Conceição Oliveira

Blog da Maria Frô

Ativismo é por aqui

21 de agosto de 2018, 11h52

João Feres e Natasha Bachini analisam a rede de presidenciáveis

Rede de Presidenciáveis Por Natasha Bachini e João Feres Júnior in Manchetômetro As mídias sociais têm se tornado um segmento cada vez mais importante das campanhas eleitorais, dada a sua crescente incorporação ao cotidiano dos cidadãos. Ao menos desde 2010, observamos no Brasil a profissionalização da gestão desses espaços. Mais do que meras extensões de […]

Rede de Presidenciáveis

Por Natasha Bachini e João Feres Júnior in Manchetômetro

As mídias sociais têm se tornado um segmento cada vez mais importante das campanhas eleitorais, dada a sua crescente incorporação ao cotidiano dos cidadãos. Ao menos desde 2010, observamos no Brasil a profissionalização da gestão desses espaços. Mais do que meras extensões de outros veículos de propaganda eleitoral, essas mídias facilitam aos eleitores a interação com os candidatos e suas propostas, assim como deixam esses últimos mais vulneráveis a críticas e a conteúdos negativos, exigindo monitoramento e atuação contínua das equipes de marketing político.

O Facebook se destaca neste contexto. Ao acumular a maior quantidade de usuários dentre as mídias sociais, a plataforma se apresenta enquanto um importante espaço para a construção da imagem política e conquista do eleitor. O caso de sucesso mais recente nesse sentido foi a campanha personalizada realizada pela equipe de Donald Trump, em 2016, fundamental a sua vitória nas urnas. Entretanto, logo os meios para a promoção desse tipo de campanha personalizada passaram a ser questionados a partir da eclosão do escândalo Cambridge Analytica, empresa acusada de ter coletado informações privadas dos usuários por meio do aplicativo This Is Your Digital Life com a complacência do próprio Facebook. A partir do cruzamento dos dados privados obtidos na rede com aqueles obtidos por meio da aplicação de um questionário sobre orientação política, a empresa definiu perfis de eleitores e lhes direcionou mensagens de acordo com suas propensões, inclusive fake news contra sua adversária Hillary Clinton. A Cambridge Analytica, empresa que tem como um dos maiores investidores o bilionário Robert Mercer, também está por trás das campanha bem-sucedida do Brexit no Reino Unido.

O escândalo levou à convocação de Mark Zuckerberg, executivo-chefe do Facebook, a prestar esclarecimentos frente a Comitês do Senado e da Câmara dos Deputados estadunidenses em abril de 2018.[1] Em um esforço de fazer um controle de danos, a rede social mais popular do mundo, inclusive do Brasil, implementou novas políticas de segurança, alterando os algoritmos de visibilidade, criando um programa de combate as fake news na rede e dificultando o acesso aos dados de seus usuários, inclusive por parte de pesquisadores e analistas de mercado.

Aqui no Brasil essas questões tramitaram no Congresso Nacional e foram integradas a uma nova reforma eleitoral (Lei Nº.13.488/2017) que regularizou, entre outras coisas, a propaganda paga na internet, que ficou restrita agora ao impulsionamento de conteúdo, e vetou os chamados perfis fake e as campanhas desconstrutivas, cabendo à Justiça Eleitoral determinar, por solicitação do ofendido, a retirada de publicações que contenham agressões ou ataques aos candidatos na internet.

A partir do monitoramento realizado pelo M Facebook, boletim de análise semanal publicado pelo Manchetômetro, observamos que os candidatos desse pleito e seus grupos de apoio encontram-se em campanha digital desde o ano passado. As páginas de alguns presidenciáveis como Lula (PT) e Bolsonaro (PSL) figuram frequentemente no ranking dos posts mais compartilhados da semana, assim como algumas páginas dos movimentos da nova direita, dentre os quais destacam-se as atuações do Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem Pra Rua Brasil. Todavia, o comportamento dos grupos ligados a Bolsonaro e ao MBL foi considerado inadequado pelo Facebook, que suspendeu suas páginas em diferentes momentos nos últimos três meses. A empresa não se manifestou publicamente sobre o caso das páginas relacionadas a Bolsonaro. No que concerne àquelas vinculadas ao MBL, o Facebook alegou que foram suspensas após minuciosa investigação, cuja conclusão foi que configuravam uma “rede de desinformação”.

Tendo em vista todos esses acontecimentos e a proximidade da data de homologação das candidaturas, e portanto, do período oficial de campanha, decidimos realizar um exercício diferente daquele realizado no M Facebook, que é o ranqueamento dos posts mais compartilhados na semana: mapear as redes dos pré-candidatos à Presidência da República com o objetivo de verificar as relações entre os atores e grupos políticos. Por meio do aplicativo Netvizz e do comando pagelikenetwork, coletamos as redes das páginas com um grau de separação, que incluem cada página em si e as páginas curtidas por cada página).

Embora saibamos que há páginas e perfis que curtem todos aqueles do seu circuito de interesse, de modo a monitorar as atividades dos seus pares, entendemos que, em geral, o fato de uma página curtir outra sinaliza algum tipo de convergência entre elas, e que no âmbito político, isso pode significar afinidade ideológica e probabilidade de aliança entre os grupos (Alves e Quesada, 2016).

No fim de junho de 2018, coletamos os dados das páginas dos então 24 presidenciáveis e em seguida os tratamos no software Gephi. Obtivemos uma rede com 1.033 nós e 5.252 arestas. Aplicamos a distribuição ForceAtlas2, o comando gravidade mais forte e geramos suas estatísticas. O grau médio da rede obtida é 5,04, seu diâmetro é 12, a densidade do grafo é 0,005 e sua modularidade é 0,754. Isso significa que os nós da rede, em geral, estão pouco conectados entre si, apresentando uma média de 5 conexões cada, e que a rede é composta por cerca de 7 grandes clusters. A maior distância entre um par de nós na rede é de 12 nós.

Com base em outros estudos do campo e considerando a natureza dos dados, decidimos observar esta rede egocentrada ranqueando os seus nós a partir de quatro métricas: grau de entrada (indegree), grau de intermediação (betweness centrality), PageRank e número de fãs, além de diferenciar seus clusters (grupos) por meio do comando modularity class. Vejamos os resultados abaixo.

Imagem 1: Rede dos presidenciáveis definida a partir do grau de entrada das páginas

Fonte: Elaboração própria, 2018.

Na Imagem 1 observamos a existência de sete grandes clusters (grupos) na rede. Em verde claro, temos a rede liderada pelo MDB, que guarda certa distância das demais redes, conectando-se por poucas páginas à rede de Bolsonaro (em cinza), à rede dos articulistas de direita (em rosa claro), as páginas da grande imprensa (entre os clusters rosa e roxo), e à rede do PSDB (em azul). Cabe destacar que intermedeiam as conexões entre a rede de Bolsonaro e as páginas da grande imprensa a rede composta pelos articulistas de direita, como Olavo de Carvalho e Reinaldo Azevedo, e dos movimentos da nova direita, como MBL e Vem Pra Rua. A rede do PSDB apresenta maior número de conexões com a rede do Podemos (em roxo), liderada por Álvaro Dias do PODE, com a rede do Democratas (em outro tom de verde) à direita, e com rede da grande imprensa também. Ao lado da rede do DEM, temos uma pequena rede que pouco se conecta a essa última, composta por movimentos sociais da esquerda radical e sindicatos (em cinza claro). Abaixo temos a rede em cinza escuro, do PT, que se articula às páginas de midialivrismo, como a Mídia Ninja. À sua esquerda, temos a rede de Marina Silva da REDE, (laranja), e entre as duas, a rede liderada por Cristóvam Buarque do PPS (rosa escuro).

Os nomes que se destacam no grafo são aqueles mais curtidos entre as páginas dessa rede, ou seja, as mais populares dentre esses atores, de modo que seus posts tendem a ser mais visualizados pelos outros políticos.
Cabe ainda mencionar as posições dos outros presidenciáveis, não evidentes no grafo. As páginas de Levy Fidelix (PRTB), João Vicente Goulart (PPS), Ciro Gomes (PDT), Paulo Rabello (PSC) e Henrique Meirelles (MDB) estão localizadas entre as redes de Álvaro Dias e do DEM. A página de João Amoêdo (NOVO) encontra-se entre a rede do MDB e da Nova Direita. A página de Vera Lúcia (PSTU) se posiciona entre as redes do DEM e a de Cristóvam Buarque. A página do Cabo Daciolo entre a rede de Vera e de Cristóvam. Já a página de Aldo Rebelo (Solidariedade) localiza-se entre os grupos do PT e de Cristóvam Buarque, e a de Guilherme Boulos (PSOL) entre as redes do PT e de Marina Silva. Em suma, tais localizações no grafo são bastante coerentes com o que sabemos o posicionamento ideológico usual desses atores políticos, algo que empresta confiabilidade à representação gráfica aqui analisada.

Imagem 2: Rede dos presidenciáveis definida a partir do grau de intermediação das páginas

Fonte: Elaboração própria, 2018.

Na Imagem 2, temos o desenho da rede a partir da métrica grau de intermediação. Esta indica quantas vezes um nó se encontra entre outros grupos de nós, demonstrando a “influência que um determinado nó tem no espalhamento de informação na rede” (Newmann, 2003). Nesse quesito, observamos que possuem maior potencialidade de realizar a ponte entre os grupos, pois se conectam a um maior número de nós as páginas, em ordem decrescente: Álvaro Dias, Senado Feral, Marina Silva, José Serra (PSDB), Eduardo Suplicy (PT), Aécio Neves (PSDB), Dilma (PT), FHC (PSDB), Michel Temer (MDB) e Lula.

Imagem 3: Rede dos presidenciáveis definida a partir de PageRank

Fonte: Elaboração própria, 2018.

PageRank é uma métrica que indica também a influência de um nó na rede, mas a partir de outro parâmetro, a qualidade de suas conexões, ou seja, a quantos nós influentes um nó está conectado (Recuero, 2014). Traduzindo para o ambiente do Facebook, uma página com alto PageRank tem mais chance de seus posts chegarem até um usuário aleatório, que siga links. Nessa métrica, observamos que se destacam as páginas dos candidatos dos partidos que protagonizaram a disputa presidencial nos últimos 24 anos: Geraldo Alckmin (PSDB) e Lula (PT). Apresentam ainda bom desempenho na métrica as páginas do PSDB, de Dilma Rousseff, de O Globo, do Estadão e do colunista Ancelmo Góis.

Imagem 4: Rede dos presidenciáveis definida a partir do número de fãs

Fonte: Elaboração própria, 2018.

Quando analisamos o grafo a partir do número de fãs de cada página, sobressaem a grande imprensa, humoristas, celebridadades e páginas de mídia alternativa. As páginas de mídias sociais, como Instagram e o próprio Facebook, e de Barack Obama, foram excluídas, pois destoavam muito nesse quesito, o que impedia de visualizar os atores brasileiros. Dentre os presidenciáveis, Bolsonaro acumula o maior número de fãs.

Considerações Finais

Ao analisar a rede dos presidenciáveis, observamos que os partidos com as maiores estruturas (MDB, PT e PSDB) possuem redes mais amplas, do mesmo modo que os políticos tradicionais se apresentam como mais influentes no meio político. Já quando olhamos para a capacidade de intermediação, destacam-se as páginas de Álvaro Dias e do Senado Federal, que acompanham se conectam a diversos atores.
Entretanto, quando avaliamos a popularidade das páginas no Facebook como um todo, despontam as páginas de mídia, celebridades e do estreante na disputa presidencial, Jair Bolsonaro. Seriam muito interessante desenhar a rede com os perfis que curtem cada página, para identificar as tendências ideológicas do eleitorado, mas infelizmente a API do Facebook não nos permite realizar essa coleta. Portanto nossa alternativa para mapear esses humores é a partir da análise do conteúdo dos posts mais compartilhados.

Pretendemos atualizar essa rede ao final de cada mês com o objetivo de observar a reconfiguração até a data das eleições.

Vejamos se as mudanças na API do Facebook permitirão que continuemos esse exercício analítico.

Referências Bibliográficas:
RECUERO, Raquel. Contribuições da Análise de Redes Sociais para o estudo das redes sociais na Internet: o caso da hashtag #Tamojuntodilma e #CalaabocaDilma. (2014) revista Fronteiras – estudos midiáticos 16(2): 60-77 maio/agosto 2014.
NEWMANN, M.E.J. 2003. The structure and function of complex networks. In: SIAM Review 45, 167-256.
RIEDER, Bernhard. Studying Facebook via Data Extraction: The Netvizz Application. WebSci’13, May 2–4, 2013, Paris, France.
SANTOS, Marcelo Alves e TAVARES, Camila. Análise de redes sociais aplicada à comunicação política: uma proposta metodológica. Trabalho apresentado no ST16 “Métodos e técnicas de pesquisa em Ciências Sociais”, e publicado nos Anais do 40º. Encontro Anual da ANPOCS, Caxambu-MG, 2016.

[1] https://www.youtube.com/watch?v=CMZTbMFK5eA