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15 de Maio de 2013, 15h54

Marina Silva – de mulher negra seringueira ao conservadorismo das elites

Tenho postado aqui na coluna Quilombo não só artigos de denúncia do racismo – até porque muitas informações já são mais que conhecidas pela grande maioria da sociedade e só não vê o racismo no Brasil quem é cego ou finge não enxergar – mas principalmente críticas a determinadas personalidades afrodescendentes que ascenderam a determinados […]

Tenho postado aqui na coluna Quilombo não só artigos de denúncia do racismo – até porque muitas informações já são mais que conhecidas pela grande maioria da sociedade e só não vê o racismo no Brasil quem é cego ou finge não enxergar – mas principalmente críticas a determinadas personalidades afrodescendentes que ascenderam a determinados cargos e, por conveniências ou opções, mudaram o seu discurso.

Quando faço estas afirmações em hipótese alguma estou questionando o mérito destas personalidades ou desejando que elas – e todos nós – fiquemos sempre no andar de baixo. Inclusive porque muitas destas personalidades afrodescendentes, quando deixam de interessar ao sistema, são simplesmente descartadas e todos os mecanismos de opressão racial atuam para colocá-las no ostracismo. Cito um caso de um político negro conservador – Celso Pitta- que foi prefeito da maior cidade do país, apoiado pela direita malufista paulistana e talvez seja um dos raríssimos casos de “político corrupto” que morreu na miséria. E um dos principais artífices da chamada “Máfia dos Fiscais”, escândalo que atingiu o governo Pitta, simplesmente é hoje o dirigente de um partido conservador que faz parte da base do governo: o ex-prefeito Gilberto Kassab, que foi secretário das subprefeituras durante o escândalo dos fiscais na gestão Pitta.

Nos anos 1990, quando eu ainda militava em uma organização do movimento negro, uma das nossas ações era dar um corte racial no mandato de um vereador negro de esquerda em São Paulo, o ex-dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, Eustáquio Vital Nolasco. Naquela época, teve grande contribuição neste corte racial o seu assessor de gabinete, o jornalista Juarez Tadeu de Paula Xavier, hoje professor da Unesp/Bauru, e naquela época, dirigente desta organização que ajudou a fundar em São Paulo nos anos 1990. Uma das primeiras ações do gabinete do vereador Vital Nolasco foi conceder o titulo de cidadão paulistano a tres personalidades importantes da luta antiracista: o ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela, que esteve em visita ao país logo após os acordos que puseram fim ao regime do apartheid; e as primeiras mulheres senadoras negras, eleitas pelo PT, Benedita da Silva e Marina Silva.

Marina Silva representava, no imaginário popular, a tenacidade e a luta contra a opressão de classe, gênero e etnia. Seringueira, lembrou, na ocasião do recebimento da comenda na Câmara Municipal de São Paulo, da luta de Chico Mendes em defesa dos direitos dos povos da Floresta. Falou das dificuldades de uma mulher negra se colocar como sujeito ativo no processo político, enfrentando o machismo e o racismo. E se apresentou como uma representante da luta pelas equidade social, de etnia e de gênero.

Não é essa Marina Silva que estamos vendo recentemente. Não pela sua opção de romper com o PT e depois com o PV ou mesmo querer construir um outro partido, a Rede de Sustentabilidade. Mas pelas posições que vem afirmando publicamente. As declarações dadas por Marina ao Diário de Pernambuco, comentadas aqui pelo meu colega Renato Rovai, em defesa de Marco Feliciano são preocupantes.

Quem poderia imaginar Marina Silva, aquela mulher negra senadora que mereceu ser homenageada pelo movimento negro em São Paulo, defender um deputado que considera que os afrodescendentes merecem a situação que vivem por que são descendentes de um filho de Noé amaldiçoado por Deus? Argumento semelhante dado pela Igreja Católica durante a colonização de que os negros poderiam ser escravizados e tratados como coisa porque não “tinham alma” (por não serem cristãos).

É esta Marina Silva que na última eleição ficou em terceiro lugar no seu estado (Acre) e teve suas melhores votações nos distritos de classe média e média-alta de Rio e São Paulo. A conveniência fez a ex-senadora negra e seringueira ter como eleitores pessoas que, na sua grande maioria, são contra os direitos das domésticas, são contra cotas e contra qualquer processo de inclusão social. Não se trata de opção religiosa e sim ideológica.

Não considero que todo negro e negra tem que ser de esquerda. Mas a direita brasileira, as elites brasileiras são tão impregnadas do racismo que há uma forte tendência de uso instrumental de personalidades negras que aderem a este espectro ideológico – e sempre depois de utilizado, o destino é como bagaço de laranja: jogar no lixo.

 


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