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06 de fevereiro de 2014, 15h57

Mauritânia: um Estado-escravagista na África com apoio internacional

Tradição milenar de se manter escravos por gerações tornou o país o maior centro da prática ilegal no mundo, com cerca de 151 mil pessoas sendo escravas

Tradição milenar de se manter escravos por gerações tornou o país o maior centro da prática ilegal no mundo, com cerca de 151 mil pessoas sendo escravas Por New Internationalist | Tradução: Vinicius Gomes A escravidão é comum e passada por gerações na desértica Mauritânia(Foto WikiCommons) Nos vastos e esparsamente povoados desertos da Mauritânia, na África, a escravidão é abundante – apesar de ter se tornado ilegal em 1981 e um crime contra a humanidade em 2012. A Mauritânia, na costa oeste do deserto do Saara, tem a maior taxa de escravidão per capita, de acordo com o Índice Global...

Tradição milenar de se manter escravos por gerações tornou o país o maior centro da prática ilegal no mundo, com cerca de 151 mil pessoas sendo escravas

Por New Internationalist | Tradução: Vinicius Gomes

A escravidão é comum e passada por gerações na desértica Mauritânia
(Foto WikiCommons)

Nos vastos e esparsamente povoados desertos da Mauritânia, na África, a escravidão é abundante – apesar de ter se tornado ilegal em 1981 e um crime contra a humanidade em 2012.

A Mauritânia, na costa oeste do deserto do Saara, tem a maior taxa de escravidão per capita, de acordo com o Índice Global de Escravidão de 2013. Compilado por uma fundação de caridade antiescravidão – a Walk Free Foundation –, o índice estimou que 151 mil pessoas, quase 4% da população do país, podem estar vivendo em regime de escravidão. Estimativas de outros grupos chegou a elevar esse número em quase 20%.

Ter um escravo na Mauritânia primeiramente é visto como possuir um bem pessoal, com essa condição sendo inclusive passada de geração para geração, movimento que se originou nas antigas caçadas por escravos.

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Ela também está ligada ao racismo. A sociedade mauritana é feita de três principais grupos étnicos: os haratins, afro-mauritanos e os mouros brancos (árabes). A escravidão hereditária é perpetuada porque os haratins – africanos negros roubados de suas vilas séculos atrás durante as guerras afro-árabes – são tradicionalmente vistos como propriedades dos mouros brancos.

Abidine Ould-Merzough, um ativista dos direitos humanos e membro de uma comunidade haratin vivendo hoje na Alemanha, diz que os mouros brancos – uma minoria na Mauritânia – possuem um desproporcional poder político: “Eles querem manter a comunidade haratin subdesenvolvida, se eles permitirem que sejam educados, eles se recusarão a serem escravos e se tornarão competidores por poder”, diz ele.

A doutrinação é uma peça chave para a escravidão na Mauritânia, com ensinamentos religiosos sendo usados para justificar as práticas escravagistas. “Existe uma interpretação do Islã que diz que a sociedade é dividida em duas – mestres e escravos”, diz Ould-Merzough. “Os escravos aceitam isso e creem que seu status é uma vontade divina.”

Estrada na fronteira com o vizinho Senegal
Foto: WikiCommons

Alguns críticos dizem que o papel geopolítico da Mauritânia (o país é visto como um importante aliado ocidental contra a Al-Qaeda no norte da África) fez com que a escravidão no país seja ignorada. Quanto ao governo mauritano, ele enfatiza que o fato de a escravidão ser proibida e diz que qualquer caso que for descoberto será rigorosamente punido.

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Apesar das histórias chocantes e das duras evidências estatísticas sobre a predominância de escravidão, existem desenvolvimentos positivos à frente. “O movimento anti-escravagista na Mauritânia está se tornando cada vez maior e isso realmente me deixa otimista”, diz Saidou Wana, ativista mauritano dos direitos humanos, baseado nos EUA. “Existe um progresso acontecendo: as pessoas estão acordando e começando a entender a situação. E isso está acontecendo através da fronteira, com os árabes se envolvendo também.

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