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01 de outubro de 2014, 10h20

MC Mayara: “Feminismo para mim é ser livre acima de tudo”

Por Jarid Arraes

Com mais de 300 mil pessoas acompanhando seu trabalho pelas redes sociais, a MC Mayara é uma figura querida pelas feministas e pessoas LGBT. A funkeira, que viralizou na internet pela primeira vez em 2012, hoje usa sua página no Facebook também como forma de compartilhar suas ideias e “teorias”. Entre trechos de suas músicas e frases de efeito, ela faz questão de publicar mensagens contra o machismo, a homofobia e o racismo.

Mas apesar de se interessar por assuntos relevantes e buscar informação de qualidade sobre temas atuais, Mayara sofre muito preconceito – especialmente de grupos que hostilizam seu estilo musical e não gostam dos seus temas sexuais. “Mesmo que se faça [o funk] direcionado para um propósito, sempre vão achar que é musica baixa; e na verdade o funk é um grito que vem da classe menos favorecida, porque é uma música eletrônica de vila, é barata para se produzir e uma arma poderosa contra muitos. E a sexualidade é uma coisa que já nasce com a gente e está aí sempre, só que o preconceito e os julgamentos das pessoas são falso moralismo. Todo mundo sabe, todo mundo vê, mas ninguém que ficar comentado”, afirma a MC.

“Teoria da Branca de Neve: por que só ter um se eu posso ter sete?” – uma das músicas da MC.

Embora não se considere exatamente feminista, Mayara conta que sempre foi independente e conheceu o Feminismo ao observar as mulheres e meninas à sua volta. “Com isso resolvi usar o funk para protestar e firmar o feminismo e a liberdade não só sexual, mas também mostrar que mulher é ser humano e tem os mesmos direitos que qualquer um tem. Como também luto contra qualquer preconceito, seja de raça, de liberação sexual, classe social”. Ela não faz vista grossa para o machismo que existe nas letras e atitudes de muitos artistas do funk; para ela, alguns “tratam muito a mulher como objeto, não todos, mas tem mulheres também que gostam de ser tratadas assim. Como quero um mundo livre, não acho certo nem errado por elas e eles. Na minha realidade, eu enfrento isso nas minhas composições e atitudes pela vida”.

Quem acompanha sua carreira pode constatar que a MC Mayara realmente enfrenta o machismo – a atitude empoderada que adotou quando sofreu críticas por continuar dançando funk quando estava grávida é uma evidência disso. Em uma sociedade que idealiza a maternidade e censura o comportamento sexual das mães, a funkeira teve autonomia e fez aquilo que desejava. “Eu fui a primeira MC a ter coragem de gravar um clipe grávida, mas fiz isso para mostrar que gravidez não é doença. Tem mulher que fica cheia de frescura e tal, eu além de fazer clipe, fiz show até o meu oitavo mês”. As mudanças que a maternidade trouxe em sua vida, no entanto, reforçam seu desejo de fazer a diferença no mundo: “Hoje o que realmente exige mais de mim é que a vontade de mudar e transformar o mundo em uma coisa melhor dobrou, porque quero isso para a Manu [sua filha]“.

 (No vídeo “Ela sabe rebolar”, MC Mayara dança grávida enquanto canta: “Mulher é tudo gostosa, poderosa, é rainha. (…) Meus amores, os tempos mudaram, agora estamos mais atualizadas. Mamãe, sua filhinha inocente cresceu e ficou safada”.)

Imagem compartilhada por Mayara no Facebook.

Mayara conta que já educa sua filha com base em seus pensamentos libertários, que são facilmente identificados em sua página no Facebook. Recentemente, ela apoiou o protesto de mulheres negras contra estereótipos racistas na televisão e também manifestou indignação contra o presidenciável Levy Fidelix, que fez declarações homofóbicas ao vivo durante um debate entre candidatos. “Eu me acho alguém que teve a sorte de fazer músicas e pegar, e tentar com isso fazer com que o mundo seja mais livre, com pessoas de mente aberta, porque uso a minhas redes sociais não só para falar de feminismo, mas pra tentar motivar as pessoas a se reconhecerem como elas realmente são”, explica. “Luto contra o preconceito, quero um lugar onde a minha filha possa ser o que ela quiser e como quiser sem julgamentos. E feminismo para mim é ser livre acima de tudo pra poder fazer o que bem entender da minha vida”.

Mesmo que não se considere uma militante, MC Mayara se posiciona e levanta a voz quando acha necessário – algo que significa muito em uma cultura de omissão. Animada com os projetos que tem desenvolvido, a MC pede que seus fãs aguardem as novidades que está preparando, sempre lembrando de seu papel social e também pioneiro no meio artístico que escolheu: “Tenho muitos projetos, estou lutando pra realizá-los e com muita paciência e dedicação eu chego lá. Eu tento inovar em várias coisas que faço. Fui a primeira funkeira a fazer um clipe em plano sequência (Mereço Muito Mais), a primeira a ter um aplicativo para smartphone e também a primeira a gravar um clipe grávida (Ela Sabe Rebolar). Enfim, aguardem que tem muito mais da MC Mayara por vir!”.

Foto de capa: Divulgação