10 de dezembro de 2018, 16h42

Marlene Crespo: afiados traços, como flechas, entre a dor, a resistência e o sonho

O livro "Desenhos da Resistência" é um arquivo de imagens que remontam décadas da história da nossa curta democracia, que viram às avessas os momentos mais assombrosos da nossa história moderna, mas também nos enchem de esperança e alento

Fotos: Divulgação Por Marina Costin Fuser* Ela absorve o mundo com finos traços, que se interpelam a ponto de se tornar quase indiscerníveis, como uma pele, uma textura delicada de nanquim onde a luz atravessa. As formas encarnam figuras de sua interioridade, animais fantásticos, fantasmas da ditadura, mil e uma faces da dor, mas também do amor e do sonho. “Desenhos da Resistência” é uma charmosa homenagem a toda sua carreira artística, com ênfase nas imagens com conteúdo de crítica social que perpassam por sua trajetória de mulher de fibra, entusiasta das causas populares. Fórum precisa ter um jornalista em...

Fotos: Divulgação

Por Marina Costin Fuser*

Ela absorve o mundo com finos traços, que se interpelam a ponto de se tornar quase indiscerníveis, como uma pele, uma textura delicada de nanquim onde a luz atravessa. As formas encarnam figuras de sua interioridade, animais fantásticos, fantasmas da ditadura, mil e uma faces da dor, mas também do amor e do sonho.

“Desenhos da Resistência” é uma charmosa homenagem a toda sua carreira artística, com ênfase nas imagens com conteúdo de crítica social que perpassam por sua trajetória de mulher de fibra, entusiasta das causas populares.

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O livro começa contando a história da vida de Marlene Crespo, de seu engajamento político, suas passagens entre o DOPS e os tristes porões do DOI-CODI, onde foi presa e torturada pelos carrascos do regime militar, o desenvolvimento de sua arte, seus livros e ilustrações e publicações com os seus trabalhos. A segunda parte do livro explora seus eixos temáticos em camadas.

Os traços ardilosos na parede da cela marcam a passagem do tempo, bruto tempo que adquire sua forma animalesca, desumana, de parasitas sombrios, reais ou imaginários, que dividiam o espaço do confinamento. Sua imagem ganha corpo de mulher. Um corpo retraído, sofrido, com medo, encarcerado, mas com o coração saltando do peito: é o elemento humano que faltava na figura anterior.

A causa indígena se despeja em imagens e traços de uma brasilidade de lâmina fina, de devires e resistências que desafiam um olhar colonizador, que nada entende sobre as funduras do Brasil.

É particularmente afável a atenção especial que ela dedica às mulheres: as mulheres indígenas, as mulheres em marcha, as camponesas.

Sua obra celebra o feminismo como num rito báquico tupiniquim: o corpo em movimento, os traços marcantes e os olhares insubordinados daquelas que afirmam o seu existir pela resistência.

Os retratos grotescos de burgueses e suas extravagâncias, às custas do povo, seguem a estética dos artistas engajados de seu tempo. Já os elementos populares são retratados com candura, com traços afetivos, empáticos, com uma aproximação quase infantil de tão pura.

A autora Marlene Crespo

Mas se o povo é representado com formas tão carinhosas, não há ingenuidade na exaltação do povo, onde ela deposita seus sonhos, suas esperanças. Pelo contrário: são retratos delicados, mas afiadíssimos com flechas libertárias, e denúncias assertivas.

Em suma, este livro é um arquivo de imagens que remontam décadas da história da nossa curta democracia, que viram às avessas os momentos mais assombrosos da nossa história moderna, mas também nos enchem de esperança e alento, ao celebrar cada ensejo por uma resistência criativa e potente.

Título: “Desenhos da Resistência – A obra gráfica de uma artista engajada na luta contra a ditadura militar”.

Autora: Marlene Crespo

Editora: Outras Expressões

176 páginas

Preço: R$ 30,00

(O livro será lançado no sábado dia 15 de dezembro, às 15h, na Livraria Expressão Popular, Rua Abolição, 201 – Bela Vista, São Paulo (SP).

*Marina Costin Fuser é ativista feminista, socióloga com mestrado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), doutoranda na Universidade de Sussex (Reino Unido) e neta da autora do livro

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