29 de junho de 2018, 21h01

Manuela D’Ávila e a miséria do jornalismo

"O fato é que o topo da pirâmide não está acostumado a ser questionado, ainda mais por uma mulher de esquerda que almeja o cargo mais alto da política palaciana"

Manuela no Roda Viva. Foto: Reprodução

A entrevista da deputada estadual (RS) e pré-candidata do PCdoB à presidência da República, Manuela D’Ávila, ao programa Roda Viva (TV Cultura), na última segunda-feira (25), foi e ainda continua a ser o assunto das redes. O principal motivo é que a candidata foi interrompida em quase todas as suas respostas, o que configura manterrupting, termo criado para o fato de que, geralmente, as mulheres são interrompidas por homens quando tentam falar e ou explicar alguma coisa.

Mas, para a jornalista Vera Magalhães, não houve “machismo” na postura dos jornalistas presentes no programa e que tudo não passa de “uma falsa polêmica”. As declarações de Magalhães foram dadas ao programa “Morning Show”, da rádio Jovem Pan. Além de considerar uma “falsa polêmica”, a jornalista declarou que Manuela “interrompeu também algumas vezes”. Ora, se você é interrompido incessantemente quando tenta responder, não lhe resta alternativa a não ser interromper para concluir os seus pensamentos. Mas, para Magalhães tudo não passa de “uma falsa polêmica”.

Vera Magalhães destaca que os momentos mais tensos do programa foram entre Frederico D’Ávila e Manuela D’Ávila onde ambos trocaram “farpas”, mas que tudo transcorreu no campo da ideologia e não “em questões de gênero”. Chega a ser espantoso que uma jornalista com o CV que tem cometa um erro tão crasso e trate gênero e ideologia como duas coisas distintas. É óbvio que o debate entre Manuela e Frederico foi ideológico e sobre gênero pois cada possui um ponto de vista sobre campo das sexualidades justamente por conta de suas respectivas ideologias.

Como a própria pré-candidata explicitou ao responder sobre a castração química de estupradores, tema trazido à tona por Frederico, que trabalha na pré-campanha de Bolsonaro: se declarou contrária e estabeleceu como objetivo, para combater o estupro, não apoiar e votar em pessoas que dedicam o estupro para mulheres feias e bonitas, ao que Frederico discordou e ainda alegou não existir cultura do estupro no Brasil.

Este momento, que aconteceu no primeiro bloco do programa, já deixa bem claro as bases ideológicas de cada um no que diz respeito aos gêneros e sexualidades. Fica difícil acreditar que, para a jornalista Vera Magalhães, as questões de gênero venham desacompanhas de profunda base ideológica, para o bem e para o mal.

Após afirmar e divorciar gênero e ideologia, a jornalista Vera Magalhães confirma que houve interrupções, assim como nas outras entrevistas com os presidenciáveis. Posteriormente, a jornalista diz que o Brasil está acostumado com “entrevistas frias” e “bobinhas”. Não é verdade e o próprio Roda Viva já foi palco de inúmeras entrevistas tensas. Uma rápida tour pelos vídeos do Roda Viva no YouTube já desmonta a tese de Magalhães.

No vídeo-resposta, Vera Magalhães retoma a questão do elogio que Lula fez a Manuela, dizendo que a pré-candidata tergiversou sobre tal assunto. Não é verdade, a Manuela foi direta: afirmando que o elogio de Lula faz parte do machismo inerente à cultura brasileira. Para finalizar, Vera Magalhães volta a afirmar que tudo não passa de “falsa polêmica” e “mimimi”.

A postura de Vera Magalhães, bem como dos jornalistas do programa radiofônico em questão, desnuda o nível em que se encontra a imprensa tradicional no Brasil. Também revela o machismo estruturante de tal imprensa e de como uma candidata à presidência da República, ainda mais sendo de esquerda e reafirmando a palavra comunista, incomoda. Tanto incomoda que, inúmeros textos e vídeos réplicas foram produzidos para desacreditar a tese do machismo praticado durante o Roda Vida.

O fato é que o topo da pirâmide não está acostumado a ser questionado, ainda mais por uma mulher de esquerda que almeja o cargo mais alto da política palaciana. E é por isso que a afirmação de que o golpe contra a Dilma Rousseff foi misógino nunca se mostrou tão acertada. Mas, o que torna mais chocante é uma jornalista com amplo espaço se dar ao trabalho de afirmar que tudo não passa de “mimimi”.

Não é “mimimi”, é só a miséria do jornalismo tradicional praticado no Brasil.

Aqui uma matéria da revista Marie Clare que, a partir do programa Roda Viva explica os conceitos machistas como manterrupting, mansplaining etc.

Abaixo, você confere o vídeo com o comentário da Vera Magalhães e a entrevista de Manuela D’Ávila ao Roda Viva.