Anarca é a mãe

16 de junho de 2015, 09h15

(Que?) Mães no parquinho

 

Imagem de: http://www.photographersdirect.com/buyers/stockphoto.asp?imageid=684757

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– É, fiquei triste demais. Não conseguia nem comer. – ela me disse, e seus olhos se encheram com as lágrimas de uma dor que já se arrasta há muitos anos. – É por isso que nunca mais peguei trabalho com bebê, só criança grande. Porque a gente se apega demais e sofre muito quando tem que se separar.

Ela pausou para suspirar, olhando com carinho profissional o menino “grande” de quem ela agora cuidava – cerca de cinco anos. Será mesmo que seria mais fácil com esse, se acontecesse?

Tive uma vontade enorme de chorar, mas me segurei. Tive vergonha de usurpar com o meu choro de espectadora aquela dor que eu desconhecia por dentro.

Eu, pessoa lida como branca, brincando no parquinho com minhas crianças brancas no meio de um dia de semana, porque tenho o privilégio de não ter que trabalhar. Eu, que não suporto a ideia de estar longe delas por mais que algumas horas, que se tivesse que deixá-las em casa para trabalhar, teria depressão. Que se tivesse que deixar para sempre uma criança de quem cuidei com amor desde seus primeiros meses de vida, teria depressão.

Depressão. Essa coisa que só se admite em gente branca. Ela não teve o luxo de ter depressão, teve tristeza e falta de apetite e bora trabalhar que a vida não se ganha sozinha. Então estava ali, um uniforme branco revestindo sua pele negra, olhando o filho de outra pessoa para poder ter casa e comida para a família dela.

Quem estaria olhando es filhes dela? Em que parquinho ensolarado e cheio de árvores e brinquedos estariam, rindo felizes enquanto observades com atenção e afeto? Em que colo aconchegariam suas dores, de que voz ouviriam cantigas de roda? De que deliciosos quitutes especialmente preparados com ingredientes saudáveis desfrutariam?

Como eu já disse, o retorno das pessoas com filhes ao trabalho deveria ser uma escolha e não uma imposição, uma necessidade; é um absurdo que poder optar ainda hoje seja um privilégio. Como, por conta do machismo e do adultismo, a criança é vista como estorvo e problema da mãe, não há apelo para que os pais assumam a paternidade de fato, nem apoio para que mulheres mães sigam trabalhando e estudando e participando da sociedade.

Não há apoio para as brancas ricas conciliarem trabalho com maternidade sem explorarem mulheres mais pobres e há ainda menos apoio para que as mulheres pobres não se vejam forçadas a se submeter à exploração para alimentarem suas famílias, já que a falta de empatia atinge mais acentuadamente as pessoas vistas pela nossa sociedade racista e elitista como menos humanas, como não iguais. Ainda há quem trate políticas públicas como “estímulo à procriação“, por exemplo – gente rica tem filhes, gente pobre procria.

Outra babá que estava ali mais tarde me contou que estava de aviso prévio na casa da menina loura de olhos azuis que criara com tanto carinho desde os vinte dias de vida. Contou que tinha cuidado da menina mesmo em muitos finais de semana, em viagens, que muitas vezes tinha ficado até as dez da noite ao longo dos sete anos que “passou com essa família”. Que, mesmo de férias, tirava do bolso para ir ver a menina, porque sabia que a criança não ficava bem sem ela por muito tempo.

Discreta, me disse que estava saindo porque queria tentar outras coisas, mas depois a ouvi quando deixou escapar à amiga ao lado que parecia que, para es patrones, tudo estava difícil se era para dar aumento para ela, mas estava fácil se era para gastar com outras coisas.

Menina e babá estavam amuadas. A criança não queria brincar já há dias, ela contou, com um misto de culpa e resignação. Contou também que a mãe da criança, ao receber o pedido de demissão, havia dito “mas a menina vai sentir tanto!” Que ódio me deu ouvir isso. A menina vai sentir tanto, que malvada a babá fazê-la se sentir assim, né? Deveria ficar lá, recebendo um salário injusto, para não fazer mal para a menina.

Como alguém é capaz de usar uma criança para extorquir a outrem, principalmente alguém com quem já se tem uma relação desigual de poder? Usar o amor de uma pessoa contra ela própria é a chantagem mais sórdida que eu posso imaginar.

Mas ela não disse isso com raiva, disse como se a patroa estivesse reconhecendo a importância dela na vida da menina. Vai ver estava e eu é que via maldade onde não havia. Quem sabe.

Outra babá me contou que o segredo para não perder o emprego é saber trabalhar com o ciúme des pais. Claro que ela não colocou dessa forma; disse apenas que, quando o pai e a mãe do menino de dois anos que ela olhava chegavam em casa, ela o estimulava a ir brincar e conversar com eles porque, “se a mãe chega e a criança fica agarrada na babá, ela não gosta, né?”

Crianças precisam de amor. Como cuidar de uma criança sem amá-la? Como amar uma criança sem se entregar a esse amor? E como se entregar a amar uma criança sabendo que se pode perder todo contato com ela num estalar de dedos? Como se entregar a ser amada por uma criança sabendo que também ela poderá ter que enfrentar o dilaceramento emocional de um afastamento forçado? Existe profissionalismo possível ou mesmo desejável numa relação que envolve um laço afetivo tão profundo?

Mulheres negras são forçadas a cuidar de crianças brancas desde que primeiro chegaram ao Brasil, depois de caçadas, aprisionadas e escravizadas; são ainda hoje forçadas a cuidar das crianças brancas em detrimento de suas próprias crianças negras. Mais tarde, essas crianças brancas de quem elas cuidaram serão as pessoas adultas brancas que, tendo aprendido desde cedo que essa é a ordem natural das coisas, terão filhes brances que também serão cuidades pelas filhas negras dessas mulheres negras.

O racismo mais difícil de ser purgado é esse racismo sem querer. Esse que vem da naturalização das coisas, da monstruosidade cotidiana resultante da insensibilidade das pessoas que detêm tantos privilégios que sequer se dão conta de que é isso que eles são.

Creio que não temos como romper com o ciclo de opressões se não nos dispusermos a reconhecê-las e desconstruí-las antes dentro de nós. Não temos como revolucionar o mundo se fugirmos às problematizações que nos deixam desconfortáveis.

Não basta abrirmos o peito. Precisamos abrir também a mente.