15 de novembro de 2018, 11h58

Médico do Recife: “Quer saber como Bolsonaro mente e manipula pra enganar você sobre o Mais Médicos”?

Thiago Silva publicou uma série de tuítes, esclarecendo alguns mitos sobre os médicos cubanos que participavam do programa e que agora deixarão o país

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Depois do anúncio de que Cuba deixará de participar do programa Mais Médicos, em consequência de declarações, no mínimo, desastradas e desrespeitosas de Jair Bolsonaro sobre os profissionais cubanos, o médico recifense, radicado em São Paulo, Thiago Silva, resolveu postar uma série de tuítes, com o objetivo de esclarecer as afirmações do militar. Seus tuítes viralizaram.

Thiuago faz uma espécie de roteiro em suas postagens, que começam com o título: “Quer saber como Bolsonaro mente e manipula pra enganar você sobre o Mais Médicos?”. Seguem as postagens:

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“Cuba faz cooperação com 66 países em todo o globo, inclusive europeus. Sabe como isso começou? Com a brigada Henry Reeve, criada em 2005, como forma de ajuda humanitária pra atender às vítimas do Furacão Katrina nos EUA. Fidel chamou centenas de médicos e pediu que se organizasse a brigada. EUA negaram a ajuda. A brigada permaneceu mobilizada, pois em pouco tempo haveria a crise em Angola e terremoto no Paquistão.

Na maioria dos países que faz parceria, Cuba envia médicos e medicamentos de graça, sem cobrar dos países. Isso aconteceu em Angola, no Nepal, Haiti, Congo e tantos outros países pobres do mundo. Quem arcava com os custos? O próprio governo cubano.

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E como o governo cubano fazia, já que é vítima de um bloqueio econômico há décadas, uma ilha pequena do Caribe que não consegue nem produzir a própria energia, pelas características de seu território? Alguns países começaram a oferecer trocas pela Força de Médicos. A Venezuela ofereceu petróleo.

Alguns países europeus começaram a pagar mesmo diretamente pro governo Cubano. E essa parceria virou uma fonte de renda pra ilha, com impacto em suas contas públicas, dado o volume de médicos atuando no mundo todo.

E como funciona o pagamento?

Cuba abre edital via uma empresa estatal para contratar os médicos. Eles podem se oferecer ou não. As condições salariais e os países são conhecidos previamente por todos antes de assinarem contrato. Contrato, conhecem? Pois é.

A maior parte do “salário” pago fica com o governo cubano? Sim e não. Sim, porque se você pegar o total de recurso destinado ao programa e dividir pelo número de médicos vai ser menor. Mas não, porque não são os governos contratantes os responsáveis pelo salário dos cubanos. Quem é responsável pelo salário dos cubanos é a estatal com a qual eles assinaram contrato! Simples!

Ela é responsável por lesão corporal, por invalidez , por seguro, por assistência à família em caso de morte etc . Cubanos morreram aqui, sabiam? E sabe o que fez o governo brasileiro? Nada. Pois é. Quem cuida das famílias e repassa dinheiro para famílias é a estatal.

Além disso, a “diferença salarial” não vai pra financiar outra coisa que não a Saúde e Educação de todo povo cubano.

Detalhe, eles têm isso DE QUALIDADE e de GRAÇA pra todos lá, viu?

Ou seja, o “salário” dos médicos fora de Cuba (quando estão em países que pagam, que não são a maioria) sustenta os direitos sociais de todos os moradores da ilha. É uma fonte de renda pro povo. Impacta o PIB. Como vender nióbio a preço de banana pra canadense, saca?

Sabe quantos médicos cubanos saíram do programa revoltados com o que é feito com o salário? Um total de …. 1! Isso mesmo. Uma cubana que foi comprada e sustentada pela AMB [Associação Médica Brasileira] numa certa época pra criar uma campanha vergonhosa contra o mais médicos.

Houve algumas deserções, como sempre há, já que tem médicos cubanos que acham que vão enriquecer de medicina nos EUA. Claro que tem. Em todo canto do mundo tem gente que não se importa em pensar apenas no próprio umbigo. Mas foram uma minoria irrisória.

Revalidação de diplomas: Essa é uma piada. Cuba manda médicos pra 66 países, sabe o único que teve gente cobrando isso? Pois é, o Brasil. Ainda tem o disparate de dizer que eles não são médicos, quando tem norte-americano pegando lancha e indo pra Cuba se tratar.

Mesmo assim, por conta dessa pressão, os Cubanos foram avaliados quando chegaram aqui, com a aprovação da lei. Avaliados pela fluência no Português e questões de Medicina. Foram avaliados por professores e preceptores de medicina brasileiros, a maioria de universidades federais.

É claro que teve gente reprovada. É claro que vieram no meio dos 14 mil médicos, tipos ruins, medianos, bons e excelentes. Mas você acha que entre 14 mil brasileiros viriam apenas médicos bons? Anham…

*Sou Chefe de um pronto socorro do SUS onde só tem brasileiro, e vejo isso todo dia …

Impacto do término do programa: 700 municípios brasileiros não tinham uma alma de lençol branco nem pra confundir com médicos. Os números do Mais Médicos são acachapantes: 63 milhões de pessoas cobertas. 4 mil municípios. Hoje em mais de 1.500 municípios só tem cubano.

Lembram do escândalo das digitais de ponto, em que médicos falsificavam a entrada nos serviços de Saúde? Muitos pequenos municípios no interior vão voltar a depender deste tipo de colega, infelizmente.

Parabéns ao envolvidos”.

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