À Beira da Palavra

23 de março de 2015, 17h15

Mágoas de Março

Compus essa em Taboão, debaixo d’água como está a cidade.

Se Tom Jobim morasse no Pirajussara, talvez fosse assim sua ‘Águas de março’…

(Há urgência de alimentos e roupas, principalmente para crianças. Neste 26/03, doações podem ser deixadas no “Quintasoito”- encontro mensal de artistas, agora com as grafiteiras do Punga Crew. Teatro Clariô – Rua Santa Luzia, 96 –Taboão da Serra/SP)

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MÁGOAS DE MARÇO

É pau, é treta, é lodo no caminho
É no gesto o sufoco, é a gente sem ninho.
É a casa arriando, o vexame em janeiro
É sirene, é resgate, reza e desespero
É o soro, a vacina, a lamparina na mão
É na face um bueiro, entupida a razão
É enchente de choro, melando o medo
É o desconsolo, cachaça, o fogo tão cedo
É o deslize previsto, é no chão o mocó
É a foice na sorte, na cacunda a dó
É o esgoto vazando, é quentar na fogueira
É a maldita sirene, a luz na nojeira
É defunto é entulho, Me desculpe o Jobim
A gaiola atolada e duro o canarin
É isopor, é garrafa, é tábua de passar
Armário boiando, a viela um mar
A parede rachada, o muro esfarela
A praia de esgoto, a tifo, a sequela
Arco-íris de vala/ Lixaiada brilhante
Criança dormindo e o berço na avalanche
É a miséria negreira em nova travessia
Oceano tumbeiro do chicote à bacia
É não ter documento, um barreiro a cozinha
Se alojar na vergonha, enterrar a vizinha
É perder certidão e brinquedo e fogão
É deslize, é desmanche e não ter quem dá mão
É o rodo que estoura e não guenta a lameira
É o balde rompendo, é friagem, é bicheira
São as mágoas de março fechando o verão
É a promessa devida da outra eleição
Arregaço na cerca, no peito e no mato
É a fossa, é o prego, a urina de rato
São as mágoas de março, é a merda no pão
Sem manta, sem copo, sem teto e sem chão
É cabeça abaixada, buscando quietar
É marmita ganhada, é a vida na pá
É o berro, o pavor, o enfarte, o despejo
A criança assustando e correndo pro beijo
A mudez do latido, a sobra da ração
Flutuando enforcada a nossa criação
É a trisca de vento, trazendo o terror
É o fedor no tempo, cobrindo o calor
É o povo espremido, o guarda-chuva virado
De podre o beliche, dormir no estrado
É enxada sem cabo, é cinco num colchão
E ainda louvar, agradecer na oração
É marreta, é olheira, é tosse, palafita
A enxurrada é tempero lavando a marmita
É sonhar ser alado e vencer temporal
É no espelho do medo, estrelar o jornal
É a chuva tão bela/ que germina a terra
No reino do pneu, o automóvel que impera
É a vingança do rio pela manta do asfalto
Rasgando avenida e jorrando pro alto
É o canal cinco chegando/ o treze, os barão
Entrevista, holofote, o lucro na locução
É a cifra banqueira levando a nação
É mangueira, é lanterna, tombo na alagação
Pirituba, Brasilândia
Mauá, Diadema, Jabaquara,
Cidade Ademar
Capão, Taboão, Embu,
Tucuruvi, Jaçanã, Guarulhos, Tiradentes, Perus, Taipas
Grajaú, Sapopemba
Cano, fé, graxa, terço, guia, capa, breja
Gorro, quadra, fio, beco, poça, bota, febre
São as mágoas de março, é a merda no pão
Sem manta, sem copo, sem teto e sem chão
São as mágoas de março fechando o verão
É a promessa devida da outra eleição

(Foto: Reprodução)

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