Conceição Oliveira

Blog da Maria Frô

Ativismo é por aqui

11 de Abril de 2018, 10h22

Jaques Delgado: Um DNA enfermo

Há dias estava tentando refletir sobre o que acontece hoje no Brasil e confesso que me sinto em dificuldade. Busquei uma explicação e cheguei ao DNA. Só pode ser! Quando o Brasil foi fatiado em capitanias hereditárias, começou a construir uma ideia de que alguns poucos são donos de quase tudo, os mais nada possuem […]

Há dias estava tentando refletir sobre o que acontece hoje no Brasil e confesso que me sinto em dificuldade. Busquei uma explicação e cheguei ao DNA. Só pode ser!
Quando o Brasil foi fatiado em capitanias hereditárias, começou a construir uma ideia de que alguns poucos são donos de quase tudo, os mais nada possuem porque ‘não tem direito’. Simples assim.
Com a escravidão, milhões de africanos não tinham tampouco o próprio corpo, que pertencia de dia à lavoura ou aos afazeres da casa grande e, à noite, aos donos da casa, que dispunham de corpos das jovens e voluptuosas (na visão deles) negras. Simples assim.
Com o fim da escravidão, o país buscou se branquear, usou mesmo a estratégia da importação de europeus e os ex-escravos tiveram menos acesso às oportunidades de trabalho ou de estudo. História longa, detalhada, é possível encontrar se você não tiver preguiça de procurar.
Eu mesmo, branquinho da silva, nunca tive carro próprio na família, não tínhamos telefone em casa, a primeira TV a cores foi um presente de uma tia, mas sempre tivemos uma empregada doméstica. Não era um luxo, era o natural. As moças que trabalharam em casa sempre foram bem tratadas, obviamente, mas sei se em muitos outros lares não era assim.
Lembro de uma médica que conheci que me contou que a cozinheira preparava a carne para a família, mas comia ovo, afinal é preciso diferenciar uns dos outros. Lembro também que quando morei na Bahia almoçávamos todos juntos, e isso causou espanto à coleguinha de minha filha, que perguntou candidamente: ‘ela – a empregada – é italiana?’, pois Lucia comia à mesa conosco. Simples assim. Muitos crescemos em um país assim.


Apesar de ter estudado em colégio público, entrei na USP e descobri que era pobre, logo na primeira semana de aulas. Eu era ingênuo, mas notava que meus amigos que usavam roupas rasgadas – em 79 não era moda – iam de carro próprio à universidade, um presente assim que completavam dezoito aninhos. Eu ia à faculdade durante o dia e, à noite, trabalhava como professor do MOBRAL (o movimento brasileiro de alfabetização). O trabalho era geralmente na periferia de São Paulo, muitas vezes em lugares perigosos, o risco de assalto era constante.
Comecei a frequentar a casa de alguns alunos do Mobral, fiz amizades, aprendi a dançar forró e lambada e transformei um pouquinho o meu DNA.
Em 82 comecei a viajar pelo Nordeste, com pouco dinheiro e sempre de carona – de caminhão Scania, cinco dias de São Paulo a Recife. Dormia em cima da carga, olhando as estrelas. Eu, que tinha respirado preconceito em relação aos nordestinos – como é natural no sudeste brasileiro, sempre olhando com desdém aos que viajaram num pau-de-arara – comecei a ser recebido por pernambucanos, alagoanos, cearenses, baianos, pela gente linda do Rio Grande do Norte e descobri essa coisa maravilhosa chamada hospitalidade, coração aberto, disponibilidade ao encontro. Fiz amigos para sempre, ri muito, amei muito, alterei ainda mais meu DNA.
Continuei viajando, continuei trabalhando, me formei, passei a dar aulas na faculdade, trabalhei em cursinho e consultório, atravessei um oceano e cheguei à Itália. Publiquei um livro sobre a Reforma Psiquiátrica Italiana e voltei ao Brasil para divulgar uma ideia.
Dois anos viajando, encontrando gente, aprendendo, ensinando. Os loucos de manicômio eram quase todos pobres, excluídos, sem quaisquer direitos, a lata de lixo da história. De volta à Itália, iniciei uma nova jornada, comecei a trabalhar com o corpo e, depois de sete anos de desemprego, as ocasiões apareceram, para que eu pudesse ensinar pelo mundo.
Até hoje trabalhei em 18 países, aprendi algumas línguas, dormi em hotéis de três mil reais por noite, mas também dormi em estações de trem. Aprendi que ‘a vida vem em ondas’, por isso não vale a pena se apegar a nada, nem à riqueza, nem à pobreza, nem à dor, nem à euforia. Tudo é passageiro. Simples assim.
Quando tento dar minha opinião sobre o que acontece no Brasil, uma pessoa querida do meu campo de afeto, que amo, me diz ‘você mora fora, então não sabe o que se passa aqui’. É a mesma pessoa que assiste Globo News, programa conduzido por Lucas Mendes, de Nova Iorque, e por aquele Mainardi, de Veneza. Tento entender, mas fica difícil.
Outro dia publiquei números referentes à economia no Brasil antes e depois de Lula. Uma pessoa querida comentou que eram apenas números. Novamente me faltaram palavras. Por isso apelei ao DNA! Na minha modestíssima opinião, muitos brasileiros estão contaminados por um vírus que atingiu seu sistema nervoso, e que provoca alteração da percepção de realidade, confusão mental e extrema agressividade.
A vesícula biliar também sofre, gerando explosões de produção de bílis e ataques de histeria. O quadro é tão grave que compromete totalmente a faculdade da coerência.
É inacreditável, mas muitos desses brasileiros gritam que são contra a corrupção usando camisetas da CBF – uma das entidades mais corruptas da recente história brasileira.
Percebo em muitas delas uma aversão aos pobres, um desprezo herdado das oligarquias. Têm dificuldade para reconhecer o valor do trabalho e muitos, de origem humilde, acreditam ser ricos e se identificam completamente, em termos de valores, com os antigos donos das capitanias hereditárias. Falta um espelho honesto a toda essa gente.
O Brasil, daqui a um tempo, vai olhar para trás com tristeza. Alguns já o fizeram, e ficaram mudos de vergonha.
Nunca como hoje é necessário ter coragem de escolher o lado certo da historia. O lado da universidade pública, o lado do SUS, o lado do pré-sal destinado à saúde e à educação, o lado que tenta reparar séculos de escravidão com a política de inclusão e de cotas. O lado que sabe que os direitos trabalhistas não são um privilégio, o lado que tem consciência que sem distribuição de renda o Brasil será cada vez mais um território de faroeste, onde poucos estarão seguros em condomínios de luxo, muitos serão ‘eliminados’ sem piedade, tantos arriscarão a vida para trabalhar ou estudar. São pessoas que enchem a boca quando vêm à Europa, mas não percebem que aqui a distribuição de renda é a regra, e que a servidão não faz parte do cotidiano.
O Brasil caminha para ser um país no qual as mulheres continuarão a ser ‘corpos para o deleite’, um país no qual gays podem ser torturados e assassinados.
Um país sem empatia, sem noção de justiça social, um país destroçado.
Um país que festeja a prisão do maior presidente que já teve. Um presidente que ousou pensar naqueles em que ‘ninguém’ pensa.
Você ainda tem chance de escolher e construir um país melhor, mas se não o fizer não se esconda daqui há alguns anos, atrás de desculpas esfarrapadas.
O golpe de Estado é um ataque à democracia e uma defesa à população dos privilegiados – muitos dos quais com aquele vírus que falei há pouco.
Lula na cadeia, fruto de um processo todo fraudado, com mais buracos que um queijo suíço, nas mãos de juízes a serviço do imperialismo dos EUA, que recebem privilégios desde sempre e que acreditam que existe um país para ricos e outro para pobres, é algo que envergonha o país diante da comunidade internacional.
Ainda dá tempo de escolher o lado.

Jaques Delgado, brasileiro, vive na Itália. Depois de formado em Psicologia pela USP, iniciou sua atividade como psicoterapeuta. E autor do livro A loucura na sala de jantar, São Paulo: Resenha, 1991.