16 de setembro de 2018, 11h00

Mais que ciclovias, Haddad construiu pontes para o Ensino Superior

O petista é recorrentemente lembrado por sua gestão como prefeito de São Paulo, mas foi como ministro da Educação que o candidato de Lula à presidência deixou o seu maior legado

Foto: Ricardo Stuckert

A menos de um mês para o primeiro turno das eleições deste ano, a corrida presidencial sofreu uma reviravolta com a entrada de Fernando Haddad (PT) no páreo. Diante da decisão da justiça eleitoral que impugnou a candidatura de Lula, o ex-presidente decidiu, no último dia 11, lançar Haddad como seu substituto e, para boa parte da oposição e da própria esquerda, o professor da USP não passa de mais um “poste” do PT.

As críticas, assim como na época em que Dilma Rousseff foi lançada por Lula, estão ligadas ao fato de que Haddad não seria conhecido por boa parte dos brasileiros e que o petista não teria força eleitoral, já que perdeu sua tentativa de reeleição à prefeitura de São Paulo para João Doria (PSDB), em 2016, no primeiro turno, no auge do anti-petismo.

Em dezembro de 2016, Haddad cumpriu a meta e entregou 400 km de ciclovias para a cidade de São Paulo, que passou a contar com uma malha cicloviária de 498,4 quilômetros. Foi uma política inovadora na mobilidade urbana da capital paulista, elogiada por cicloativistas e interrompida por seu sucessor Doria e, agora, seu vice que assumiu a gestão, Bruno Covas.

Para além de outras políticas e iniciativas enquanto prefeito que não se limitam à mobilidade urbana, Haddad deixou seu maior legado como ministro da Educação. Ele chefiou a pasta de 2005 a 2012, nos governos Lula e Dilma, e sua gestão foi marcada pela inclusão de milhares de pessoas no Ensino Superior.

Há muitas pessoas da área que consideram “o ex-prefeito das ciclovias” o melhor ministro da Educação que o Brasil já teve. Em um vídeo que vem sendo utilizado em sua campanha para a presidência, Lula não poupa elogios ao seu substituto.

“Eu e o Haddad, se juntar todos os presidentes da República e todos os ministros, desde que foi proclamada a República, não visitaram 10% das universidades que visitamos, das escolas que inauguramos (…) Não é à toa que Haddad ficou 7 anos no Ministério e se transformou no ministro mais importante desse país. Em pouco tempo proibimos a palavra ‘gasto’ em Educação, em 12 anos fizemos mais escolas técnicas do que eles fizeram em cem anos, em 12 anos colocamos mais jovens na universidade que eles colocaram em 100 anos. Essa gente tem preconceito contra isso?”, diz o ex-presidente.

Os números de Haddad

Alguns dados oficiais ilustram o motivo pelo qual Haddad usa do tema Educação como uma de suas principais plataformas de campanha.

Durante seus sete anos de gestão como ministro da Educação, o ex-prefeito multiplicou o orçamento da pasta – era de R$25,2 bilhões e passou a ser de R$90,56 bilhões.

O investimento refletiu no crescimento do orçamento público em Educação com relação ao PIB. Foi de 4,5% em 2005 para 6,4% em 2012.

A gestão Haddad foi também a que mais criou universidades: foram construídas 18 novas universidades federais, 173 campus universitários e 360 institutos federais. Atrelada às novas instituições, o Ministério, com o atual candidato à presidência pelo PT à frente, implantou programas sociais e mecanismos que permitiram o acesso de milhares de jovens de baixa rende ao Ensino Superior.

Haddad foi o responsável por implantar o Programa Universidade para Todos (ProUni), que garante bolsas integrais ou parciais para alunos da rede pública em universidades privadas. O programa já beneficiou, desde sua criação até 2016, cerca de 1,9 milhão de estudantes, sendo que 70% das bolsas são integrais.

Outro programa encampado por Haddad enquanto ministro foi o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). A iniciativa já existia, mas foi expandida no governo Lula a partir do fim da exigência de fiador por parte do estudante. Assim, o governo federal assumiu o papel de financiador e garantiu quase 150 mil contratos firmados com instituições privadas de ensino.

Boa parte da ampliação do acesso à universidade foi possibilitada pelo aprimoramento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e a criação do Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Ambos os programas encampados por Haddad permitiram a unificação do vestibular, simplificando o acesso universitário. O ProUni e o Fies, por exemplo, têm como pré-requisitos a realização do Enem por parte dos estudantes.

Beneficiados

O primeiro ato público de campanha de Fernando Haddad como candidato à presidência da República teve como tema justamente o legado do petista na área da Educação. Ao lado de sua vice, Manuela D’Ávila (PCdoB), o ex-ministro se reuniu em um teatro no centro de São Paulo, na última quarta-feira (12), com estudantes e ex-estudantes que foram beneficiados com o programa ProUni.

Emocionados, jovens que são filhos de pedreiros ou empregadas domésticas, muitos os primeiros da família a conseguirem um diploma universitário, contaram suas histórias de vida ao candidato do PT e detalharam as mudanças que foram proporcionadas com o acesso ao Ensino Superior.

A reportagem da Fórum esteve presente no evento e selecionou cinco desses depoimentos.

Confira abaixo.

Gabriel Freitas
formado em Engenharia, professor na Unip, beneficiário do ProUni

“Sou filho e neto de pedreiro e sempre tive um sonho: me tornar engenheiro. Só que esse sonho, para queles que estudavam na escola que eu estudava, que cresceram comigo, era um sonho distante. E aí, depois de 503 anos de negação de oportunidades para os filhos da classe trabalhadora desse país, um presidente operário, que era acusado de não ter diploma universitário, e um ministro da Educação, com uma sensibilidade que vi em poucas pessoas que conheci, criaram um programa para abrir as portas da universidade, que foi o ProUni. E eu me tornei engenheiro. E me deixa feliz dizer que não sou só o filho do pedreiro que virou engenheiro, mas o pedreiro também fez Enem, também ingressou na universidade. Falar de ProUni me emociona porque mudou a historia da minha vida e da minha família. Mas o que mais me emociona ainda em relação ao ProUni é que hoje sou professor universitário, e um dia eu estava na sala de aula, tinha uma aluna, ela pediu uma ajuda, e estava contando da rotina puxada dela, que morava longe da faculdade, e aí ela comentou que é prounista. Tive uma das maiores recompensas da minha vida: dizer para ela que eu também fui prounista. Eu sei o que isso faz na vida da gente.”

 

Barbara Quenca
estudante da FMU, beneficiária do ProUni

“Graças ao ProUni hoje eu consigo ter uma realidade diferente dos meus tios e tias, que em maioria sequer conseguiram chegar ao ensino médio. Hoje eu, primos e primas, somos estudantes universitários. Essa é  a primeira geração da minha família que entrou na universidade. Então, falar de ProUni é especial para mim. Graças a isso temos uma perspectiva diferente de futuro, sei que tenho outra oportunidade de não estar em um subemprego. Se não fosse pelo ProUni, no sei nem se teria me formado na escola, porque sou de São Paulo e aqui tem governo do PSDB e há muitos anos a escola é muito precarizada. Então, quando estava para me formar, e eu já havia desistido da escola porque é muito desanimador aquele ambiente ambiente. E foi apenas por causa do ProUni, dessa perspectiva de ter um futuro diferente, que me dediquei novamente aos estudos para poder entrar na universidade e dar esse orgulho aos meus pais: agora eles podem ter uma filha advogada, membro do judiciário, que vai fazer diferença dentro de todo esse conservadorismo que a gente vê… Toda essa loucura que, inclusive, possibilitou que o golpe acontecesse no país, que mantém o nosso presidente Lula preso. Quero ser essa pessoa que vai fazer diferente no judiciário, e sei que posso fazer isso através do ProUni.”

Haddad cercado por estudantes beneficiados com o ProUni, em seu primeiro ato oficial como candidato à presidência, em São Paulo. (Foto: Ricardo Stuckert)

Fernanda Curti
estudante da FMU, beneficiária do ProUni

“Me emociona muito falar do ProUni. Foi o programa que fez o seu Severino, meu pai, e a dona Elisangela, minha mãe, verem os quatro filhos na universidade. Quero pontuar o número de estudantes, mulheres negras, inclusive, que estão fazendo curso de Direito. O ProUni colocou a gente não em qualquer curso, mas cursos que historicamente nos foram negados, que só filhos de gente bem nascida faziam. O ProUni nos deu essa oportunidade, que os filhos da classe trabalhadora estivessem sentados na mesma sala de aula que os filhos dos patrões. Assim como as cotas. É muito desigual achar que nós que estudamos na escola pública temos a mesma condição de disputar com alguém que se preparou a vida inteira em uma escola privada. Até por que os governos do PSDB aqui em São Paulo preparam os jovens da classe trabalhadora para empurrar para a marginalidade, mas jamais para disputar uma vaga na universidade com os filhos deles. ProUni e Fies foram programas de dar o direito que nos foi negado por muito tempo. Aqui em São Paulo nossa perspectiva sempre foi chegar no ensino médio e arrumar um trabalho e ajudar em casa. Depois do ProUNi nossa perspectiva começou a ser chegar no ensino médio, se preparar para o Enem e escolher nosso curso.”

 

Luiz Felipe
estudante da UFMG, beneficiário do ProUni e do sistema de cotas

“É com muita emoção que falo que educação. Principalmente se falar da minha mãe. Com 59 anos, uma mulher negra se formou em serviço social. Eu aprendi a ler unto com a minha mãe, ela me levava para o trabalho porque não tinha condições de pagar alguém para cuidar de mim. E aprendi a ler junto com ela, lendo os jornais da madame. Ela tem uma marca de ferro de passar roupas no braço. Quando ela estava com aquele braço quebrado, falei: ‘Mãe, a senhora vai trabalhar mesmo assim?’. Ela me respondeu: ‘Tem que botar comida em casa’. Hoje tenho orgulho porque na mesma mão do braço que está a marca do ferro de passar está o diploma. É muito gratificante. Eu estudava em São Bernardo, saia do Capão para estar em São Bernardo às sete e meia da manhã. Era muito role. Mas era muito bom pegar ônibus para estudar às quatro e meia da manhã com a minha mãe.  Hoje estou na UFMG, decidi sair de casa e faço Engenharia Metalúrgica. Estou em uma moradia, tenho meu próprio quarto e eu comemoro isso. A gente nunca teve nada. Quando ganhamos uma cota, ganhamos uma bolsa, uma moradia, falam que a gente está recebendo migalha? O que é migalha para quem nunca teve nada? A gente vai incomodar cada vez mais pessoas. Vai ter preto, vai ter pobre na universidade, sim. Brinco que todo mundo tem algo que o motiva, e para mim é dar dignidade para minhã mãe. E a gente sabe que a dignidade do povo pobre sempre ameaçou eles.”

 

Maíra Castro
formada em jornalismo pelo Mackenzie, beneficiária do ProUni

“Fui prounista cem porcento no Mackenzie e me formei em jornalismo. Sou filha de um metalúrgico que estudou até a quarta série, como o Lula, que viu Lula fazer greves e que não pode entrar na universidade. Eu queria agradecer pelo ProUni por ter dado ao meu pai o maior presente: ter sentado na minha formatura ao lado de médicos, advogadas e empresários que estavam formando seus filhos no Mackenzie. Eu estava lá.”