14 de março de 2019, 06h00

Massacre em escola é o estopim do imaginário pró-armas de Bolsonaro, diz especialista

Para Vagner Marques, que é professor e doutor em História Social, a sociedade brasileira está assistindo a uma mudança de imaginário coletivo pautada pela cultura armamentista, influenciada, principalmente, pelo presidente da República

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No mesmo dia do massacre que chocou o país e culminou em 10 mortes e 17 feridos em uma escola pública em Suzano (SP), nesta quarta-feira (13), o presidente Jair Bolsonaro anunciou que está preparando um projeto de lei para ser encaminhado ao Congresso com o objetivo de flexibilizar o porte de armas. A informação foi prestada pouco antes do massacre. Na avaliação de Bolsonaro, a regulamentação que rege o porte de armas não pode ser tão “rígida” conforme os dias atuais. O acesso a armas era uma das promessas de campanha de Bolsonaro. Uma das primeiras medidas no governo foi a...

No mesmo dia do massacre que chocou o país e culminou em 10 mortes e 17 feridos em uma escola pública em Suzano (SP), nesta quarta-feira (13), o presidente Jair Bolsonaro anunciou que está preparando um projeto de lei para ser encaminhado ao Congresso com o objetivo de flexibilizar o porte de armas. A informação foi prestada pouco antes do massacre. Na avaliação de Bolsonaro, a regulamentação que rege o porte de armas não pode ser tão “rígida” conforme os dias atuais. O acesso a armas era uma das promessas de campanha de Bolsonaro. Uma das primeiras medidas no governo foi a assinatura de decreto que já facilitou a posse.

Para Vagner Marques, professor universitário e doutor em História Social, é justamente esse discurso de Bolsonaro, desde a campanha eleitoral, um dos principais fatores que alimentam o que ele chama de uma “mudança de paradigma” na sociedade brasileira.

“A gente tem constatado que nos últimos anos há um processo de mudança de imaginário onde essa ideia da cultura de armas começa a ganhar corpo. Em especial no processo da candidatura do Bolsonaro, encampando uma proposta de flexibilização do uso de armas. Isso permite que as pessoas que tenham armas, ou desejam, se sintam representadas”, analisa o historiador em entrevista à Fórum.

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Para Marques, que é autor do livro “Fé & Crime: Evangélicos e PCC nas periferias de São Paulo”, o atentado de Suzano, independente do lugar a que as investigações levarem, tem relação direta com essa mudança de imaginário coletivo – novo na sociedade brasileira – que é alimentado pelo próprio presidente da República. O estudioso explica que há uma série de sinais que mostram uma corrente bélica crescendo no Brasil e influenciando massacres como este que chocou o país.

“Estamos assistindo a um cenário de mudança de imaginário com essa ideia da arma enquanto resolução de conflitos, culminando em atentados como esse. Embora esse fato tenha ocorrido hoje, no último ano, em especial na tensão do processo da campanha eleitoral, se disseminou muito o discurso pró-arma. Você tem o atual presidente em um de seus momentos de campanha ensinando uma criança a fazer arma com os dedos. São uma série de sinais que esse imaginário vem formando uma corrente”, pontua.

De acordo com o professor, a cultura armamentista não é novidade no Brasil e já estava presente em diversos setores sociais, mas a influência de um presidente prometendo armar a população “solidifica” esse imaginário que estava limitado a algumas camadas da população. Marques sustenta, contudo, que o atentado de Suzano, ao mesmo tempo que representa um “estopim” deste movimento bélico que vem se encrustando na sociedade, pode abrir novamente um debate sobre o tema.

“Esse atentado é o estopim desse imaginário. É muito claro de ver que temos uma mudança de paradigma que ganha cada vez mais força com esse discurso de flexibilização de armas. Mas acho que esse atentado vai colocar a sociedade civil, novamente, para debater a defesa da cultura de paz”, afirma.

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Debater e incentivar a cultura de paz, inclusive, é uma necessidade imediata, segundo o historiador, para evitar que esse imaginário armamentista avance e vivamos no Brasil um cotidiano parecido com o dos Estados Unidos, onde a compra de armas é mais flexível e os atentados a tiros em escolas e espaços públicos se tornaram quase uma rotina. Para o professor, esse é o papel que cabe, principalmente, à sociedade civil.

“De imediato a sociedade civil, em particular ativistas sociais, lideranças religiosas, movimentos sociais, precisam provocar uma série de atos, e esses atos conectados com uma pauta base: a cultura de paz. Essa pauta tem que estar presente em câmaras de vereadores, terceiro setor, entidades públicas e privadas. É um momento que não podemos deixar que isso passe despercebido e não seja debatido. Estamos testemunhando um processo que não é convencional na nossa sociedade, mas, se a própria sociedade não reagir, esse imaginário se torna sólido. Então, é necessário, na mesma proporção, uma reação de repúdio e uma reação em defesa da cultura de paz promovida por todos os setores sociais”, defende.