Ingrid Gerolimich

29 de março de 2019, 19h04

Ma belle Agnès

Nova colunista da Fórum, Ingrid Gerolimich escreve sobre a cineasta Agnès Varda, que morreu aos 90 anos, nesta quinta-feira, 28. "Nunca vou esquecer do dia em que conheci Agnès, numa aula do curso de documentário"

Minha musa morreu. Os seus 90 anos anunciavam que a finitude era próxima, mas era como se só reverberasse em mim aquilo que fazia parte da sua existência afetiva. E, que esta, de alguma forma, pudesse vencer as barreiras biológicas do existir na presença da carne. Foi ingênuo, eu sei.

Perdi a conta de quantas conversas eu tive com ela, com a Agnès, as perguntas que fiz, as expressões, as reflexões sobre o mundo enquanto tomávamos um chá na sua cozinha durante a tarde.

Numa delas, pausa para um carinho em seu gato, que entra pelo janela, tomo coragem para perguntar sobre o Godard, só pra me assegurar de que ela não está mais magoada, o faço, ela gentilmente muda de assunto, não insisto.

Começamos, então, a falar sobre política, movimentos, feminismo, discorro sobre toda a sua importância nesse espectro, ela ri, não é afeita a elogios tanto quanto também não se sujeita a conformidades.

Nunca vou esquecer do dia em que conheci Agnès, numa aula do curso de documentário, tentavam ensinar justo sobre quem não tinha como pretensão ensinar nada, sempre categórica ao dizer que não queria mostrar coisa alguma com seus filmes, mas, sim, despertar no outro o desejo de ver, somente ver.

Veja também:  Queiroz ‘rachava’ salário de assessores de Flávio Bolsonaro com organização criminosa, suspeita MP

O desejo. A pulsão. Algo como que um tratado psicanalítico sobre a natureza humana e o que a move, é assim que vejo sua obra, ela riu e desdenhou carinhosamente do meu comentário. Eu calei, peguei sua mão, ainda quente de segurar a xícara de chá, dei um beijo, como fazia com a minha vó, seguido de um afetuoso e demorado abraço e me despedi, pois já é noite e Agnès precisa descansar.