu fui vice do Genoino. Nós chegamos ao segundo turno. Em 2010 faltaram apenas 70 mil votos para o Mercadante ir para o segundo turno. 2014 que foi o ponto fora da curva com relação ao crescimento que vínhamos tendo no Estado.

Agora, em 2018, nós estamos no pós-golpe, com o resultado do golpe em curso, com a ficha caindo pra valer na sociedade, observando, de fato, o que está acontecendo. E o alvo com o impeachment era a Dilma, o Lula, o PT, mas não somente. Era o também o pré-sal, era o direito dos trabalhadores, dos aposentados, e por aí vai. Isso nos leva a um processo de retomada na preferência partidária. Hoje nós estamos melhor que os candidatos estavam em 2014 na eleição da Dilma. E isso também é muito expresso na liderança do Lula. Isso vai nos colocar em outro patamar de disputa em São Paulo. E ainda tem o agravante que o candidato do PSDB não será nem Alckmin e nem Serra, como é desde que Covas faleceu. Agora é o “PSDB 1” e o “PSDB 2”. O “1” já mostrou que não tem palavra, não tem compromisso com a verdade, com o eleitor, diz que é normal mentir para o eleitor.

Além de tudo, há um cansaço no Estado com o jeito de governar do PSDB, o jeito descompromissado. Alckmin chega a comparar os índices de violência de São Paulo com os do Rio de Janeiro. Tem que ser referência nacional. O melhor exemplo de segurança, de educação, de saúde, de desenvolvimento. O que temos hoje é um estado de abandono. Há uma necessidade de reestruturar o Estado de São Paulo sob todos os aspectos para que ele seja, de fato, a tão falada locomotiva do país, que hoje está parada no estacionamento.

Fórum – Caso seja escolhido como candidato a governador, qual acredita que será seu principal adversário? Márcio França? João Doria? Ou arrisca dizer um terceiro nome?

Luiz Marinho – Acho que meu adversário, meu principal desafio, em primeiro lugar, é se tornar conhecido no Estado de São Paulo. Quem vai ser meu adversário, entre o “PSDB 1” e “2”, vamos ver. A tendência é que seja o PSDB oficial, aquele do sem palavra, que diz que é trabalhador, que era gestor, que não era político, mas que no segundo dia já estava saindo para viajar na tentativa de ser candidato à presidente da República. Não conseguiu, provocou uma confusão danada no partido, e agora sai candidato a governador dizendo que assinou um papel mas que é normal mentir, normal romper, normal trair. Então esse é o João que se dizia trabalhador e agora é o João sem palavra. De um caráter extremamente  duvidoso.

Fórum – Em 2016 o senhor foi alvo de uma polêmica por enviar à Câmara municipal de São Bernardo um projeto proibindo as discussão sobre orientação sexual nas escolas, a chamada “ideologia de gênero”. Sabemos que depois houve um recuo mas essa atitude ainda é muito malquista em alguns setores da esquerda. Essa, portanto, deve ser uma crítica iminente que farão ao longo de sua campanha. O senhor pretende trabalhar essa temática na fase de campanha? E no plano de governo, haverá uma atenção em especial à pauta da sexualidade e LGBT?

Luiz Marinho – Eu não tenho problemas com isso. Desafio qualquer um a pegar o meu programa de governo que pratiquei em São Bernardo do Campo. O projeto com relação a isso seguiu à risca orientações do MEC. Isso foi polêmica da emenda dos vereadores, mas é um debate que está vencido totalmente. Não há qualquer divergência com nossa base social, LGBT, as mulheres do PT, não há absolutamente nenhuma divergência. Vamos para frente. Agora, se os adversários quiserem debater projeto de educação, vamos debater o projeto que implantei em São Bernardo, melhoramos os indicadores drasticamente. Veja os indicadores do estado de São Paulo, que tem deixado muito a desejar. O Maranhão resolveu as metas da educação e em São Paulo o Alckmin diz que não dá para resolver por falta de orçamento. Possivelmente tenha ido tudo para o Paulo Preto e suas contas na Suíça e companhia ilimitada. Então, estamos prontos para o debate. Podem vir quente que estou fervendo.

Fórum – O que o senhor pode adiantar sobre seu plano de governo para São Paulo? Quais as prioridades?

Luiz Marinho – Na verdade, nós, nessa fase, evitamos um pouco falar de programa de governo, pois adversário vai e rouba programa. Nós vamos no tempo, gradativamente, apresentando o programa. Nós estamos discutindo com as setoriais. Vamos iniciar um movimento para fora do PT, com especialistas de inúmeros segmentos. Não queremos repetir mais do mesmo, queremos um programa de governo inovador que de conta de responder ao momento necessário de pensar inovação, de pensar o tema trabalho e emprego pra valer. Eu venho do mundo do trabalho, tenho muito compromisso com isso. Aqui, nós no ABC, através das várias iniciativas que nós geramos, vamos lançar mão disso no Estado também. Mas não é hora de detalhar ainda, vamos trabalhar com a cabeça antenada no que acontece no mundo contemporâneo, na economia global, e na certeza de que São Paulo pode mais do que está fazendo. São Paulo pode se tornar referência em todas as áreas. Orçamento, seguramente, não faltará.