16 de setembro de 2018, 10h31

Memórias de um domingo em 2014 com Haddad e o Hip Hop

O que ficou daquele dia na grande imprensa foi Haddad tocando aquela Gibson vermelha. A imagem de um homem com vasta formação intelectual e humana, perfeitamente integrado com o seu tempo, em todos os seus extremos

Haddad toca com o Public Enemy. Foto: Heloisa Ballerini/Secom Prefeitura

Naquele dia meu trabalho era colar no então prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, e acompanhá-lo por todas as partes enquanto durasse o evento. E o evento era, nada mais nada menos do que a reinauguração do Parque Tietê, com show do lendário grupo de hip hop americano “Public Enemy”, um dos precursores do gênero e também, de longe, um dos mais politizados.

As qualidades de Haddad enquanto gestor público já eram inquestionáveis. Formado em Direito, mestre em Economia e doutor em Filosofia, é também professor. Como ministro da Educação, entre outros feitos, desenvolveu o ProUni (Programa Universidade para Todos).

Reinauguração do Parque Tietê (2014). Foto: Julinho Bittencourt

O Omelete sem Ovos

Chamado por todos internamente como o omelete sem ovos, é um programa de concessão de bolsas de estudo em universidades privadas para estudantes de baixa renda. O ProUni se transformou em lei federal e inseriu mais de 1,5 milhão de jovens no ensino superior. Um achado inquestionável.

Aquele dia, no entanto, era para nós, a despeito de tudo, mais uma prova de fogo de como aquele intelectual voltado para a educação reagiria em contato tão próximo e descontraído com os jovens, a sua música, hábitos, roupas e costumes.

Reinauguração do Parque Tietê (2014). Foto: Julinho Bittencourt

Haddad era, para nós todos, aquele sujeito bacana, cinquentão, que tocava Beatles no violão. Até aí tudo bem, mas a banda de Liverpool, no entanto, já era, desde sempre, uma coisa bem mais “domesticada” perto do que estaria por acontecer naquele domingão ensolarado de outubro de 2014. A rigor, McCartney e seu grupo já eram coisa do passado até para a geração dele. Seria muito fácil o prefeito parecer um peixe fora d’água por ali, entre os rappers.

Uma grande imagem

Reinauguração do Parque Tietê (2014). Foto: Julinho Bittencourt

Desde cedo, uma multidão colorida, gingada, com colares, pearcings, skates, cabelos feitos e toda a sorte de adereços que envolve a cultura hip hop começou a chegar. Uma festa sem precedentes ocupava as dependências do que um dia fora o aristocrático clube paulistano. Pessoas, cujos pais e avós jamais sonhariam frequentar o local não fosse para trabalhar, se instalavam livremente por todas as partes, vibrando em ritmo, cor e atitude o domingo no parque.

Chuck D (2014). Foto: Julinho Bittencourt

Um dos compromissos que o prefeito queria cumprir era visitar os músicos, durante a passagem de som. E ali ocorreu a primeira surpresa, que se tornaria em uma de suas imagens mais emblemáticas. Convidado por Chuck D, líder do “Public Enemy”, Haddad pegou uma guitarra e tocou com a banda.

Logo mais, durante a tarde, mostrei a ele pelo celular a foto em vários sites. Ele pegou o aparelho nas mãos e olhou de um jeito que pareceu um tanto intrigado. Disse a ele: “É uma grande imagem, prefeito”. Ele sorriu.

No camarim com o Public Enemy

Haddad com Emicida (2014). Foto: Julinho Bittencourt

Antes do show, Haddad quis ir ao camarim conversar com os músicos. Os integrantes da banda eram todos muito simpáticos e a conversa foi, mais uma vez, surpreendente e agradável. Em um inglês fluente, o prefeito explicou o que significava a retomada daquele parque e, sobretudo, a importância de ter o “Public Enemy”, um dos grupos mais queridos das periferias brasileiras, em sua reinauguração.

O show ainda demoraria um tanto para começar, mas a festa já estava bombando desde cedo, com batalhas de DJs, rodas e mais rodas de dançarinos de hip hop, penteados black, jovens, adultos, crianças, famílias inteiras. Haddad não chegou nem perto da sala VIP. Foi pra galera, diante de uma certa ansiedade da equipe da Guarda Civil Metropolitana, responsável pela sua segurança.

Com Juca Ferreira (2014). Foto: Julinho Bittencourt

Ao seu lado, durante boa parte do tempo, estavam a vice-prefeita Nádia Campeão, entusiasmada e integrada, e o secretário de Relações Internacionais e um dos amigos mais próximos de Haddad em sua equipe, o jovem Leonardo Barchini, que também não parecia ter problemas para se misturar por ali. Junto deles estava também Juca Ferreira, que, assim como Haddad, havia sido ministro de Lula e era então secretário de Cultura da cidade. Juca tinha amplo trânsito entre as lideranças do rap e do Hip Hop de São Paulo, por conta das inúmeras reuniões e encontros que promovia para ouvir as reivindicações do movimento.

O professor que virou aluno

O Public Enemy (2014). Foto: Julinho Bittencourt

O que se seguiu daí em diante foi ainda mais curioso e surpreendente. Ao invés de ser inquirido por perguntas e reivindicações, Haddad se integrou à festa. A curiosidade dele com tudo o que se passava ao seu redor fez com que se transformasse em aluno. Foi cercado por “professores” entusiasmados, que mostravam orgulhosos as suas danças e adereços. Fez selfies, conversou, andou por tudo durante horas e não foi, em momento algum, afrontado.

O Public Enemy (2014). Foto: Julinho Bittencourt

O show foi um grande sucesso e o evento em si – entre eles o mais importante, que era a ressignificação do parque – ficou marcado como um daqueles grandes acertos da sua administração, que a grande imprensa e a mídia em geral ignoraram solenemente.

O que ficou daquele dia nos sites e jornais foi a imagem de Haddad tocando aquela Gibson vermelha, feita pela fotógrafa Heloisa Ballerini.

Uma imagem que, a despeito de alguns tentarem ridicularizar, é, acima de tudo, a de um homem com vasta formação intelectual e humana, perfeitamente integrado com o seu tempo, em todos os seus extremos.