21 de novembro de 2018, 13h34

Melhor um presidente réu por incitação ao estupro que por corrupção (crônicas de um povo anta)

No mundo capitalista, o crime contra a propriedade tornou-se mais vil que o crime contra o ser humano.

Uma coisa é fato: o PT não tem envergadura moral alguma para falar de justiça. Dentro da lógica de dominação capitalista, fazendo conchavos e alianças com partidos da estirpe mais pútrida, com empresários etc., esvaziou o sentido da palavra que compõe o nome do próprio partido. O termo “social  democracia” e a palavra “trabalhadores” em partidos como o PSDB e o PT, são tão impróprios quanto a palavra “comunismo” no PCdoB e “socialismo” no PSB.

Aliás as siglas dos nossos partidos nada tem que ver com a sua prática, ou, para citar uma passagem da música de um dos maiores compositores nacionais, Cazuza, as ideias não correspondem aos fatos e, tais agrupamentos políticos, têm a mesma tendência em encher suas piscinas de ratos.

Fórum precisa ter um jornalista em Brasília em 2019. Será que você pode nos ajudar nisso? Clique aqui e saiba mais

Contudo, a situação está tão ruim que muitos preferiram votar em um partido totalmente chafurdado em lama a votar no PSL. Eu não os culpo. A questão é de difícil compreensão para alguns. Mas em política às vezes é necessário, para dar um passo à frente, dar dois para trás.

No Brasil, e acredito que na maior parte da sociedade Ocidental, o crime de corrupção sempre será maior que o de racismo, ou qualquer violência que afete a moral do ser humano. Lula foi condenado, Haddad hoje é réu. Segundo o próprio Bolsonaro: “Eu também sou réu do Supremo, e daí?”, disse o presidente eleito por responder ao crime de incitação ao estupro.

Contudo, no mundo capitalista, o crime contra a propriedade tornou-se mais vil que o crime contra o ser humano. Estudos criminológicos revelam que desde o século XVIII, o crime contra a pessoa é maior nas regiões rurais e arcaicas, enquanto o crime contra a propriedade (roubo e fraude), o crime econômico, é maior na cidade.

Quando se trata da dignidade humana, a coisa piora. Muitos acreditam que é só uma questão de opinião. O ter é muito mais importante que o ser. Os linchamentos tornaram-se comuns e praticados pelas mesmas pessoas que defendem o extermínio de bandidos. Aliás, como mostrou José de Souza Martins, desde muito, “a inspiração dos linchadores era conservadora e orientada para a preservação da ordem que se acreditava ameaçada”. Antes eles eram cometidos contra criminosos extremamente violentos, estupradores, pais que matavam os filhos, etc.., hoje já aparece contra os que pensam “diferente”, se comportam “diferente” (vide o alto índice de assassinatos a travestis por aqui). Contudo, embora haja um falso moralismo circulando por aí, damos muito mais valor, de um modo geral, ao que se tem que ao que se é.

Fórum precisa ter um jornalista em Brasília em 2019. Será que você pode nos ajudar nisso? Clique aqui e saiba mais

Quando Nietzsche disse que Deus está morto e que nós somos o seu assassino, quis trazer para discussão, além de ouros aspectos, a perda desse espírito do ser. Antes as pessoas tinham filhos para ensiná-los a amar a Deus. Trabalhava-se em nome de Deus, jamais para o enriquecimento próprio. Estudava-se para compreender melhor a obra de Deus, bebia-se vinho porque era o sangue de Cristo etc.. Era uma sociedade que realizava todas as suas atividades pensando em Deus. Deus era a totalidade.

Hoje ninguém realiza qualquer uma das atividades citadas acima pensando em Deus. Somos liberais. Pensamos mais em nossa liberdade individual de ter, de conseguir e conquistar fortuna que em Deus. Ninguém trabalha para Deus e, sem dúvida, o trabalho é a atividade chave da nossa sociedade. Trabalha-se para prosperar economicamente, daí o sucesso da teologia da prosperidade.

Sendo assim, temos temor de perder aquilo que conquistamos trabalhando, pois para se ter um filho é preciso trabalhar, para ser próspero também; estuda-se para se arrumar um bom emprego, bebe-se para relaxar o corpo e a alma do cansaço proveniente do trabalho. Em muitas igrejas, o vinho foi substituído por suco de uva, cabe lembrar.

Um homem corrupto não merece o voto de ninguém, isso eu concordo, entretanto, aquele que incita o estupro merece? Isso eu já não concordo, mas sei que faz sentido na sociedade que habito.

Fórum precisa ter um jornalista em Brasília em 2019. Será que você pode nos ajudar nisso? Clique aqui e saiba mais

Sendo eu defensor das liberdades individuais, de expressão, do desenvolvimento em pesquisas nas universidades públicas, do fim do corte nos recursos destinados à educação e à saúde, contra a privatização, contra o agrotóxico, à favor da reforma agrária, das cotas, da distribuição de renda, redução do salário e das regalias dos políticos e dos juízes, jamais votaria em alguém que não se pronunciou em nenhum momento sobre tais questões. É provável que o eleitor de Bolsonaro não faça ideia de que a plataforma política do presidente eleito mostrou-se oposta a todos estes quesitos. Ou não se importam; desconhecem o fato de que esses elementos é que são política de verdade, isto é, política para além da campanha. Mas aquele que sabe, evidentemente, votou no candidato que concorreu contra ele. Não se trata de PT, se trata de não votar em quem não disse nada a respeito das medidas que o eleitor acha ser fundamentais.

Política não é oba oba! Ela é o resultado de uma lógica cultural. Se houvesse um movimento escravista predominante, o presidente eleito seria um escravista, se houvesse uma tendência a esquerda, como ocorreu nos finais da década de 1990, o presidente seria de esquerda, mas o que hoje predomina é um movimento a direita misturado a uma cultura das redes sociais e, se de acordo com Umberto Eco, elas abriram espaço para os imbecis, elegeremos youtubers (influenciadores digitais), atores pornôs, palhaços, trogloditas de direita.

Mesmo não acreditando no PT, alguns foram compelidos a cometer um erro para não cometer um outro maior ainda. Como disse, parafraseando Lenin, às vezes é necessário, para dar um passo para frente, dar dois para trás. Contudo, outros seguiram o estilo do tempo, e como dizia o bom e velho Machado de Assis, “cada tempo tem seu estilo”.

Grande parte da população brasileira não confia no PT, eu também não, mas essa insatisfação levaria mais pessoas às ruas – certamente uma ideia que não agrada tanto à classe dominante. O PT não poderia vencer devido ao desgaste que sofreu, enfim, o povo na rua não agrada mais as elites. Estas, depois da tempestade que ajudaram a causar, querem sossego.

O governo atual usou a máscara do novo para fazer com que a população mais uma vez espere sentada. É a velha estratégia de mudar a embalagem mantendo o mesmo conteúdo. A melhor receita para o conformismo. Se o PT assumisse a luta iria começar de imediato. Agora, o povo vai esperar. O governo vai colocar a culpa no governo anterior e, o povo, como sempre aconteceu com a entrada de uma nova cúpula no poder, vai se calando e esperando. A não ser que a mídia interfira.

Fórum precisa ter um jornalista em Brasília em 2019. Será que você pode nos ajudar nisso? Clique aqui e saiba mais

A ideia é sempre repetir o mesmo caminho. Os poderosos tratam o povo como se fossem antas. Os caçadores, ao perceberem que as antas faziam o mesmo caminho, armavam armadilhas nos mesmos lugares para capturá-las. E, imprescindivelmente, a anta caía sempre na mesma armadilha. A partir daí surgiu a ofensa que atribui à pessoa de raciocínio lento, desatenta etc.. o nome de tal animal.

Para nós, seres humanos, seria uma espécie de loucura, já que de acordo com Albert Einstein, insanidade é continuar fazendo a mesma coisa esperando resultados diferentes.

O povo poderia ser o burro. Em um artigo anterior, eu contrapus o termo burro ao de inteligente, um pequeno lapso de minha parte, porque, na verdade, este animal teve seu nome associado às pessoas ineptas porque não obedecia às ordens dos que se achavam no direito de domá-los. Poderíamos fazer uma homenagem ao burro Benjamin, do clássico “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell. De todos os bichos, tirando os porcos que assumiram o poder, ele era o único que sabia ler e por isso não se deixou alienar.

Agora que você chegou ao final desse texto e viu a importância da Fórum, que tal apoiar a criação da sucursal de Brasília? Clique aqui e saiba mais