Conceição Oliveira

Blog da Maria Frô

Ativismo é por aqui

31 de agosto de 2018, 12h05

UMA DISCUSSÃO ELEITORAL ESQUECIDA: O BRASIL EM UM MUNDO DIGITAL

Anna Carvalhido, TIC da Prospectiva Com a chegada das eleições presidenciais, volta ao centro do debate nacional a discussão em torno do projeto de país idealizado pelos candidatos. Nesse contexto, os setores econômicos mais tradicionais acabam por ganhar destaque, seja pela sua forte participação econômica – o agronegócio responde por cerca de 25% do PIB, seja […]

Anna Carvalhido, TIC da Prospectiva

Com a chegada das eleições presidenciais, volta ao centro do debate nacional a discussão em torno do projeto de país idealizado pelos candidatos. Nesse contexto, os setores econômicos mais tradicionais acabam por ganhar destaque, seja pela sua forte participação econômica – o agronegócio responde por cerca de 25% do PIB, seja pela sua grande capacidade de organização política.

Na seara econômica, se por um lado temos a pujança do agronegócio, temos, por outro, uma queda sistemática da importância da manufatura na indústria de transformação brasileira, que em 2017 respondia por míseros 11,8% do PIB, nível menor do que aquele verificado em 1956, de 13,4% (dados do IBGE).

Tal fenômeno também tem sido observado globalmente. Os diferentes países têm tido respostas distintas para internalizar a nova força do setor de serviços e da economia digital. Estudos apontam que a economia digital pode levar a um incremento da produtividade de um país – algo de que carecemos, e muito. Para isso, a saída construída internacionalmente não tem sido necessariamente a do incentivo à produção de bens tangíveis em território nacional, mas a sua contraparte pós-moderna: a definição de marcos e diretrizes estratégicas que fomentem a onda de bens e serviços digitais.

Para citar alguns exemplos de negócios e novas tecnologias, podemos mencionar: o crescimento de tecnologias como inteligência artificial, blockchain, a internet das coisas (IOT),  o uso da biometria em larga escala, a maior automação da indústria (indústria 4.0), os aplicativos de marketplace (Uber, Cabify, iFood), as fintechs (Nubank), o comércio eletrônico, os serviços de computação em nuvem e outras.

Nesse novo contexto, há que se pensar em como e com quais ferramentas o Brasil irá se posicionar no cenário global. Internacionalmente, já observamos alguns exemplos de países que consideraram a economia digital um setor estratégico. É o caso da China, que hoje é a responsável por 1/3 de todos os “unicórnios” no mundo (startups com valor de mercado igual ou superior a 1 bilhão de dólares) e por uma série de políticas estruturadas para o fomento dessas novas tecnologias.

No Brasil, esse debate infelizmente ainda é incipiente e não é visto como um diferencial pelas equipes que pretendem compor o novo governo.

 

·         O volume de negócios digitais gerou USD 195 bilhões de dólares entre 2005 e 2013 na região (4,3% do crescimento acumulado do PIB regional);

·         Foram criados 900 mil postos de trabalho novos, entre 2005-2013;

·         Entre 2006 e 2013, a América Latina dobrou o seu número de usuários de internet;

·         47% da população da região acessa à internet;

·         O diagnóstico de que o desenvolvimento da economia digital pode trazer impactos diretos (crescimento e postos de emprego) e indiretos (incremento na produtividade de todos os setores).

Fonte: Estudo do banco CAF (Corporação Andina de Fomento)

 

Para além das barreiras estruturais tradicionalmente mencionadas no debate público, também nos deparamos com alguns desafios de ordem política:

Pressão política relativamente reduzida pelo avanço da agenda nos espaços tradicionais de poder (Congresso nacional e Poder executivo)

Enquanto setores mais tradicionais contam com farta representatividade no poder legislativo e têm um modo sistemático de atuação, o setor de tecnologia não pode se vangloriar do mesmo: existem frentes parlamentares e associações empresarias atuantes, mas são esforços descentralizados que acabam por não criar o empuxo decisório necessário para alavancar essa agenda.

Ausência de uma liderança política

Historicamente, não tivemos uma figura de grande apelo político que tenha optado por liderar essa discussão – carece de um sponsor, ou “padrinho”, que abrace a causa.

Dispersão de políticas públicas;

Não há, hoje, um ministério ou agência que tenha o mandato institucional que lhe permita a construção de uma agenda estratégica de longo prazo e que centralize iniciativas pontuais lideradas por distintos órgãos da administração pública, levando a ineficiências.

O Brasil precisa de uma agenda estratégica que o alce a uma nova e estratégica posição frente às cadeias globais de valor. Há, no entanto, o risco de ficarmos para trás nessa corrida mundial.