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14 de maio de 2019, 17h30

Mais uma vez a mídia dominante entende errado a Venezuela

Veículos de comunicação estrangeiros, obedientemente apoiando o chamado da administração Trump para mudança de regime, relataram que uma insurreição generalizada estava a caminho, mesmo que a tentativa de golpe de Guaidó tivesse pouco apoio

Foto: Reprodução/YouTube
Por Michael Fox, de Caracas Começou com um tweet. Nele, o autoproclamado presidente da Venezuela, Juan Guaidó, está na frente de uma fila de veículos militares e fileiras de soldados venezuelanos em uniformes verdes. Ao lado deles está o líder oposicionista Leopoldo López, que tinha sido libertado da prisão domiciliar, a qual se deve ao seu papel nos protestos de rua guarimba de 2014, nos quais dezenas de pessoas foram mortas. Guaidó, vestindo em um terno preto e uma camisa branca, fala com a câmera. “Hoje as forças armadas estão claramente com o povo”, diz. “A hora é agora”. Ele...

Por Michael Fox, de Caracas

Começou com um tweet.

Nele, o autoproclamado presidente da Venezuela, Juan Guaidó, está na frente de uma fila de veículos militares e fileiras de soldados venezuelanos em uniformes verdes. Ao lado deles está o líder oposicionista Leopoldo López, que tinha sido libertado da prisão domiciliar, a qual se deve ao seu papel nos protestos de rua guarimba de 2014, nos quais dezenas de pessoas foram mortas.

Guaidó, vestindo em um terno preto e uma camisa branca, fala com a câmera. “Hoje as forças armadas estão claramente com o povo”, diz. “A hora é agora”. Ele conclama os militares a se rebelarem e diz que estão nas ruas. Insinua que eles tomaram a base militar de Carlota no leste de Caracas.

Meu telefone toca e então toca de novo.

“Parece que houve um golpe”, diz a voz de um amigo. É isso que as pessoas estão pensando pela cidade afora. É logo após às 6 da manhã e o céu ainda está alaranjado do amanhecer. Vizinhos batem potes e panelas, o som viaja pela janela aberta. A escola é cancelada e o metrô está fechado. Apoiadores do presidente Nicolás Maduro recebem mensagens de que pessoas estão sendo chamadas para defender Miraflores, o palácio presidencial, de um ataque potencial. Eles começam a fazer o percurso pela cidade, alguns a pé, outros de ônibus ou de carro.

Uma corrente de apoiadores de Guaidó vai em direção ao reduto oposicionista de Altamira e à base de Carlota, apenas alguns quarteirões de distância. Mas está claro que Guaidó não tomou a base; seu vídeo foi gravado em uma ponte próxima.

Manifestantes encapuzados arremessam pedras e outros projéteis contra soldados leais a Maduro, que os forçam a recuar com gás lacrimogêneo. A fumaça se espalha dentro da multidão e as pessoas debandam rua acima, gritando e cobrindo seus rostos.

Estefani Braz fica em cima de uma mureta pedindo aos que estão a sua volta para ficarem calmos. Ela tem 28 anos, mãe e designer gráfica, com um longo e encaracolado cabelo castanho. “Pensei que tivesse acabado”, diz ela. “Mas nós vamos continuar lutando e apoiando uns aos outros, porque vamos sair dessa”.

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A deposição de Maduro parecia ao alcance. Como se ela quase conseguisse tocá-la. Mas foi apenas uma ilusão. Em poucas horas, Guaidó e López desistiram de uma insurreição militar. López, sua esposa e filha pediram asilo primeiro na embaixada do Chile e então na embaixada da Espanha. O presidente brasileiro de extrema direita, Jair Bolsonaro, concedeu asilo a duas dúzias de soldados venezuelanos que se juntaram à oposição.

Num vídeo que se tornou viral nas redes sociais, pelo menos uma dúzia de soldados que apareceram de manhã cedo no chamado de Guaidó para rebelião disseram que eles foram “enganados”, enviados ali por um oficial comandante.

Apesar desses contratempos, Guaidó levou milhares numa marcha de Altamira em direção ao oeste, mas eles foram afugentados pelo gás lacrimogêneo da guarda nacional. Manifestantes encapuzados empunhando pedras e grupos de oposicionistas em motocicletas fizeram um jogo de “gato e rato” com a guarda. Em uma cena reminiscente dos violentos protestos de 2014 e 2017, os manifestantes bloquearam as estradas e colocaram fogo em pelo menos um ônibus e cinco motocicletas. Pedras e destroços cobriram as ruas. Várias dezenas de manifestantes ficaram feridos, em grande parte devido ao gás lacrimogêneo, segundo os prestadores de primeiros socorros no local. Várias tropas de guarda foram baleadas com munição real pela pequena força rebelde de Guaidó.

Do outro lado da cidade, milhares se reuniram em frente a um palco do lado de fora de Miraflores, onde líderes chavistas discursavam. Eles dançaram ao som das músicas que saíam de grandes alto-falantes num comício que continuaria ao longo da noite para assegurar que ninguém tentaria tomar Miraflores.

O que começou como ameaça de uma insurreição militar de larga escala contra o governo Maduro terminou como um fracasso desastroso para Guaidó e a oposição – outro, em uma sequência de 20 anos de tentativas abortadas apoiadas pelos EUA de derrubar o processo bolivariano.

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Ainda assim, milhares de apoiadores da oposição saíram para a marcha de Guaidó de Primeiro de Maio, enchendo a maior parte da Praça Altamira e ruas circundantes.

“Eu não me sinto derrotada”, disse Aylen Cejas, uma professora e apoiadora de longa data da oposição. “Muitos venezuelanos talvez digam que este processo é muito lento, mas às vezes precisa ser assim”. Mas aqueles na multidão pareciam resignados, afetados pela derrota do dia anterior, suas esperanças levantadas e esmagadas uma vez mais. Mais cedo, Guaidó disse que esse comício seria um dos maiores da história da Venezuela. Não chegou nem perto.

Guaidó agora está chamando várias greves que levarão a uma grande greve nacional para forçar Maduro a renunciar. É difícil imaginar como essas greves serão realizadas, já que a maior parte do apoio de Guaidó vem das classes média e alta e o país já está sofrendo com hiperinflação, o que faz com seja difícil para as pessoas conseguirem comida. A última grande greve da oposição foi há muito tempo, o lockout petrolífero de 2002-03, no qual altos executivos da companhia estatal de petróleo, a PDVSA, pararam a indústria – e o país – por dois meses.

Marcha pró-Maduro

Enquanto isso, pela cidade, centenas de milhares marcharam em apoio a Maduro.

“Nós estamos com Maduro – mais do que nunca”, disse Carmen Mejía, uma cabeleireira de meia idade, enquanto ela marchava o trecho final em direção a Miraflores. “Nós venezuelanos temos apenas um presidente, e ele é Nicolás Maduro, nós precisamos apoiá-lo”.

Muitos na multidão disseram que foi uma das maiores e mais vibrantes manifestações em apoio ao governo de Maduro, ecoando marchas da era de seu popular antecessor, Hugo Chávez. Este ponto é fundamental: se esta marcha serve de medida, a pressão contínua para derrubar Maduro tem gerado um efeito contrário, fortalecendo sua base, apesar de divisões internas e críticas ao seu governo.

“A estupidez de Guaidó é o melhor aliado do Chavismo, porque tem unificado o povo em apoio a Maduro”, disse Gilberto Giménez, presidente do pequeno partido pro-Maduro Movimento Popular Eleitoral.

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Isso é muito diferente da imagem que continua a ser propagada por Washington e a oposição, assim como nas redes sociais e na imprensa internacional. Na noite de quarta-feira (01/05), apenas duas horas depois do final do comício de Maduro, Guaidó disse a Trish Regan, da Fox News, que o governo de Maduro estava desmoronando.

“Hoje, entre 91 e 95 por cento de nossa população quer mudança. Hoje, Maduro está muito fraco. Ele não consegue sequer o apoio das forças armadas”, Guaidó alegou. Essa ilusão, como seu tuíte na manhã de terça-feira, ajudou a distorcer a realidade dos eventos aqui para a mídia estrangeira.

Apenas uma hora depois da mensagem de Guaidó, o ministro venezuelano da defesa tuitou que os militares continuavam leais a Maduro. As batalhas dos manifestantes de rua fora de Carlota deixou claro que Guaidó não detinha a base e que ele não tinha apoio militar, além de algumas dezenas de soldados. Ainda assim, veículos de comunicação internacionais continuaram a relatar que uma insurreição militar generalizada estava a caminho. Em uma matéria publicada naquela noite, que agora foi revisada, a BBC perguntava se Guaidó controlava uma porção substancial das forças armadas venezuelanas.

Os venezuelanos conhecem o poder da mídia. O pretexto para o golpe de 2002 contra Chávez foi baseado em imagens gravadas e manipuladas por um veículo de comunicação da oposição para mostrar a polícia metropolitana disparando em manifestantes desarmados. Era uma mentira, como demonstrado em diversas investigações, incluindo o documentário Llaguno Bridge: Keys to a Massacre, o qual eu narrei e traduzi para o inglês 15 anos atrás.

O impacto dessas políticas é profundo. Donald Trump insiste no Twitter que todas as opções ainda estão na mesa para a mudança de regime na Venezuela. A luta pela imagem da Venezuela depende amplamente de quem controla a história – frequentemente contada hoje em menos de 280 caracteres, em imagens e vídeos.

Este texto foi publicado originalmente em inglês no “The Nation” e foi traduzido por Leonardo Regis

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