Conceição Oliveira

Blog da Maria Frô

Ativismo é por aqui

04 de junho de 2018, 12h00

Alexandre Padilha e Thassia Alves vencem a mentira: Veja é condenada por fake news de 2015

"A matéria mentirosa teve grande impacto no hospital, algumas pessoas relataram-me que quando me conheceram ficaram apreensivas sobre quem eu era, como eu iria me comportar", diz Thassia, que ficou 28 dias com a filha na UTI do hospital municipal de Vila Nova Cachoeirinha, zona Norte de São Paulo

Em 12 de fevereiro de 2015, o Brasil vivenciou um show de horror protagonizado por médicos sem ética e um jornalismo que há tempos não sabe o que significa fazer jornalismo, rememore o caso neste post: Faltou ética jornalística e sobram boatos sobre o nascimento da filha de Alexandre Padilha 

À época, o casal Alexandre Padilha e Thassia Alves vivia momentos de grande alegria, apesar da tensão devido ao nascimento prematuro de sua filha Melissa, que ficou na UTI do hospital e maternidade municipal de Vila Nova Cachoeirinha durante 28 dias. Durante sua gravidez, Thassia foi diagnosticada com pré-eclâmpsia, doença campeã de óbitos de gestantes no Brasil. Sua gestação teve de ser interrompida porque mãe e bebê corriam riscos, por isso Melissa nasceu prematura. Como se não bastasse tudo isso, o colunista da Veja, Felipe Moura Brasil (hoje na equipe do Antagonista),  publicou uma “matéria” dizendo que seu parto havia sido uma “farsa no SUS”.

Três anos depois, o casal ganhou o processo contra a revista Veja, que condenou Felipe Moura Brasil e a revista por danos morais. Na última sexta-feira (01/06) o diário de Justiça publicou a decisão:

Fóruns Regionais e Distritais XI – Pinheiros Cível 2ª Vara Cível

Processo 1000017-93.2017.8.26.0011 – Procedimento Comum – Indenização por Dano Moral – Alexandre Rocha Santos Padilha e outros – ABRIL COMUNICAÇÕES S.A – – Felipe Moura Brasil – Ante ao exposto, JULGO PROCEDENTE a presente demanda, e julgo extinto o feito, com fulcro no art. 487, inciso I, do Código de Processo Civil, para condenar os réus, solidariamente, ao pagamento de indenização por dano moral ao autor no valor de R$ 10.000,00, atualizado pela Tabela Prática para Cálculo de Atualização Monetária dos Débitos Judiciais do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo desde a propositura da ação, com juros de mora de 1% ao mês desde a citação. Em face da sucumbência dos réus, condeno-os ao pagamento de custas e despesas processuais, bem como honorários advocatícios que fixo em 15% do valor da condenação. P.R.I. – ADV: ALEXANDRE FIDALGO (OAB 172650/SP), JOÃO VICENTE AUGUSTO NEVES (OAB 288586/SP)

Hoje pela manhã pedi a Thassia que rememorasse  aquele mês de fevereiro de 2015:

“Eu acho que nenhuma mulher quando dá à luz a uma criança está preparada para voltar para a casa sem o seu bebê nos braços. Eu ainda não tinha me recuperado do fato de ter de deixar meu bebê na UTI quando saiu a matéria da Veja. Fiquei um dia internada na UTI, mais dois internada fora da UTI e passei 28 dias indo diariamente ao hospital e essa matéria obviamente teve uma repercussão dentro e fora do hospital. Foi difícil lidar com a angústia de ver minha filha 28 dias na UTI e ter ainda de lidar com essa mentira propagada pelo colunista da Veja.

Depois dos 28 dias de internação de minha filha, fui me despedir dos profissionais do Vila Nova Cachoeirinha que estavam no dia a dia conosco, porque eu morava praticamente no hospital, só não dormia porque não podia. A matéria mentirosa teve grande impacto no hospital, algumas pessoas relataram-me que quando me conheceram ficaram apreensivas sobre quem eu era, como eu iria me comportar… Com o passar do tempo viram que eu era uma mãe como qualquer outra, com as mesmas inseguranças, receios, com o desejo de estar perto de minha filha. Perceberam que eu não era diferente. Mel era prematura não tinha força para sugar o leite, então eu tinha de ir no banco de leite tirar meu leite. Eu fazia o que todas as mães fazem: pegava fila no banco de leite, enfim tudo como pais e mães agem quando seus filhos estão filhos internados.”

Perguntei por que demoraram para processar a Veja e Thassia confessa que no momento em que a matéria saiu sua vontade era de entrar com um processo no dia seguinte, mas a saúde de sua filha prematura era a prioridade do casal: “Para mim, estarmos vivas e reagindo era o que me dava força para seguir em frente, para ir à UTI neonatal com os pontos recém feitos, para tentar esquecer os tubos e fios ligados à ela, para agradecer ao invés de lamentar pelo parto normal que sonhei e não tive, pela vontade de segurar no colo e não poder, pelo desejo de amamentar e ainda não ter leite porque, afinal, minha gravidez foi interrompida.”  Tempos depois, Padilha se tornou Secretário de Saúde do município de São Paulo na gestão Haddad e para o casal era importante que o processo contra Veja não suscitasse qualquer tipo de dúvidas, além do que ele efetivamente era: a busca pela verdade. Assim, só entraram na Justiça após o final da gestão petista na cidade. O processo correu sob sigilo por envolver uma criança.

Em seu depoimento, a mãe de Melissa relata os impactos que a matéria mentirosa da Veja tem até hoje:

“Ainda hoje, essa mentira vem à tona. Já aconteceu de estar conversando sobre parto com pessoas que tinha acabado de conhecer e elas citarem essa matéria da Veja. Não é brincadeira lidar com uma mentira que ganhou essa proporção, especialmente quando emocionalmente eu estava em situação de extrema vulnerabilidade.”

Ela argumenta ainda que os efeitos da mentira da Veja teve muita repercussão em sua vida privada, mas no caso de seu companheiro, Alexandre Padilha, o impacto atingiu sua trajetória como homem público:  “É importante reconhecer, há um dano que é imensurável em tempos em que a imagem dos políticos está tão deteriorada. Alexandre faz uma opção para sua vida pessoal que é coerente com aquilo que ele defende publicamente. Ele não faz nenhum uso dos privilégios. Isso tem um significado diverso daqueles que agem privadamente de modo contrário ao que pregam publicamente e a Veja acusou Alexandre disso: de não agir conforme o que ele defende publicamente. O que é uma mentira!”

Apesar da decisão favorável ao casal, a Justiça não obrigou a Veja a oferecer o mesmo espaço e a mesma divulgação para a resposta à matéria mentirosa que a revista circulou em fevereiro de 2015 e que continua em seu site. A Veja ainda pode recorrer da decisão. Pergunto a Thassia o que ela sentiu quando saiu a decisão judicial:

“A gente sabe que a mentira só pode ser combatida com a verdade. O que sinto hoje é um grande alívio, uma sensação de justiça, de que a verdade ganhou e isso é muito bacana de sentir, especialmente em tempos tão sombrios que estamos vivendo. Apesar disso a gente sabe que não tem reparação de danos. Não haverá reparação de danos suficientes que nos coloque em pé de igualdade em que estávamos antes da matéria mentirosa ser publicada.

Sabemos que não terá a mesma repercussão, infelizmente a verdade não vai chegar para todas as pessoas. Não haverá reparação de danos completa, o que pode haver é a sensação que a verdade ganhou para nós, isso é importante, mas do meu ponto de vista não tem reparação dos danos como os olhares que enfrentei no hospital depois que essa matéria foi publicada, não tem reparação de danos quando anos depois entro em contato com as pessoas que leram essa matéria na creche da minha filha, no meu local de trabalho, na rua, não tem reparação. Isso é uma coisa que tem de ser dita.

Eu acho que todo mundo tem de combater a mentira, a gente tem de estar sempre em busca da verdade. Não podemos desistir. Fui aconselhada a não entrar com o processo por conta do tamanho da Veja e tudo que ela representa, mas eu disse para todas as pessoas: tenho de fazer isso pela minha filha, tenho de contar essa história para ela um dia, do início ao fim, e eu vou fazer isso! Thassia se emociona e prossegue: Foi por nós, mas foi especialmente por ela, porque quando eu decidi que ia fazer o pré natal e fazer o meu parto no SUS foi uma decisão que pra mim era muito óbvia, porque eu não teria como fazer de outra forma, seria muito incoerente com o que defendemos se eu fosse para um hospital privado. Não só por causa da figura pública do Alexandre que é meu companheiro, mas seria incoerente com a minha própria história e da minha filha. Não poderia ser diferente. Eu sei que o SUS não é perfeito. Ele possui desafios, mas também avanços. Não devemos negar nem um nem outro. Fato é que eu e minha filha fomos salvas no SUS. Eu não posso reduzir a importância disso em minha vida. E sim, nossas vidas foram salvas em uma estrutura do SUS real e por profissionais de verdade. É desta verdade que o processo que vencemos trata.