Conceição Oliveira

Blog da Maria Frô

Ativismo é por aqui

25 de Janeiro de 2018, 18h27

Os golpistas prenderão Lula. E agora?

Eu poderia começar este texto em Garanhuns onde, num “caseblex“, nasceu o maior líder popular brasileiro, numa família numerosa de irmãos, com pai ausente, mas uma mãe chamada dona Lindu. Poderia contar como esse líder ainda menino subiu num pau de arara com a mãe e alguns irmãos e foram dar nas bandas de Santos, […]

Eu poderia começar este texto em Garanhuns onde, num “caseblex“, nasceu o maior líder popular brasileiro, numa família numerosa de irmãos, com pai ausente, mas uma mãe chamada dona Lindu.

Poderia contar como esse líder ainda menino subiu num pau de arara com a mãe e alguns irmãos e foram dar nas bandas de Santos, depois São Bernardo ao encontro do pai e dos demais irmãos migrantes que na década de 1960 fugiam de mais uma leva das secas históricas do polígono das secas nordestinas.

Poderia contar de um pai violento superado por uma mãe amorosa. Poderia contar da emoção de Dona Lindu ao ver seu filho formado no Senai com o macacão cheio de graxa, o primeiro da família a fazer um curso técnico, a ter uma profissão: metalúrgico, torneiro mecânico. Poderia contar de quando ele perdeu seu dedo mindinho no torno e não tinha a saúde pública que ele ajudou a melhorar com os investimentos nos SUS para socorrê-lo. Poderia contar de como ele ficou viúvo pela primeira vez e perdeu seu filho que ainda não tinha nascido e sua mulher, uma das vítimas da mortalidade materna dos anos 1960 e 1970 da ditadura militar.

Poderia contar como ele virou um líder operário do histórico sindicato dos metalúrgicos do ABC e liderou, enchendo estádios, as maiores greves urbanas de fins das décadas de 1970 e 1980 e por isso foi preso pela ditadura militar e sua doce Lindu morreu enquanto ele estava na cadeia. Poderia contar dos tribunais que ele já enfrentou. E porque mais uma vez injustamente condenado, ele aparece sereno sobre um caminhão na Praça da República e acalma uma nação inteira com seu discurso poderoso que nos arrebata e nos anima. Mas existem muitas biografias e filmografia sobre o maior líder popular do Brasil que podem fazer isso melhor do que eu.

Poderia continuar esta história contando como ele perdeu – para o ódio e a injustiça de uma mídia e justiça perversas- sua companheira de uma vida inteira e poderia lembrá-los que essa mesma Justiça que defende apenas seus interesses corporativos e está a serviço do grande capital teve doses de crueldade inimagináveis condenando-o, sem que tivesse cometido crime algum, sem qualquer prova, à base de chantagens com os delatores que mudavam seus depoimentos sob ameaças e prêmios no mesmo dia em que um ano antes Marisa Letícia, depois de tanto desgosto, sofreu um AVC.

Poderia ficar horas escrevendo sobre a revolução silenciosa que o maior líder popular da história brasileira fez em seus 8 anos de governo e que teve continuidade com os governos Dilma: 20 novas universidades, o maior programa de habitação popular do país, o maior programa de provimento de médicos do Brasil que levou atendimento médico para 65 milhões de brasileiros que jamais tinham feito uma consulta médica na vida. Poderia falar da recuperação da Petrobras e da indústria naval, da construção de 19 novas plataformas, do pré-sal e do fundo social do Pré-Sal, da recuperação da construção de ferrovias que havia parado na época de Getúlio Vargas, da retirada do Brasil pela primeira vez em sua história do mapa da fome, que com o Bolsa Família tirou 43 milhões de brasileiros da indigência e fez as crianças do programa terem permanência na escola e vacinas em dia, pré-natal em dia, reduzindo como nunca se viu os vergonhosos índices de mortalidade e desnutrição infantis de nosso país, do início dos anos 2000, quando o neoliberalismo entrou com força e destruiu as políticas públicas com os governos de FHC.

Eu poderia falar do Brasil sediar a Copa e as Olimpíadas e de vermos obras de infra-estrutura como aeroportos, metrôs, VLT ampliarem-se nas capitais brasileiras e 93% dos turistas internacionais declararem sobre a excelente organização dos megaeventos e que retornariam ao Brasil.

Eu poderia falar de um ex-sindicalista que saiu de seu segundo mandato na presidência com 80% de aprovação contra um golpista temeroso que não tem nem 3% de aprovação, sequer dos paneleiros que ajudaram o traíra a dar o golpe.

Eu poderia falar de 10 milhões de brasileiros que nunca tiveram acesso à energia elétrica dos rincões à periferia de São Paulo e depois do Luz para Todos puderam comprar sua primeira geladeira e, finalmente, chegarem ao século XX.

Poderia falar das filas do INSS que sumiram assim como dos longos processos para a aposentadoria, e do acesso à aposentadoria para os trabalhadores rurais e das dezenas de programas como PRONAF para a agricultura familiar.

Poderia falar do Ciência sem Fronteiras onde gerações inteiras de jovens, cujos pais não chegaram nem ao ensino médio, puderam estudar no exterior, ainda na graduação.

Poderia falar dos prêmios que a Fiocruz, com aporte do Estado, ganhou por criar tecnologia para o SUS desde um capacete que resfria o cérebro para bebês prematuros às pesquisas de ponta para ampliar e melhorar o atendimento básico da saúde pública.

Poderia falar do imenso volume de recursos do BNDES que desenvolveu o agronegócio, a infraestrutura desde a transposição do São Francisco, mais de um milhão de cisternas para cada casa nordestina no polígono das secas, até os aeroportos, portos, creches, escolas, universidades, hospitais, centros de saúde da família erguidos em tão pouco tempo e que geraram 20 milhões de postos de trabalho com carteira assinada.

No campo ou na cidade, no interior ou litoral, nos pequenos municípios ou nas megalópolis não há um único brasileiro que não tenha sido beneficiado pelos governos do maior líder popular da história do país, que reconstruiu o Estado Brasileiro, que reconstruiu a economia e a soberania nacionais e que durante seu último mandato, com a economia bombando, fez a crise de 2008 passar por aqui como uma marolinha.

Lula, não é infalível, cometeu erros, mas certamente não é por eles que está sendo enforcado, esquartejado, tendo as partes do corpo espalhadas em praça pública, sua terra salgada para que não cresça nem erva daninha e seus descendentes condenados por cinco gerações. É pelos seus acertos que Lula foi tornado por ratos togados um novo Tiradentes:

O ganha- ganha dos ricos que acumularam como se não houvesse amanhã durante os governos Lula e o ganha- ganha dos pobres que pela primeira vez andaram de avião não sobreviveram a 2013. E como diz o governador do Maranhão, Flávio Dino,  governar é distribuir com lisura o que o Estado arrecada, investindo onde mais se precisa e para quem mais precisa dos recursos arrecadados. A grande disputa de poder é essa, quem fica com o maior quinhão produzido por todos os brasileiros.

E os bancos e demais corporações globais acharam pouco sugar de juros 45% de tudo que todos os brasileiros produzem. Aí essas grandes corporações que querem nosso petróleo, nosso pré-sal, nossos recursos energéticos, nossas aposentadorias públicas, nossos suor em troca de um prato de comida sem qualquer direito trabalhista, que querem destruir o meio ambiente como fizeram com Mariana sem qualquer punição, que querem nossa indústria naval, de aviões, começaram a espalhar o vírus da crise política institucional e, para isso, contaram com os ratos de pena, ratos de toga, ratos com mandato e até ratos com pastas ministeriais e cargos nos governos de coalizão.
Os ratos, como sabemos, se multiplicam e não deixam nada intacto por onde passam e espalham a peste. Os ratos adoram catástrofes. Os ratos tem uma fome do tamanho do planeta. Por onde habitam tudo roem e tudo cagam.

E é sobre a tática dos ratos que este post se dedica, para isso destaco uma fala da ativista antiglobalização Naomi Klein:

“A doutrina do choque como todas as doutrinas é uma filosofia de poder. É uma filosofia sobre como conseguir seus próprios objetivos políticos e econômicos. É uma filosofia que sustenta que a melhor maneira, a melhor oportunidade para impor as idéias radicais do livre-mercado é no período subseqüente ao de um grande choque. Esse choque poder ser uma catástrofe econômica. Pode ser um desastre natural. Pode ser um ataque terrorista. Pode ser uma guerra. Mas, a ideia é que essas crises, esses desastres, esses choques abrandam a sociedades inteiras. Deslocam-nas. Desorientam as pessoas. E abre-se uma ‘janela’ e a partir dessa janela se pode introduzir o que os economistas chamam de ‘terapia do choque econômico’.

É uma espécie de extrema cirurgia de países inteiros. E tudo de uma vez. Não se trata de um reforma aqui, outra por ali, mas sim uma mudança de caráter radical como o que vimos acontecer na Rússia nos anos noventa, o que Paul Bremer procurou impor no Iraque depois da invasão. De modo que é isso a doutrina do choque.”


Para entendermos isso, relembremos a sequência de golpes que governos democraticamente eleitos sofreram do Paraguai a Honduras ou as tentativas de desestabilização da Bolívia e Venezuela ou como orquestrado no plano Atlanta, com a a cooptação de quadros antes na coalizão do espectro progressista como no Peru, Equador e até peronistas aprovando reforma da previdência na Argentina. Assim, o golpe orquestrado pelas grandes corporações globais em toda a América Latina não trabalha em doses homeopáticas, mas sim usa e abusa da Doutrina do Choque: EC95 que congela gastos públicos por 20 anos, mas não congela 45% do orçamento sugado para os bancos e que já mata a população com a febre amarela, legalização da precarização do trabalho, assalto aos direitos trabalhistas e à previdência pública, privatização das riquezas nacionais, das terras, da tecnologia como nossa indústria naval e de aviões e completo ataque aos direitos trabalhistas, sociais, coletivos e constitucionais como o julgamento de Lula com condenação de 12 anos + 1 mês (13, o número do PT e com toda a simbologia do golpe que prende Genoino no 15 de novembro, julga Lula no aniversário de morte de Marisa Letícia….)

Os próximos passos do Terror no Estado de Exceção da ditadura togada

A prisão de Lula já é tragédia anunciada no plano da doutrina do choque posto em curso por ratos de pena, toga e mandato. Lula sabia disso desde o princípio:

“A partir de agora, se me prenderem, eu viro herói. Se me matarem, viro mártir. E se me deixarem solto, viro presidente de novo” 9/3/2016

 

E desde o princípio não se rendeu e não se renderá:

“Se quiseram matar a jararaca, não fizeram direito, pois não bateram na cabeça, bateram no rabo, porque a jararaca está viva.” 9/3/1996

Lula continuará disputando corações e mentes:

“Não baixem a cabeça, não. Não fiquem com ‘dó do Lula’. A hora não é de desistir. É de continuar a trajetória que nós construímos nesse país. Só tem um jeito de me tirar das ruas desse país… Enquanto esse coração velho bater, pode estar certo de que a luta vai continuar.” 24/01/2018

Lula, sabe que os ratos brancos “não podem prender nossas ideias“. Por isso o papel das lideranças sociais, sindicais, artistas cidadãos, comunicadores, formadores populares, acadêmicos, enfim de toda a cultura e ala progressista deste país é de grande responsabilidade. Cada um de nós tem obrigação de se agregar aos comitês populares, às frentes democráticas, de conversar com os vizinhos, parentes e amigos, de criarmos grandes formigueiros de formação e conscientização com foco na organização e mobilização popular. Nunca a comunicação e a formação foram tão estratégicas. E como Dilma nos lembrou em agosto de 2016, durante o seu julgamento organizado pelos ratos brancos senis de mandato que cassaram o voto de 54,5 milhões de brasileiras e brasileiros:

“E então, que quereis?”

“Fiz ranger as folhas de jornal

Abrindo-lhes as pálpebras piscantes.

E logo

De cada fronteira distante

Subiu um cheiro de pólvora

Perseguindo-me até em casa.

Nestes últimos vinte anos

Nada de novo há

No rugir das tempestades

Não estamos alegres,

É certo,

Mas também por que razão

Haveríamos de ficar tristes?

O mar da história

É agitado.

As ameaças

E as guerras

Havemos de atravessá-las.

Rompê-las ao meio,

Cortando-as

Como uma quilha corta

As ondas” (do russo Vladimir Maiakóvski (1893-1930)

Não há tempo para os covardes, não há tempo para a omissão, nestes tempos de retaguarda e baixíssima institucionalidade, o desafio escolheu-nos: é lutar e lutar, é mobilizar e formar legiões de brasileiros para recuperar a democracia sequestrada pelos ratos brancos.

E então, que quereis? Vamos sair do luto e vamos para luta! Lembremos do nosso poeta Ednardo:

Pavão misterioso
Pássaro formoso
No escuro dessa noite
Me ajuda, cantar
Derrama essas faíscas
Despeja esse trovão
Desmancha isso tudo, oh!
Que não é certo não

Pavão misterioso
Pássaro formoso
Um conde raivoso
Não tarda a chegar
Não temas minha donzela
Nossa sorte nessa guerra
Eles são muitos
Mas não podem voar

PS1: Releia o quadro sobre Leo Pinheiro e seus depoimentos e saiba que o TRF-4 ao mesmo tempo que aumenta a pena de Lula em regime fechado sem nenhum crime, reduz a de Leo Pinheiro para 3 anos em regime semi-aberto.

PS2. A Folha já sabia que a paródia do triplex do Lula, assim como a do sítio e toda a ficção dos vários processos contra o maior líder popular do Brasil são recontagens de histórias recorrentes de tragédias anteriores na história de golpes no Brasil. Mas só depois da tragédia se repetir como farsa, ela resolveu publicar a verdade. Talvez mostrando o mesmo enredo que hoje as instituições em Estado de Exceção usam contra Lula e usaram no passado contra JK, aqueles que ainda não compreenderam a fraude entendam. Reproduzo-o:

Poder
Nos anos 1960, um ex-presidente era investigado por causa de apartamento

PAULO CÉSAR DE ARAÚJO
ESPECIAL PARA A FOLHA
23/01/2018 20h09

Naquela manhã de domingo, o ex-presidente tomou seu café saboreando também a primeira página do jornal com pesquisa do Ibope que o colocava na liderança à Presidência da República, com 43,7% das intenções de voto.

Meses depois, a candidatura dele seria homologada, por unanimidade, por seu partido, num evento com a presença de vários artistas.
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Parecia mesmo apenas uma questão de tempo para Juscelino Kubitschek voltar a governar o Brasil.

“JK venceria se eleição fosse hoje”, dizia o “Correio da Manhã” com os números da pesquisa, em setembro de 1963.

Mas aí veio o golpe civil-militar, em março do ano seguinte, e a candidatura dele ficou seriamente ameaçada. Iria se iniciar a caçada ao ex-presidente, que na época, aos 62 anos, era senador da República.

O golpe foi realizado sob o pretexto de combater a corrupção e livrar o país dos comunistas. Num primeiro momento, os militares procuravam guardar algum sinal de legitimidade, prevalecendo aquilo que Elio Gaspari chamou de “ditadura envergonhada”.

Eleito pelo Congresso Nacional –inclusive com o voto de JK–, o primeiro general-presidente, Castelo Branco, disse que manteria as eleições presidenciais de outubro de 1965 e daria posse ao eleito. O seu governo seria de transição, prometendo fazer uma espécie de limpeza geral no país, especialmente da corrupção.

PRESIDENTE E JUIZ

“Até o problema do comunismo perde expressão diante da corrupção administrativa nos últimos anos”, afirmava o marechal Taurino de Resende, presidente da Comissão Geral de Investigação (CGI).

A este órgão cabia investigar, reunir documentos e indicar quem deveria ser cassado por corrupção ou subversão. A lista era levada ao Conselho de Segurança Nacional que podia acatar ou não a denúncia, mas o julgamento final era do presidente (e neste caso, juiz), Castelo Branco – que defendia, em discurso, não apenas punição aos malfeitores, mas também “reformas de profundidade na estrutura orgânica da administração pública” para curar “a enfermidade da corrupção no país”.

Como Getúlio Vargas já havia morrido e lideranças como João Goulart e Leonel Brizola estavam no exilio, os golpistas se voltaram contra Juscelino Kubistchek, o erigindo a símbolo do que não podia mais prosperar na política nacional.

Diziam que sempre se roubou no Brasil, porém, num nível imensamente maior a partir do governo JK –que seria culpado também pela inflação e a recessão econômica.

Com sua fúria punitiva o governo militar iniciou então uma devassa na vida do ex-presidente. Foram vasculhadas empresas e bancos nacionais, americanos e suíços na tentativa de localizar investimentos em nome dele ou de familiares.

“Não tenho um centavo em banco estrangeiro. Deveria ter para qualquer eventualidade. Mas não tenho nada, rigorosamente nada”, se defendia.

Foi também investigado quanto o ex-presidente havia recebido por viagens de conferências no exterior, na suposição de que ele não teria pago o imposto de renda.

Documentos sobre supostos atos de corrupção em seu governo eram liberados para a imprensa pela Secretaria do Conselho de Segurança Nacional. “Não havia dia em que não se verificasse algum tipo de imputação contra sua honra para justificar a punição iminente”, afirma seu biógrafo Claudio Bojunga.

TRÍPLEX EM IPANEMA

A denúncia que se tonaria mais rumorosa envolveu um novíssimo prédio de cinco andares, na avenida Vieira Souto, em Ipanema, onde JK foi morar, pouco depois de deixar a Presidência. Ele residia no segundo andar e, oficialmente, pagava aluguel ao seu amigo (e ex-ministro da Fazenda) Sebastião Paes de Almeida.

Mas, segundo a denúncia, o amigo, embora milionário, era um “laranja” do ex-presidente, usado para encobrir o real proprietário do edifício construído com dinheiro doado por empreiteiros de grandes obras no governo JK.

No processo afirmava-se que a localização, o projeto arquitetônico, a decoração do prédio, tudo teria sido feito ao gosto de Juscelino Kubistchek e de sua esposa Sarah.

Testemunhas teriam visto o ex-presidente visitando as obras; outros afirmavam que dona Sarah era quem determinava alterações nos pavimentos. Dizia-se ainda que inicialmente eles iriam morar num tríplex nos andares superior mas “quando começaram rumores sobre a propriedade do edifício, o ex-presidente abandonou a ideia do tríplex e resolveu habitar apenas no 2º pavimento”.

Outro indício estaria no nome do edifício – “Ciamar” -, interpretado como anagrama de Márcia, filha de Juscelino Kubitschek.

Esta denúncia não prosperaria na Justiça comum, sendo arquivada por falta de provas, em maio de 1968. Mas até lá, muita tinta foi gasta em reportagens sobre “o edifício de Kubitschek” –chancelando nas manchetes o que o ex-presidente negava.

E tudo isto servia de combustível para quem desejava tirá-lo da disputa à presidência em 1965, e para a qual ele abraçara o discurso das reformas sociais. “Reformas com paz e desenvolvimento”, seria o mote da campanha de JK.

NA IMPRENSA

“A Revolução estará sendo traída enquanto o rei da corrupção permanecer impune”, cobrava o deputado e repórter Amaral Neto, enfatizando “que há muito tempo esse moço já deveria estar na cadeia”.

Por sua vez, “O Estado de S. Paulo” dizia que “pelos crimes cometidos contra o erário público” durante o governo de JK com a “deslavada conivência dele” era “perfeitamente justa e merecida” a sua cassação. E o “Jornal do Commercio” sentenciava que “o sr. Kubitschek é incompatível com a nova era que se iniciou”.

Após investigações da CGI, em maio de 1964 o Conselho de Segurança Nacional opinou pela cassação de JK por corrupção e alianças com comunistas. Caberia agora, portanto, ao presidente (e juiz) Castelo Branco condená-lo ou absolvê-lo.

A partir daí o drama de Juscelino Kubitschek empolgou o país, gerando suspense no mercado e em todos os círculos políticos.

O seu partido, o PSD, sofria junto porque não tinha um plano B sem JK –que fez no Senado um discurso de repercussão, afirmando que estava sendo perseguido, não pelos seus defeitos, mas por jamais “compactuar com qualquer atentado à liberdade e agir sempre com dignidade administrativa”.

Em meio à expectativa da condenação surgiram boatos de que o ex-presidente poderia ter também sua prisão preventiva decretada –algo que o próprio Palácio do Planalto tratou de desmentir.

Porém, o suspense continuava; afinal, tratava-se do destino da maior liderança política do país após Getúlio Vargas e o líder das pesquisas eleitorais. Àquela altura, o telefone do ex-presidente já estava grampeado pelo recém-criado SNI e Castelo Branco ouviu uma das conversas em que JK se referia a ele como “filho da puta”.

DEFENSORES

Apesar do clima policialesco e repressivo, vozes saiam em defesa do ex-presidente.

“Por que, sr. general, cassar o mandato de Juscelino Kubistchek?”, indagava o jurista Sobral Pinto, e ele próprio respondia que “na impossibilidade de vencer o ex-presidente nas urnas, seus adversários querem arrancar-lhe o direito da cidadania, único expediente capaz de afastá-lo da luta eleitoral”.

Dias antes, Danton Jobim também escreveu artigo direcionado ao presidente Castelo Branco, convidando o “supremo juiz” à reflexão.

“O país não vai lembrar-se amanhã dos coronéis que instruíram o inquérito ou dos políticos odientos que instigam essa caçada humana, no qual um dos maiores brasileiros do nosso tempo é perseguido como criminoso vulgar. Mas o nome de Vossa Excelência ficará indissoluvelmente ligado à cassação do mandato de Juscelino Kubitschek”.

No último dia de maio, lia-se na coluna de Carlos Castelo Branco que a candidatura de JK se sustentava “apegada apenas a um fio de esperança”.

Uma semana depois não restaria mais nada.

A DECISÃO

Às 19h27, de segunda-feira, dia 8 de junho, o programa A voz do Brasil irradiou o decreto do marechal Castelo Branco, que cassava o mandato de JK e suspendia seus direitos políticos por dez anos.

Para alegria dos adversários, o grande favorito às eleições presidenciais de 1965 estava banido da disputa.

Carlos Lacerda –que naquela pesquisa do Ibope figurava em segundo lugar–, elogiou a decisão contra JK. Disse que foi “um ato de coragem política, de visão, embora preferisse batê-lo nas urnas”.

Seu colega udenista Edson Guimarães também afirmou que a decisão de Castelo Branco “veio na hora exata” para mostrar “que a Revolução não foi feita para manter privilégios, mas realmente para mudar o cenário da política nacional”.

A ditadura era envergonhada mas não se avexou de banir o ex-presidente com justificativas frágeis –fato destacado no editorial do “Diário Carioca”: “Sem provas de espécie alguma, absolutamente sem provas, baseando-se apenas em indícios e suposições, cortou-se sumariamente o curso de uma vida púbica dedicada desde os seus primórdios aos interesses da nação, negando-se com isso ao povo o direito de votar num de seus líderes mais representativos, dono de um passado de realizações tão importantes quando internacionalmente consagradas”.

Concluía o editorial dizendo que se JK “hoje não é mais candidato à Presidência da República, é muito mais que isto: é o símbolo vivo e fremente da vontade de um povo”.

O “Correio da Manhã” também criticou a cassação “sem provas convincentes”. No mesmo jornal, Carlos Heitor Cony desabafou: “Afinal, foi consumada a grande estupidez”, prevendo que com aquele ato o presidente Castelo Branco “selou seu destino perante a nação e perante a história: é um homem mesquinho”.

O “Correio da Manhã” e o “Diário Carioca” foram exceções entre os principais jornais do país, porque a grande imprensa, em sua quase totalidade, apoiou a cassação de Juscelino Kubitschek.

A Folha de S.Paulo, “O Estado de S. Paulo”, “O Dia”, a “Tribuna da Imprensa”, o “Jornal do Commercio”, o “Jornal do Brasil” e, principalmente, “O Globo”, com um editorial intitulado “Uma lição para o futuro”, afirmando que “as medidas excepcionais e enérgicas que estão sento tomadas pelo governo, visando à punição dos responsáveis pela corrupção” teria “o mérito maior de mostrar a todo o mundo que desta vez se realizou algo para valer”.

A Folha de S.Paulo também justificou que ao ex-presidente foi concedido “o direito de defender-se amplamente e com a máxima ressonância”.

CRÍTICAS

A condenação de JK foi destaque na mídia internacional –mas lá numa visão favorável ao criador de Brasília.

O jornal “Le Monde”, o “New York Post”, a “Time” e a “Newsweek”, por exemplo, criticaram a decisão do marechal Castelo Branco.

E o matutino El Espectador, de Bogotá, refletiu que “antes que uma garantia de paz política e social no Brasil” aquele ato seria “destinado a causar mais sérios e talvez irreparáveis traumatismos no presente e no futuro do pais”.

Juscelino Kubistchek recebeu a notícia da cassação cercado de amigos e familiares em seu apartamento, na Vieira Souto.

Dona Sarah mostrava-se muito abatida e revelou ter tomado tranquilizantes. “Isso tudo foi uma barbaridade”, desabafou.

Lá fora, uma multidão se aglomerava nas imediações do Edifício Ciamar (hoje, JK) e o tráfego ficou congestionado nas duas pistas da avenida.

Algumas senhoras choravam pelo ex-presidente, enquanto um grupo de golpistas e lacerdistas gritava “ladrão! ladrão!”. Houve então um início de briga, foram acionadas tropas da Policia Militar e algumas pessoas ficaram levemente feridas.

O tumulto só terminou quando os manifestantes anti-JK bateram em retirada pela praia de Ipanema. Por volta das 22 horas, Juscelino Kubitschek apareceu à janela abraçado com sua esposa, ocasião em que os populares deram vivas à democracia e cantaram o Hino Nacional e o Peixe vivo.

Pouco depois, com a voz embargada o ex-presidente ditou um manifesto em que afirmava: “Sei que os meus inimigos me temem porque temem a manifestação do povo, e assim, com esse ato brutal, me afastam do caminho das urnas, única manifestação válida num regime verdadeiramente democrático”.

Disse também que embora “silenciado pela tirania, restarão documentos irrefragáveis, restará a reparação que a história oferece, dignificando os que forem sacrificados pela má fé, pela incompreensão, pelo ódio”.

E ele então concluía com um vaticínio certeiro e profético. “Este ato não marcará o fim do arbítrio. O vendaval de insânias arrastará na sua violenta arrancada mesmo os meus mais rancorosos desafetos. Um por um, eles sentirão os efeitos da tirania que ajudaram a instalar no poder.”

PAULO CESAR DE ARAÚJO, historiador e jornalista, é professor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, e autor, entre outros, de “O réu e o rei – minha história com Roberto Carlos em detalhes” (Companhia das Letras)