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07 de Abril de 2015, 08h31

Matamos mais um menino Jesus

Na última quinta-feira santa, tombou mais um menino Jesus. Também foi morto pelas forças do Estado. Eduardo  de Jesus tinha apenas dez anos e foi morto por um tiro da Polícia que deveria estar ali para protegê-lo, numa das comunidades do Rio de Janeiro. Na manhã de quinta-feira, o Jesus brasileiro tomou a sua última […]

Na última quinta-feira santa, tombou mais um menino Jesus. Também foi morto pelas forças do Estado.

Eduardo  de Jesus tinha apenas dez anos e foi morto por um tiro da Polícia que deveria estar ali para protegê-lo, numa das comunidades do Rio de Janeiro. Na manhã de quinta-feira, o Jesus brasileiro tomou a sua última refeição, como o fez Jesus Cristo em sua última ceia antes de ser morto pelos guardas de sua época.

No descaso secular com a pobreza, somos todos culpados, sem exceção. Jesus morreu novamente, como já havia sido morto dois milênios atrás. E de lá para cá são tantos que tombam do mesmo jeito, vítimas do descaso e da omissão do Estado e toda sociedade, com a pobreza que ainda impera no Brasil há mais de cinco séculos.

Jesus é mais um para a estatística das crianças que têm o seu futuro ceifado de forma violenta no Estado Brasileiro. O pai José e a mãe Terezinha de Jesus voltaram para o Piauí para enterrar o corpo do filho e morar novamente em seu Estado. Os pais de Jesus eram trabalhadores, o menino ia à escola e mesmo assim acabou morto por um tiro, mais um dos tiros que sempre conseguem frear as vidas ainda imberbes de nossas crianças. O local da morte chama-se Complexo do Alemão, mas a culpa é toda nossa, brasileira, pela herança secular de tanta desigualdade e violência.

Os avanços na educação e na distribuição de renda na última década ainda são tímidos e mesmo que garantam as crianças na escola, quando o Estado as alcança e livra do crime, é o próprio Estado que toca o terror ainda pelas comunidades Brasil afora.

A morte de Jesus, anunciada tantas vezes em todos os anos, é emblemática neste período de Páscoa, principalmente quando se tenta diminuir a maioridade penal no Congresso Nacional, como se fosse da juventude a culpa pela violência e tanta desigualdade. É culpar o efeito pela causa.

A redução da maioridade penal não irá socorrer a ninguém, mas tão somente jogar aos sepulcros de criminosos (também conhecidos como penitenciárias), outros jovens cujo futuro também está marcado. O debate em torno da PEC 171/2003 precisa ser amplo e é urgente, antes que jovens de 16 a 18 anos sejam despejados como mais criminosos em locais onde a recuperação é quase inexistente.

Em vez de culpar os Jesus, Josés, Pedros e demais jovens abraçados pelo crime, é imprescindível ver a nossa culpa nisso tudo.

Pela omissão, pela continuidade da desigualdade, pela cumplicidade com tantos erros ainda perpetuados no Brasil. Pela absurda tese de tentar reduzir a violência e desigualdade social trancafiando os jovens abraçados pelo crime, na contramão de tantos países que já perceberam que educação e justiça social são as melhores – talvez únicas – armas eficazes contra o crime. O menino Eduardo de Jesus não era nenhum monstro, nenhum criminoso e era a prova viva de que a violência não está nas crianças pobres da periferia. Elas são vítimas, ora do Estado, ora da omissão deste. Hoje Eduardo é a triste prova morta desse crime diário.

Jesus não foi o primeiro e não será o último. Mas caberá a nós todos contribuir para que diminuam tantas mortes ao longo dos próximos anos. Deixar de ter um olhar apartado da pobreza, distante da realidade, um olhar que se incomoda apenas quando a discrepância social bate à porta. Deixar de lado as nossas corrupções e omissões diárias. Marchar em favor dos menos favorecidos e não contra os pequenos direitos que têm amealhados na última década.

A morte do menino Jesus não pode passar incólume ou virar mais uma estatística a ser esquecida. Morremos todos juntos, aos poucos. Somos todos Eduardo de Jesus.

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil