04 de setembro de 2015, 17h34

Chico Macena – Mais do que metas, programas e obras: valores

Na disputa de concepções de mundo, não basta uma relação de obras a serem construídas e é cada vez mais imprescindível debatermos com a sociedade quais valores se devem consolidar para construir uma cidade mais humana, justa, participativa, solidária e mais aberta aos seus cidadãos Por Chico Macena* Um dos grandes desafios de qualquer governo é a disputa pela hegemonia na sociedade, o apoio e o reconhecimento da população para a implementação e consolidação de seus programas e projetos que possam, ao longo do tempo, mais do que políticas de governo se transformar em políticas de Estado. Muitas vezes essa...

Na disputa de concepções de mundo, não basta uma relação de obras a serem construídas e é cada vez mais imprescindível debatermos com a sociedade quais valores se devem consolidar para construir uma cidade mais humana, justa, participativa, solidária e mais aberta aos seus cidadãos

Por Chico Macena*

Um dos grandes desafios de qualquer governo é a disputa pela hegemonia na sociedade, o apoio e o reconhecimento da população para a implementação e consolidação de seus programas e projetos que possam, ao longo do tempo, mais do que políticas de governo se transformar em políticas de Estado. Muitas vezes essa disputa de opinião tem apenas como horizonte o embate eleitoral, reduzindo o alcance e os impactos das políticas públicas.

A experiência que estamos vivenciando na gestão da Prefeitura de São Paulo deixa nítido que um governo que representa um campo democrático e popular sofre fortes resistências dos setores mais conservadores e tradicionais, em todos os terrenos. Uma dura batalha tem sido travada desde o primeiro ano, quando foi apresentado um projeto tangível para o desenvolvimento do Município, com seu reordenamento, consolidado na proposta do Plano Diretor Estratégico (PDE); na ampliação da malha de faixas exclusivas para ônibus; na abertura dos espaços públicos para sua reapropriação pelos cidadãos; na definição de prioridades de políticas públicas para quem mais precisa; no respeito à diversidade; na redução da velocidade nas marginais e outras artérias da mobilidade, priorizando a vida; na busca de uma cidade mais moderna e mais humana; na construção coletiva de uma nova identidade local.

Na disputa de concepções de mundo, não basta uma relação de obras a serem construídas e é cada vez mais imprescindível debatermos com a sociedade quais valores se devem consolidar para construir uma cidade mais humana, justa, participativa, solidária e mais aberta aos seus cidadãos. Onde os interesses coletivos se sobreponham ao individualismo; o direito ao deslocamento com segurança se antecipe ao risco de morte pela velocidade excessiva; o da inclusão social e da equidade se sobressaia à acumulação sem limites; a participação social tenha mais valor que as decisões monocráticas. Enfim, buscar uma identidade de cidade para todos em cada canto do seu território, em que as pessoas sejam co-partícipes de sua construção e se sintam contempladas, sobretudo os setores menos favorecidos.

Isso não implica que devemos subestimar o alcance social das intervenções nos vários “cantos da cidade”, como a construção dos três hospitais; dos 37 equipamentos de saúde entregues e dos 20 que estão em obras; dos 75 de educação que já foram entregues e os 60 que estão em construção; das 19.365 unidades habitacionais em construção e das 14.732 licenciadas para serem incluídas no programa Minha Casa Minha Vida, do Governo Federal; da melhoria dos serviços; pois afirmam e ampliam o direito à cidadania. Não significa que não devemos fazê-las, e a Prefeitura vem fazendo também na área de mobilidade, no programa de drenagem etc.

Esta é era do “quero mais”, necessário para uma cidade das dimensões e dos desafios de São Paulo. Mas, a ampliação das conquistas, não pode se resumir apenas na legítima pauta de reivindicações, que reconhecemos e perseguimos, da realização de obras, até porque a amplitude das demandas acumuladas choca-se com a capacidade que a Prefeitura tem de atendê-la, sobretudo, de imediato. Essas demandas estiveram presentes nas manifestações de junho de 2013, especialmente, no início. Entretanto, no seu desenrolar, essas manifestações, foram tomadas pela agenda dos setores mais atrasados e conservadores da sociedade.

Tanto no processo de construção, quanto na execução do nosso Projeto, temos que explicitar o alcance social, cultural e político das intervenções, propostas e já realizadas, os valores que este projeto representa e que defendemos, de forma a buscar o apoio da população às nossas iniciativas chamando-a a participar da construção coletiva dessa identidade.

Esse é o debate que setores conservadores das elites locais, e seus porta- vozes nos meios de comunicação tradicionais, querem interditar, querem impedir que seja feito. É preciso persistir, nos espaços possíveis desses meios de comunicação de massa, nas redes sociais e, sobretudo, nos espaços dos movimentos sociais organizados e daqueles/as que se identificam e apoiam a construção deste Projeto. O Governo Municipal e os setores progressistas devem fazer essa disputa palmo a palmo, rua a rua, nas suas diferentes dimensões, pois o debate não se manifesta apenas na esfera do governo. Ele permeia todo o tecido social.

Esse é o chamamento que devemos fazer a todos os setores sociais comprometidos com um projeto mais humano de cidade, moderno e inclusivo, solidário e tolerante às diferenças, democrático e aberto à participação social. Que respeita as demandas de todos/as, mas que prioriza as dos que mais precisam.

Uma cidade mais moderna e mais humana não é apenas um slogan, não são apenas metas, programas e obras a serem realizados é um valor a ser construído coletivamente. Uma cidade para todos/as e, sobretudo, para quem mais precisa é um direito a ser perseguido e que queremos conquistar.

*Chico Macena, 52 anos, é administrador e Secretário do Governo do Município de São Paulo.

Foto de capa: Flickr/Júlio Boaro