Conceição Oliveira

Blog da Maria Frô

Ativismo é por aqui

16 de fevereiro de 2018, 17h59

Qual a política que a Beija-Flor trouxe para a Sapucaí?

Por Juliana Mittelbach É importante que o debate político volte para a avenida no Carnaval. Mangueira, Tuiuti e Beija-Flor trouxeram o debate político para ordem do dia. Mangueira enfrentou Crivella e sua política fundamentalista e criminalizadora das festas populares. Tuiuti trouxe o trabalho como centro e a longa duração da exploração da classe trabalhadora, assim […]

Por Juliana Mittelbach

É importante que o debate político volte para a avenida no Carnaval. Mangueira, Tuiuti e Beija-Flor trouxeram o debate político para ordem do dia. Mangueira enfrentou Crivella e sua política fundamentalista e criminalizadora das festas populares. Tuiuti trouxe o trabalho como centro e a longa duração da exploração da classe trabalhadora, assim como a necessidade de os trabalhadores se organizarem na defesa de seus direitos. Mas ao assistir o desfile do Grêmio Recreativo Escola de Samba Beija-Flor, (popularmente conhecida como Beija-Flor de Nilópolis, me frustrei. O samba-enredo produziu em mim bastante expectativa sobre críticas à conjuntura política nacional.

A escola trazia como tema “MONSTRO É AQUELE QUE NÃO SABE AMAR! Os Filhos Abandonados da Pátria que os Pariu.” Traçando um paralelo entre a obra de Mary Shelley “Frankenstein” com a atual situação do país, perguntando quem de fato era o monstro: a criatura de aparência repugnante, ou o criador, com seu egoísmo, seu orgulho, sua arrogância e seu coração corrompido?

Segundo a sinopse do tema elaborado pela Escola, a obra literária que completará 200 anos tem muito a nos dizer sobre as diversas mazelas que atualmente corroem a integridade moral e espiritual de uma sociedade que vive a mercê de seres humanos bestiais, que menosprezam tudo e todos, que lhes parecem inadequados e fora dos padrões estabelecidos. “Somos parte de um sistema doentio, onde uma desigualdade se alimenta do descaso, formando uma geração dominada pelo caos e vitimada pelo abandono. É a banalidade do mal, do sofrimento alheio e da própria vida humana.” (trecho da sinopse disponível em http://beija-flor.com.br/carnaval2018/#sinopse)

Corrupção Genérica

O desfile não entregou o que prometeu o samba: a performance na Marquês de Sapucaí abordou o tema com superficialidade e muita performance sensacionalista na apresentação das mazelas sociais.

A escolha deste tema foi feito por Gabriel David, filho de Anízio Abrão David, presidente de honra da escola, e conhecido pela sua forte influência política e de sua família na cidade de Nilópolis. Seu irmão Farid Abrão David é o atual prefeito da cidade, seu sobrinho, Ricardo Abraão, foi deputado estadual e Yuri Menezes, um mais novo membro da fortuna da família, seu primo, Simão Sessim, é deputado federal e um dos filhos de Simão, Sérgio Sessim, foi prefeito do município de Nilópolis entre 2008 e 2012.

A família de Anízio já se mantém no poder há bastante tempo. O outro irmão, o ex-deputado Jorge Sessim David, já falecido, também foi mandatário da cidade. O irmão de Anísio, o também falecido, Miguel Abrahão, deixou como herdeiro político o seu filho Abrahão David Neto (vereador em Nilópolis pelo segundo mandato consecutivo). É uma família ligada ao poder institucional, responsável, portanto, pela atual situação frankestein que se repete na imensa maioria dos municípios brasileiros ou Nilópolis é um paraíso pela competência da gestão pública da família de Anízio e está imune às mazelas teatralizadas pela Beija-Flor?

Em 2007, Anísio foi um dos bicheiros presos pela Polícia Federal na Operação Hurricane, acusado de ter ameaçado jurados para que dessem o título à sua escola de samba. Foi solto e no ano seguinte novamente preso durante a Operação 1357. Solto outra vez. Em dezembro de 2011, foi indiciado pela Operação Dedo de Deus. De acordo com Joaquim de Carvalho “Anísio Abraão David, presidente de honra da Beija-Flor, comprou em 2004 de Roberto Marinho o triplex de cobertura em Copacabana, onde o fundador da Globo costumava receber convidados para uma famosa festa de Reveillon. O triplex, já em nome de Anísio, acusado de explorar jogo ilegal, foi alvo em 2011 de uma operação cinematográfica da Polícia Civil, com agentes descendo de rapel de helicóptero para cumprir mandado de busca. Anísio, condenado a mais de 47 anos de prisão, está solto por decisão do STF e a escola em que ele manda se sente à vontade para denunciar a corrupção na avenida, com o incentivo e o elogio da TV da família Marinho.”

A escolha da escola de trabalhar na avenida a corrupção é livre, afinal pode-se carnavalizar tudo. Mas apontar a corrupção dos políticos (sem nunca mencionar os corruptores) como responsável pelas mazelas sociais do país me parece bastante contraditório diante deste histórico de influência/coronelismo político e contravenção. O que lhes parece, caro/a leitor/a?

Mas sigamos.

Geleia geral ao gosto do freguês

As alas e alegorias percorreram por temas como desigualdade social, violência urbana, intolerância religiosa, de gênero e raça, conflitos entre torcidas organizadas, bullying, crimes de trânsito, corrupção, sucateamento da saúde pública, policiais assassinados, feminicídio, genocídio da juventude negra, racismo, homofobia, tudo teatralizado (e não carnavalizado) numa miscelânea difícil de encadear.

Houve na passarela do samba um espetáculo sensacionalista de assuntos que nem sequer convergiam, deixando o enredo confuso e de difícil compreensão. Apresentaram a violência de forma racializada visto que nas alas quem portava a arma cenográfica eram jovens negros e as vítimas eram meninas loiras. Havia pietà chorando policial morto, uma mensagem que contraria as estatísticas, pois desconsidera que é a polícia quem mais mata a juventude negra no Brasil.

Houve Drag Queen (personagem criado por artista performático que se travestem de mulher) representando a violência de gênero. A não ser que a Escola tenha se utilizado da teoria de gênero de Butler no que se refere a performatividade e normatizações da sociedade quanto às expressões de gênero para a escolha de Pablo Vittar. Acho questionável uma pessoa com identidade de gênero masculina, mas que realiza performance drag, ser destacada para representar a violência sofrida pelo sexo feminino. O carro alegórico com Pablo Vittar de destaque misturava opressões estruturais com sentimentos pessoais. Tinha elementos como genocídio, feminicídio, racismo, intolerância e rancor.

A encenação da tragédia de Realengo, onde um jovem atira em colegas da escola (um ato de feminicídio ignorado pela Beija-Flor, já que todas as vítimas foram meninas) e a encenação da morte de um jovem que andava de skate em um túnel com via fechada ao trânsito e invadida por motoristas que praticavam “pegas” (referência à morte do filho de Ciça Guimarães), foram, no mínimo, de gosto duvidoso.

A representação da Petrobras foi outra confusão. Apresentavam um político roubando dinheiro da estatal e fugindo. Na sequência, o prédio se transformava em uma favela mostrando que a pobreza é resultado da corrupção. A mensagem sutil escondida nesta alegoria é a defesa do Estado Mínimo, da privatização das estatais como solução para o fim da corrupção e, consequente desigualdade social. O Estado mínimo é reafirmado de maneira subliminar quando é feita a crítica à carga de impostos no país. No entanto, o FGTS que financia a construção de casas populares, o PIS/COFINS que financiam a seguridade social foram todos colocados no mesmo bolo e principalmente a crítica rasa e mediana da carga de imposto, desconsiderou que quem é mais tributado no Brasil são os pobres. A parcela mais pobre da população gasta 32% de tudo o que recebe em tributos, enquanto quem está no topo da pirâmide destina apenas 21% de sua renda para pagar impostos e muito disso é simplesmente sonegado, de acordo com o relatório “A Distância que nos Une – Um Retrato das Desigualdades Brasileiras”.

Mais uma vez a Beija-Flor perdeu a chance de discutir o cerne do problema e oferecer a solução: nosso problema não é a carga de impostos, nosso problema é a distribuição entre quem paga e quem se apropria dos recursos públicos. Só os pobres neste país pagam impostos e toda proposta de reforma tributária para se taxar grandes fortunas é abortada, mas a elite que paga menos e sonega muito se apropria de grande parte dos recursos públicos pra fins privados e não faz isso com corrupção, faz isso de modo legal, porque ela faz as próprias leias que a beneficia.

Enfim, Beija-Flor fez um desfile ao estilo Jornal Nacional, criminalizando a política, reproduzindo estereótipos, misturando opressor e oprimido e responsabilizando a tudo e todos pelo caos. Qual a solução para tudo isso? Um novo projeto de sociedade? Não. O enredo era muito superficial para chegar tão longe. Nem sequer transitou pela ideia de luta de classes. Apontou que as desigualdades do Brasil são consequências da corrupção e não do capitalismo financeiro, do rentismo que sequestra o Estado e nos assalta direitos arduamente conquistados.

Mas eu prosseguia assistindo o desfile e esperando uma solução: já que a culpa são dos políticos, (mas atenção só os políticos do enredo da Lava-Jato, nada de corrupção tucana ou de Nilópolis) o esperado era que ao menos a Beija-Flor sugerisse uma reforma do sistema político, não? Ledo engano, o script da Sapucaí como apontei anteriormente deixou, inclusive, uma mensagem nas entrelinhas de defesa do Estado mínimo ao criticar a carga de impostos, sem problematizar quem mais paga e quem se apropria imoralmente do dinheiro público.

Quarenta e cinco por cento de tudo que o Estado recolhe ir parar nas mãos de banqueiros em forma de juros da dívida interna é algo justo? Moralmente defensável? Mas é legal, já que as regras do jogo não são traçadas por nós. Qual a saída, Beija-Flor, para esse caos, para tamanha desigualdade expressa na lei? A solução para a Escola de Nilópolis é o Amor.

Ame quem te retira direitos trabalhistas e te faz trabalhar por um prato de feijão com arroz, ame aqueles que querem lhe assaltar a aposentadoria, ame todos que congelaram o orçamento público por 20 anos (mas isso não vale para os recursos do Judiciário, para os juros dos bancos, só vale para políticas públicas, só vale para os mais pobres).

Para a Beija-Flor somente o amor e a valorização da cultura (entenda aqui como carnaval) impedirão que os monstros da nossa sociedade continuem surgindo, se multiplicando e ameaçando o que temos de mais autêntico. Afinal, “monstro é quem não sabe amar!” Ou seja, uma solução individual, que agrada a classe média, sem debater o real monstro que nos oprime, o rentismo, a mais-valia que produz desigualdades seculares.

Assim, a Beija-Flor não trouxe o debate político para a Sapucaí, ela despolitizou o debate com samba emocionante que arrastou a multidão pelo sentimento sem dar racionalidade aos verdadeiros problemas que nos aflige. Como a Globo fez em 2015, alimentando milhares de canarinhos com camisa da CBF tão bem retratados na ala de outra escola: a Paraíso do Tuiuti. A Beija-Flor fez a crítica social que a direita gosta: falsas causas para explicar graves consequências, solução individual quando a transformação só será possível com organização, mobilização e luta coletiva e muito sensacionalismo com grandes dose de dramaturgia da novela das 8.

*Juliana Mittelbach é enfermeira, ativista da Marcha Mundial das Mulheres e da Rede de Mulheres Negras do Paraná e CUT Paraná