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07 de novembro de 2013, 09h29

Menos comida para os pobres dos EUA

Há quase 50 milhões de norte-americanos que dependem da ajuda alimentar do governo e que se verão diante de uma substancial redução devido ao corte federal que entrou em vigor no dia 1º

Há quase 50 milhões de norte-americanos que dependem da ajuda alimentar do governo e que se verão diante de uma substancial redução devido ao corte federal que entrou em vigor no dia 1º Por Ramy Srour, da IPS/Envolverde Os drásticos cortes na ajuda alimentar para os pobres nos Estados Unidos elevarão a demanda sobre organizações de caridade e de alimentos que fornecem provisões para famílias necessitadas em todo o país, e que já estão no limite de sua capacidade. “Como alimentar suas famílias?”, perguntou Earle Eldridge, voluntário no armazém de alimentos da igreja católica de St. Anthony em Washington. “Estamos...

Há quase 50 milhões de norte-americanos que dependem da ajuda alimentar do governo e que se verão diante de uma substancial redução devido ao corte federal que entrou em vigor no dia 1º

Por Ramy Srour, da IPS/Envolverde

Os drásticos cortes na ajuda alimentar para os pobres nos Estados Unidos elevarão a demanda sobre organizações de caridade e de alimentos que fornecem provisões para famílias necessitadas em todo o país, e que já estão no limite de sua capacidade. “Como alimentar suas famílias?”, perguntou Earle Eldridge, voluntário no armazém de alimentos da igreja católica de St. Anthony em Washington. “Estamos nos transformando em um país onde o governo corta coisas tão essenciais com os alimentos, e não sabemos como as pessoas farão para sobreviver”, disse à IPS.

Há quase 50 milhões de norte-americanos que dependem da ajuda alimentar do governo e que se verão diante de uma substancial redução devido ao corte federal que entrou em vigor no dia 1º deste mês. Esse país tem 316 milhões de habitantes, e aproximadamente 14% das famílias do país se valem do Programa de Assistência Nutricional Complementar (SNAP), conhecido por seus cupons de alimentação, que atinge milhões de pobres e indigentes.

Os cortes federais chegam em um momento difícil para milhões de habitantes, que ainda não se recuperaram da última crise econômica. “Desde o começo da recessão, 2008, as pessoas vêm até nós porque não ganham o dinheiro que deveriam estar ganhando”, explicou à IPS Elaine Schaller, outra voluntária na igreja. “Mas rendas menores também significam menores doações, e isso é muito problemático, porque dependemos delas para a maior parte de nossa assistência”, ressaltou.

Yvonne Shields é a chefe comunitária na Comunidade Broadway, um restaurante que funciona em Morningside Heights, Nova Yorque. (Foto Vadim Lavrusik/cc by 2.0)

Na verdade, a deprimida atividade econômica deixa descobertas implicações mais amplas e indiretas dos cortes. Como as pessoas têm menos dinheiro, também é menos provável que façam doações aos centros de distribuição, e assim os armazéns e restaurantes populares terão maior escassez nos próximos meses, apontou Schaller. Os cortes aprovados no dia 1º deste mês se relacionam com a Lei de Recuperação e Reinvestimento para os Estados Unidos (Arra), conhecida como “pacote de estímulo”, pois estava destinada a potencializar a economia nacional.

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Entre outros mecanismos, a Arra estabeleceu uma ampliação temporária dos cupons de alimentação, o que permitiu destinar mais de US$ 45 bilhões para ajuda alimentar, mas só até o dia 1º, quando expiraram várias de suas disposições temporárias. Os cortes implicam redução de até US$ 5 bilhões no orçamento do SNAP. Mas o Congresso debate um projeto que pode tirar outros US$ 40 bilhões nos próximos dez anos. “Falamos disso com as pessoas que vêm até nós e têm medo de não poderem alimentar suas famílias”, indicou Eldridge.

Segundo ativistas, a situação já era crítica antes do dia 1º. O lento crescimento econômico e o fechamento dos escritórios do governo por 16 dias, que deixou milhares de famílias sem dinheiro, só fizerem elevar a demanda por alimentos doados. Dados do Departamento de Agricultura mostram que a demanda por cupons aumentou em 37 Estados entre 2012 e 2013. Os maiores aumentos foram registrados em Illinois e Wyoming.

Mesmo naqueles Estados onde a demanda por cupons de alimentos não cresceu no último ano, a quantidade agregada de famílias que dependem deles continua em alta. Mississippi é o pior caso: tem quase 21% de sua população (cerca de 630 mil pessoas) dependente do sistema de cupons para se alimentar. Em seguida aparecem Oregon, Tennessee e Virginia Ocidental, com cerca de 20%.

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Em Virginia Ocidental, um dos Estados que serão mais afetados pelos cortes, os benefícios do SNAP caíram de quase US$ 42 milhões em setembro para pouco menos de US$ 39 milhões, disse à IPS um porta-voz do Departamento de Saúde e Recursos Humanos do Estado. Essa redução de quase US$ 3 milhões para novembro afetará cerca de 300 mil pessoas.

“Os usuários foram notificados por correio sobre essa mudança, devido à redução que será efetivada em novembro. Aos trabalhadores foram dados instrumentos para informar aos receptores da redução com antecipação”, disse o porta-voz à IPS. Virginia Ocidental não suprirá a falta com outros fundos e não sabe de nenhum plano para apoiar organizações de doadores, como provisão de alimentos. É provável que outros Estados enfrentem situações semelhantes.

Dias antes de expirar a Arra, Al Franken , senador por Minnesota, somou-se a outros 38 legisladores que por carta pediram ao Congresso que impeça novos cortes no SNAP, que estão em estudo no Poder Legislativo. O SNAP “é a primeira linha de defesa de nossa nação contra a fome e tem papel crucial em momentos difíceis da vida das famílias, pois permite às que estão em dificuldades colocar alimentos em suas mesas”, ressalta a carta.

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Os legisladores também pediram que o Congresso não inclua no projeto modificações concebidas para tornar mais difícil o acesso ao programa de cupons de alimentos. Nesse ínterim, voluntários e ativistas pouco podem fazer além de aguardar. “Espero que o bipartidarismo consiga que os habitantes dessa cidade (Washington) se deem conta do que devem fazer”, declarou Eldrige. “Tudo o que posso fazer é rezar”, enfatizou.

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