08 de março de 2018, 00h17

Machismo no cinema e a construção do imaginário social

A indústria cinematográfica é predominantemente masculina. Num ambiente dominado por homens, principalmente nos cargos de chefia, casos de assédio sexual não são incomuns.

Segundo o Datafolha, quatro em cada dez brasileiras, ou 42% das mulheres, dizem já ter sofrido assédio sexual. Esse número, possivelmente, deve ser bem maior, já que o receio e medo em denunciar o abuso é enorme. Do ano passado pra cá, veio à tona um número significativo de histórias de assédios no audiovisual: histórias relacionadas ao comediante Louis C.K., que constrangeu mulheres ao vê-lo se masturbar; histórias sobre o ator e diretor James Franco; histórias sobre o diretor Roman Polanski, sobre o produtor Harvey Weinstein, entre tantas outras.

A indústria cinematográfica é predominantemente masculina. Num ambiente dominado por homens, principalmente nos cargos de chefia, casos de assédio sexual não são incomuns. A ausência de diretoras é um dos fatores que fortalecem o comportamento machista nos sets. Assim como nos Estados Unidos, no audiovisual brasileiro existem muitas histórias sobre assédios no ambiente de trabalho. Chamou atenção a história envolvendo o ator José Mayer e, mais recentemente, a história de um operador de câmera, que tirou fotos sem autorização da atriz Paola de Oliveira que se espalharam pela internet. Embora essas duas histórias tenham ganhado mais visibilidade por se tratarem de pessoas públicas, sabemos que os números são alarmantes.

Pesquisando no site da Ancine, Agência Nacional de Cinema, nos dados sobre gêneros, encontrei um estudo de 2016 que demostra que apenas 17% dos filmes nacionais foram dirigidos por mulheres, embora mais da metade da população brasileira seja feminina. Esses números são menores ainda se falarmos dos filmes dirigidos e roteirizados por mulheres negras. As mulheres são maioria nos cargos de produção (41%) e na direção de arte (58%). A Ancine também constatou que, quanto mais cara a produção, menor o número de mulheres.

É mais do que necessário que se crie medidas específicas para garantir pluralidade de falas e olhares. Nós, mulheres, precisamos estar mais atentas a estes números. Precisamos repensar nossas equipes, nossas posturas. O cinema faz parte da construção do imaginário de uma sociedade, ajuda a construir identidades, formar valores e comportamentos. A ausência de mulheres resulta em um olhar predominantemente masculino.

O ativismo e a voz feminina têm se ampliado bastante, irreversivelmente. O espaço que conquistamos só irá se ampliar cada vez mais. Para trás não tem como voltar. As mulheres ocuparão, cada vez mais, seu espaço na sociedade e esse é um movimento importante para toda a humanidade. Inclusive para os homens.