Imprensa livre e independente
13 de dezembro de 2018, 12h47

Marlon Marques: Virada intelectual e a história do fracasso

O mais sintomático é o fato de que mesmo depois da maior expansão do ensino superior da história do país tenhamos escolhido exatamente o candidato mais avesso aos valores culturais e intelectuais que prosperaram nos últimos anos

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Fotos Públicas Por Marlon Marques* A vitória incontestável de Jair Bolsonaro para o cargo de presidente da República brasileira ainda há de gerar muitas páginas de análises críticas sobre a ascensão meteórica de um deputado que por 28 anos teve contribuições pífias em qualquer um dos assuntos mais relevantes para a população. Porém, talvez o que seja mais sintomático é o fato de que mesmo depois da maior expansão do ensino superior da história do país tenhamos escolhido exatamente o candidato mais avesso aos valores culturais e intelectuais que prosperaram nos últimos anos. O esfarelar da credibilidade...

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Fotos Públicas

Por Marlon Marques*

A vitória incontestável de Jair Bolsonaro para o cargo de presidente da República brasileira ainda há de gerar muitas páginas de análises críticas sobre a ascensão meteórica de um deputado que por 28 anos teve contribuições pífias em qualquer um dos assuntos mais relevantes para a população. Porém, talvez o que seja mais sintomático é o fato de que mesmo depois da maior expansão do ensino superior da história do país tenhamos escolhido exatamente o candidato mais avesso aos valores culturais e intelectuais que prosperaram nos últimos anos.

O esfarelar da credibilidade intelectual se construiu por anos a fio abaixo dos olhos de todos nós. Enquanto grande parte dos acadêmicos preenchiam lattes, corriam para promover eventos em seus próprios círculos e se esmeravam na publicação de livros nunca lidos e pouco divulgados, pastores e padres afeitos à teologia da prosperidade, jornalistas de verdades curtas, influenciadores digitais, teóricos de pouca largura, artistas preocupados apenas na acumulação de capital e na compra de seu mais novo carrão, tomavam conta dos espaços públicos, das telas dos celulares, dos computadores e dos televisores.

Veja também:  Editorial d'O Globo diz que "estilo de governar pelo confronto" de Bolsonaro "não dará certo na democracia"

Fórum precisa ter um jornalista em Brasília em 2019. Será que você pode nos ajudar nisso? Clique aqui e saiba mais

Preocupados com seus pares e com seu próprio prestígio, a academia formal produziu muito para si mesma, ao mesmo tempo em que mostrou para toda sociedade que era inútil e débil para fins práticos. Intelectuais prestigiosos não ocuparam as ruas e as praças, preferiram entraram em seus apartamentos aconchegantes, tomar tranquilamente o chá com dedos levantados e debater as assertivas de Foucault e Deleuze enquanto refutavam as teorias de Marx e de Gramsci.

De dentro de suas redomas e de seus círculos de orientandos, inflavam seu próprio ego e não viram crescer na sociedade civil a hegemonia da intelectualidade orgânica abestalhada que construiu o mito Jair. Gente das mais simples e até aqueles da dita classe média, ou os autos burgueses, acreditaram naqueles que estiveram mais acessíveis e próximos a eles durante todo o caos brasileiro dos últimos quatro anos.  A leitura ignorante da realidade venceu porque os que tinham o que dizer permaneceram mudos. Depois da vitória de Bolsonaro só há dois caminhos para acadêmicos e intelectuais, ou retomar as ruas e as consciências ou desaparecer.

Veja também:  Bancada do PT pede ao TCU apuração da viagem de Bolsonaro e ministros a Dallas

*Marlon Marques é mestrando em História Social da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e desenvolve pesquisa na área de relações de poder, trabalho e práticas culturais

Agora que você chegou ao final deste texto e viu a importância da Fórum, que tal apoiar a criação da sucursal de Brasília? Clique aqui e saiba mais

 

Fórum em Brasília, apoie a Sucursal

Fórum tem investido cada dia mais em jornalismo. Neste ano inauguramos uma Sucursal em Brasília para cobrir de perto o governo Bolsonaro e o Congresso Nacional. A Fórum é o primeiro veículo a contratar jornalistas a partir de financiamento coletivo. E para continuar o trabalho precisamos do seu apoio. Clique no link abaixo e faça a sua doação.

Apoie a Fórum