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18 de novembro de 2016, 11h59

Médico Cubano reduz uso de antibióticos em aldeias indígenas utilizando plantas medicinais

Consumo inadequado de antibióticos pelos índios da aldeia Kumenê era resquício de evangelização de missionários que classificavam o uso de plantas medicinais como “feitiçaria”.

Consumo inadequado de antibióticos pelos índios da aldeia Kumenê era resquício de evangelização de missionários que classificavam o uso de plantas medicinais como “feitiçaria” Por Matheus Moreira* O médico Javier Isbell Lopez, integrante do programa Mais Médicos, notou que os índios da aldeia Kumenê, no Oiapoque, no estado do Amapá, consumiam antibióticos em detrimento de utilizar plantas medicinais de sua tradição devido a evangelização de dois missionários na década de 1960, que permanceram no local por mais de 10 anos, classificando o uso de plantas medicinais como feitiçaria. Com a dura crítica e o banimento das tradições medicinais indígenas, os...

Consumo inadequado de antibióticos pelos índios da aldeia Kumenê era resquício de evangelização de missionários que classificavam o uso de plantas medicinais como “feitiçaria”

Por Matheus Moreira*

O médico Javier Isbell Lopez, integrante do programa Mais Médicos, notou que os índios da aldeia Kumenê, no Oiapoque, no estado do Amapá, consumiam antibióticos em detrimento de utilizar plantas medicinais de sua tradição devido a evangelização de dois missionários na década de 1960, que permanceram no local por mais de 10 anos, classificando o uso de plantas medicinais como feitiçaria.

Com a dura crítica e o banimento das tradições medicinais indígenas, os índios da aldeia passaram a consumir abusivamente antibióticos, em dosagens acima do recomendado, inclusive, para pessoas que vivem em áreas urbanas de grande fluxo.

Observando a situação, Lopez se reuniu com as lideranças indígenas e em diversas palestras buscou desmistificar o uso de plantas medicinais como “magia”. O projeto culminou na criação de uma horta com plantas cujo estudos científicos mostraram serem capazes de auxiliar no tratamento dos principais problemas de saúde observados na aldeia: gripes e doenças diarreicas.

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“No começo, quando eu receitava alguma delas, eles jogavam fora e ficavam bravos comigo porque queriam antibióticos. Antes de ter médico aqui, eles faziam um uso excessivo de antibióticos e, hoje, as bactérias que circulam na comunidade têm resistência aos medicamentos disponíveis. Aos poucos, eles voltaram a acreditar no poder das plantas”, explica Lopez, do Mais Médicos.

A horta idealizada por Lopez contém plantas como boldo, sabugueiro, “amor crescido”, babosa, manjericão e outras menos conhecidas. Uma das mais utilizadas, principalmente no combate à gripe – doença mais expressiva na aldeia – é o sabugueiro, que apresenta efeito expectorante.

Mudanças

Lopez e sua equipe médica também iniciaram um projeto de reeducação de manutenção do meio ambiente, especialmente, do curso d’água que cerca a aldeira, um confluente dos rios Uaçá e Curupi.

De acordo com o médico, as estruturas de banheiros eram construídas próximo às margens do rio, contaminando a água. Além disso, os poços eram construídos próximos aos banheiros, o que facilitaria o contagio de doenças pela água contaminada.

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“Explicando, conseguimos uma melhor qualidade de vida aqui. Um médico não pode se cansar. Eu me sinto bem porque já estou percebendo a mudança. Estou vendo que as medidas que estou tomando dão certo, pois as doenças estão desaparecendo. Estou ‘ganhando’ menos pacientes’”, apontou Lopez.

As palestras sobre conscientização são parte do programa desenvolvido e empregado pelos médicos da equipe de Lopez, que tem como objetivo aumentar a qualidade de vida na aldeia, de maneira que haja menor consumo de remédios industriais, evitando a adaptação dos vírus ao antibiótico, e maior proteção dos recursos naturais, possibilitando a prevenção de doenças.

*Com informações da ONU BR

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