Oprah, Deneuve e nós

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Muito barulho sobre uma manchete

O título da carta das francesas é mais provocativo que o texto em si. Antes de escrever sobre ele,  pergunto-me, aqui do meu mundinho proletário de quem pega 3 conduções por dia e demora 2 horas para chegar de casa ao trabalho e mais 2 do trabalho para casa o que Deneuve e Oprah têm a me dizer de suas belas limusines e de seus microfones em seus tapetes vermelhos…

Como a imprensa brasileira explorou o discurso de Oprah, assim como explorou o manifesto das francesas, destacando trechos descolados do contexto, dando importância demais a um título que não faz jus aos argumentos centrais do texto, prestando um desserviço à informação e ao tratamento adequado de questões graves como o assédio sexual e a violência contra as mulheres, resolvi dar meus pitacos.

Violação é crime e ponto, flerte não é”.

Na África do Sul 4 em cada 10 homens já cometeram crime de estupro. Na República Democrática do Congo o estupro é arma de guerra onde até os homens são alvos. O Brasil ocupa lugares vexatórios neste ranque de barbáries. Os estupros e a violência psicológica, física, simbólica contra as mulheres são praticados em todos os grupos sociais, por todas as raças, em todos os lugares do globo. Foi numa comunidade carioca que uma jovem menor foi violentada por 33 homens, incluindo menores. As principais vítimas de assédio em transportes públicos são mulheres jovens. A vovó Deneuve e as demais vovós esqueceram-se de ter sororidade ao soltar o seu manifesto, logo após o discurso contundente da vovó Oprah que rememorou uma vítima de estupro dos tempos das Leis Jim Crow.

Esclarecendo isso, vamos ao documento original publicado no Le Monde pelas vovós francesas. Já no primeiro parágrafo elas deixam claro que não defendem assediadores, criminosos sexuais: “violação é crime e ponto. Flerte não é”. Elas reafirmam que como mulheres não querem ser infantilizadas. Nós mulheres adultas sabemos ou deveríamos saber a diferença entre assédio e uma cantada ruim.

Grosso modo, o texto é um debate com o puritanismo estadunidense e a maneira enviesada que aquela sociedade trata questões como o assédio sexual: por vezes pais e professores nos EUA acusam até mesmo crianças de cometer assédio sexual.  É a isso que as francesas se referem ao insistirem em “pôr limites à caça às bruxas”.  Elas reafirmam a liberdade sexual das mulheres e em nenhum momento querem voltar ao século XIX onde só os homens deveriam se dirigir às mulheres. Elas insistem no fato de sermos sujeitos de nossos próprios corpos e de não sermos reduzidas a eles. Somos seres completos, não somos apenas bundas ou cérebro. Em nenhum momento do manifesto as personalidades francesas endossam a violência contra as mulheres: “Era necessária a tomada de consciência das violências sexuais exercidas sobre as mulheres no quadro profissional, onde certos homens abusam do seu poder“ é um trecho do manifesto.

O que elas criticam é a tendência ao totalitarismo quando temas como esses ganham dimensão global em tempo real. Não é incomum o efeito cascata quando denúncias tomam as redes sociais e outras mídias. O Tribunal da internet é absolutista: uma foto de réveillon no Rio de Janeiro bota o fotógrafo no banco dos réus, pede a pena de morte com requintes de castigo pedagógico. Uma campanha séria de denúncia contra assédio pode invariavelmente descambar em fogueira sem distinção: igualando homens ruins de cantada a criminosos sexuais.

Voltemos ao documento: “Mas é a característica do puritanismo pedir emprestado, em nome do bem chamado bem geral, os argumentos da proteção das mulheres e sua emancipação para melhor vinculá-los ao status de vítimas eternas”. E prosseguem: “De fato, #metoo levou na imprensa e nas redes sociais uma campanha de denúncia e acusação pública de indivíduos que, sem ter a oportunidade de responder ou se defenderem, foram colocados exatamente no mesmo nível dos infratores sexuais”.

A quem isso serve, elas questionam. Serve ao pensamento conservador: “Essa febre para enviar “porcos” ao matadouro, longe de ajudar as mulheres a se libertarem, serve aos interesses dos inimigos da liberdade sexual, dos extremistas religiosos, dos piores reacionários e daqueles que falam em nome de uma concepção substancial de bem e moralidade (vitoriana) que as mulheres são seres “separados”, crianças com rosto adulto, exigindo a proteção. Confissão pública, a incursão de promotores autoproclamados na esfera privada, que se instala como um clima de sociedade totalitária.” Bolsonaro, que acusa Maria do Rosário de “defensora de estupradores”, é o mesmo que faz da ameaça de estupro uma arma no parlamento contra deputadas como Maria do Rosário e vende castração química como uma moeda eleitoral.

O discurso de Oprah

Oprah pautou de modo contundente e emocionante o sexismo e o racismo na sociedade estadunidense ao narrar a história dos tempos das Jim Crow laws onde a segregação racial era institucionalizada e mulheres negras deveriam engolir a seco a violação de seus corpos sem acesso à Justiça pra punir seus violadores. Extrapolou a questão do assédio e da violência contra a mulher para outros espaços geográficos, raças, religiões, posições políticas, culturas e local de trabalho. Oprah dialogou diretamente com a violência sexual, especialmente onde as mulheres negras, ainda mais objetificadas e desumanizadas em sociedades com herança escravagista como a nossa são as principais vítimas.

Deneuve e as demais francesas separam a violência sexual do direito à liberdade sexual das mulheres, considerando o campo privado, demarcando aquilo que é de esfera pública e o que não pertence a ela. É como Deneuve nos dissesse: o que faço dentro de quatro paredes, minhas práticas sexuais, meu comportamento sexual, como me relaciono com meus parceiros, não é da sua conta, sou adulta e sei colocar limites. E não é mesmo, assim como não é da conta de ninguém as roupas que uso, os gestos que faço, meu vocabulário e nada disso deveria ser, em lugar nenhum do mundo, salvo conduto para homens violentarem mulheres.

Qual é de fato nosso debate público, mulheres trabalhadoras?

Nem Oprah nem Deneuve estão preocupadas com a profunda desigualdade do Capital em sua nova fase de reestruturação produtiva que aprofunda a exclusão, o sexismo e o racismo. Homens e mulheres trabalhadores, no nosso caso, de maioria negra são excluídos de todos espaços de poder, jogados para as ocupações mais inferiorizadas no mercado de trabalho. Ambas estrelas de cinema não fizeram qualquer menção ao mesmo Capital que usa e abusa das lutas pelo reconhecimento de nossas identidades e especificidades reduzindo-as a nichos de mercado. Que precifica o assédio sexual de acordo com a hierarquia empresarial, como o faz nossa reforma trabalhista onde uma copeira assediada vale menos que uma diretora assediada.

E aqui reside minha grande questão:  mesmo no campo progressista há os  que reduzem a luta dos direitos coletivos à esfera do comportamento. Peguemos um estudo de caso concreto entre nós nas redes sociais, a página Quebrando Tabu.

Quais são os temas predominantes desta página? As causas do racismo e do sexismo no mercado de trabalho? O feminicídio calcado, fundamentado e estruturado numa sociedade patriarcal como a nossa? O fundamentalismo religioso com bancada no Congresso estimulando a lgbtfobia, o controle dos corpos femininos, os direitos reprodutivos, assim como a privatização de nossas riquezas nacionais? O golpe contra nós que aprovou de uma tacada só o trabalho intermitente, inviabilizou a entrada na Justiça do Trabalho dos trabalhadores precarizados? Não. O foco da página que atrai uma legião de progressistas é o comportamento. Questões de “empoderamento das gostosas”, de Pablo Vittar na lata de Coca-Cola, da estética dos cabelos afros, do som das trans etc. Tais temas ganham a centralidade  do debate e também o interesse do mercado que lucra sempre higienizando o som do funk, embranquecendo-o, produzindo maquiagem ‘étnica’,  apropriando da luta antirracismo para vender carro como a Fiat fez com o mote “Está na hora de rever seus conceitosonde a crítica ao pensamento retrógrado e preconceituoso do racismo brasileiro vira peça publicitária pra vender carros da empresa. Nosso desafio no campo da esquerda (jovens, mulheres, negros,  população lgbt etc.) é fazer o debate do racismo, do sexismo, da lgbtfobia e de toda ideologia que nos desumaniza e nos oprime sem descolá-los da questão de classe, sem abrir mão da centralidade do trabalho. Porque são justamente a juventude negra, as mulheres negras, as trans da periferia as mais afetadas pelos ataques aos direitos trabalhistas, pela  ameaça da reforma da previdência, pelo ataque a educação e saúde públicas, pela violência institucional do Estado em todas as suas formas. É essa maioria esmagadora da classe trabalhadora as principais vítimas da aprovação da PEC 95, que congela durante vinte anos os gastos públicos e que fará mais mulheres negras morrerem com sangramentos sem atenção básica do SUS a seus abortos feitos clandestinamente. São também as mulheres negras e a juventude negra que terão pioradas as suas condições de vida e sobrevivência com a legalização da terceirização e do trabalho intermitente. Todas estas pautas estão ausentes do debate público nessas páginas que focam as questões identitárias por um viés restrito ao comportamento, ao “empowerment” importado do liberalismo estadunidense como a Quebrando o tabu.

O feminismo não prega ódio aos homens

Para encerrar, o Feminismo ao menos aquele com o qual me identifico, jamais propôs ódio aos homens. O feminismo quer igualdade de gênero, de oportunidades entre homens e mulheres; quer remuneração de igual valor para trabalho de igual valor, quer repartir o tempo da educação dos filhos, o tempo de cuidado aos idosos, às pessoas com deficiência severa e que exigem cuidados constantes, quer revolucionar uma sociedade fundada no patriarcalismo que nos inferioriza, nos desumaniza para extrair mais-valia. O feminismo que defendemos não quer reproduzir em relação aos homens  as taxas cruéis de feminicídio onde os principais algozes são namorados, maridos ou ex- de suas vítimas. Não queremos morte aos homens, queremos morte às relações de poder que nos escraviza e que também impõe aos homens um comportamento embrutecido para reafirmar sua masculinidade.