Mentalidades primitivas, o grande medo e Jair Bolsonaro | Revista Fórum
18 de junho de 2018, 13h23

Mentalidades primitivas, o grande medo e Jair Bolsonaro

Valerio Arcary diz que a chave de interpretação do Brasil deve ser a desigualdade social, e a chave da desigualdade é a escravidão. Sem compreender o significado histórico da escravidão é impossível decifrar a especificidade do Brasil

A fortuna torna insolentes os seus favoritos. Ainda que enterrem a verdade, a virtude não se sepulta. Sabedoria popular portuguesa.

O veneno ideológico que percebia o Brasil como um país lindo, pleno de riquezas materiais, abençoado e maravilhoso, mas com um povo horrível atravessou gerações. O grande medo da possibilidade da revolta dos pobres sempre esteve presente no imaginário dos que controlam a riqueza no Brasil. O discurso que desqualifica, e até demoniza o povo brasileiro encontrou, há muitas gerações, ressonância nas camadas mais reacionárias dos setores médios. Essa mentalidade primitiva repousa na brutalidade de níveis de desigualdade social infames.

Pesquisas eleitorais confirmam que uma parcela do grande empresariado, que esteve ao longo das últimas três décadas associada ao bloco político de partidos liderados pelo PSDB, girou para a pré-candidatura de Jair Bolsonaro. Estamos, portanto, diante de um fato político novo. Diversos candidatos de extrema-direita estiveram presentes nas últimas sete eleições desde 1989. Mas eram muito marginais, com suas excentricidades grotescas, como Enéas e a defesa da bomba atômica. Agora é diferente.

Embora Jair Bolsonaro não seja menos extravagante com sua defesa da necessidade de uma intervenção militar, a audiência da extrema direita alcançou visibilidade nacional, e tem provado resiliência. Ela se apoia em múltiplos medos sociais e ressentimentos políticos variados. Uma das razões do deslocamento de setores médios que votavam nas coligações de direita para o discurso neofascista de Bolsonaro tem sido o crescimento da insegurança pública, por exemplo. Mas tem raízes mais profundas.

O Brasil é economicamente atrasado, socialmente desigual, politicamente autoritário e, até culturalmente, arcaico. É, dramaticamente, atrasado em termos educacionais, quando comparado com nações em estágio semelhante de desenvolvimento econômico. Aqueles plenamente alfabetizados na língua e na matemática são somente 8%, menos de um em cada dez pessoas, e os analfabetos funcionais correspondem a 27% da população com 15 anos ou mais, ou seja, quase um em cada três. Retardatário, portanto, em toda a linha.

Mas é, ao mesmo tempo, o maior parque industrial do hemisfério sul do planeta, e uma das dez maiores economias do mundo, com vinte cidades com um milhão ou mais de habitantes e um pouco mais de 85% da população economicamente ativa em centros urbanos. O Brasil é um laboratório histórico do desenvolvimento desigual e combinado. Uma união do obsoleto e do moderno, um amálgama de formas arcaicas e contemporâneas. Insere-se no mundo como um híbrido de semicolônia privilegiada e submetrópole regional. Isso só foi possível pela velocidade do movimento de rotação do capital, que só pode ser explicado pela superexploração.

O Brasil foi e permanece, sobretudo, uma sociedade muito injusta. A chave de uma interpretação marxista do Brasil é a resposta ao tema da principal peculiaridade nacional: a desigualdade social extrema. Todas as nações capitalistas, no centro ou na periferia do sistema, são desiguais, e a desigualdade está aumentando desde a década de oitenta. Mas o capitalismo brasileiro tem um tipo de desigualdade anacrônica. Por que os graus de desigualdade social foram sempre tão, desproporcionalmente, elevados, quando comparados com as nações vizinhas, como Argentina, ou Uruguai?

Hipóteses reacionárias variadas foram elaboradas, ao longo de décadas. As mais influentes eram fundamentadas em premissas racistas, inspiradas pela eugenia (1), em um debate que não é somente histórico, porque nos informa sobre um traço, especialmente, aberrante de um tipo de mentalidade de frações da classe dominante que, mesmo minoritário, ainda subsiste. Essa percepção rudimentar, racista, primitiva, autoritária é o que explica que setores da classe dominante, apoiem Jair Bolsonaro como pré-candidato à presidência da República.

Obras lusofóbicas e racistas, como “Evolução do Povo Brasileiro”, de 1923, de Oliveira Viana, que defendia a necessidade do “embranquecimento” do povo, pretenderam explicar a desigualdade pelo atraso, e o atraso pela miscigenação de raças (2). Outras, como “Casa Grande e Senzala”, de Gilberto Freyre, adepto da lusofilia, apresentam a miscigenação como uma chave de distinção progressiva do Brasil dos países, como os Estados Unidos, em que se impôs a apartação racial, o apartheid (3). Ela fundamentou a sinistra ideologia da “democracia” racial”.

A burguesia brasileira buscava no início do século XX intérpretes da história do país que pudessem legitimar uma demanda ideológica para o seu nacionalismo. A ideia de uma “nação de sangue” como fundamento da interpretação do caráter de um povo revelaria um destino histórico para a sociedade. A investigação do que seria o caráter do povo brasileiro passou então a ser o centro de um projeto ideológico para justificar a dominação (4).

A visão do Brasil como um país de povo dócil e intensamente emocional correspondia às necessidades da classe dominante. A obra de Sergio Buarque de Hollanda, “Raízes do Brasil”, em que o tema do “brasileiro cordial” respondia a esta demanda. Mas Sergio Buarque estava preocupado em compreender, também, a aversão da classe dominante ao critério meritocrático liberal.

A mobilidade social era muito baixa. O Brasil agrário, até meados do século XX, era uma sociedade muito desigual e rígida, quase estamental, portanto, hereditária. A origem de classe determinava o destino social. Prevaleceu durante muitas gerações uma inserção social quase hereditária: os filhos dos sapateiros, ou dos alfaiates, ou dos comerciantes, ou dos médicos, engenheiros, advogados herdavam o negócio dos pais. A grande maioria do povo não herdava nada, porque eram os afrodescendentes do trabalho escravo, predominantemente, agrário.

Era estamental porque os critérios de classe e raça se cruzavam, forjando um sistema híbrido de classe e castas que congelava a mobilidade. A ascensão social era somente individual e estreita. Dependia, essencialmente, de relações de influência, portanto, de clientela e dependência através de vínculos pessoais: o pistolão. O critério de seleção era de tipo pré-capitalista: o parentesco e a confiança pessoal (5).

Se a chave de interpretação do Brasil deve ser a desigualdade social, a chave da desigualdade é a escravidão. Sem compreender o significado histórico da escravidão é impossível decifrar a especificidade do Brasil (6). O capitalismo brasileiro perpetuou a escravidão até quase o fim do século XIX. Uma escravidão tão longa, e em escala tão grande deixou uma dívida social, uma herança política e uma mentalidade retrógada que não é, somente, uma curiosidade histórica. Ela explica a superexploração. Mas é a presença de uma das classes trabalhadora mais concentrada, jovem, mais educada que a geração de seus pais, e com força social de choque que define o contexto do grande medo. Bolsonaro é a expressão dessa monstruosidade.

(1) A eugenia foi, no Brasil do final do XIX e início do século XX, a premissa ideológica de uma visão racista que defendia a necessidade de melhoramento da raça através do embranquecimento.

(2) Durante décadas, sob a influência do positivismo, entre o final do XIX e meados do século XX, prevaleceu uma interpretação de que o atraso do Brasil se deveria ao fato de que a colonização foi feita por Portugal, e o progresso dos Estados Unidos se explicaria em função da colonização inglesa. Esta hipótese não resistiu à investigação histórica. Os perseguidos religiosos puritanos que foram para as regiões temperadas da América do Norte, construíram uma economia que, em seus primeiros cem anos, girava quase somente em torno da satisfação de suas próprias necessidades, e só marginalmente exportavam. Enquanto a ocupação da costa do Brasil, a partir de meados do século XVI, se organizava em torno da exportação do açúcar, inserida em relações comerciais capitalistas. Sobre Oliveira Viana:

http://www.interpretesdobrasil.org/sitePage/61.av

Consulta em 14/01/2017.

(3) Em resposta às elaborações lusofóbicas surgiu a lusofilia, cuja mais famosa expressão foi a obra de Gilberto Freyre, especialmente, “Casa Grande e Senzala”. Darcy Ribeiro, entre outros, ainda nos anos noventa, incrivelmente, o reivindicou: “Suas ousadias ofendiam e arranhavam sensibilidades acadêmicas e feriam muitas almas bem formadas. Não podia ser de outro modo, se numa passagem Gilberto Freyre nos ilustra sobre o mau costume português de jurar pelos pentelhos da Virgem. Noutra, fala do despique, antigo costume brasileiro de intercâmbio de esposas entre os amigos. Em ambos os casos, é verdade, sempre assentado na melhor documentação. O certo é que, a mim e a todos, “Casa Grande & Senzala” ensinou muitas coisas que precisamos começar a enumerar. Ensinou, principalmente, a nos reconciliarmos com nossa ancestralidade lusitana e negra, de que todos nos vexávamos um pouco”. Darcy Ribeiro, “Uma Introdução a Casa grande e senzala”, Rio de Janeiro, Record.

(4) O conceito de ideologia no marxismo recebeu duas leituras aparentadas que podemos simplificar como: (a) ideologia como a totalidade das formas de consciência social; (b) ideologia como as ideias filosófico-histórico-políticas que expressam a visão do mundo e os interesses de uma classe social, que procura legitimação apresentando seus interesses de classe como interesses universais. A segunda geração marxista desconhecia o livro de Marx, “A Ideologia Alemã”, que permaneceu inédito até 1920: assim Plekanov, Rosa Luxemburgo, Lênin, Trotsky, Gramsci, entre outros, não conheciam os diferentes sentidos que Marx atribuía ao conceito, em graus distintos de abstração.

(5) Buarque de Holanda, Sergio. “Raízes do Brasil”. São Paulo, Companhia das Letras, Terceira Edição, 1997. Publicada, em 1936, e resgatada do esquecimento por Antonio Cândido, nos anos sessenta, exerceu influência, inclusive, na esquerda. A avaliação da resistência ideológica ao liberalismo era o centro de seu pensamento: alguns interpretaram, erroneamente, que ele estaria defendendo que o conceito de “homem cordial” era somente uma imagem que remetia a uma docilidade sentimental, uma afetuosidade natural, uma gentileza autêntica, uma presteza no trato.

(6) O primeiro censo nacional foi realizado entre 1870/72. O questionário era de difícil transcrição e apuração. Embora tenha sido feito em condições, especialmente, precárias, sua importância como fonte não merece ser diminuída. Sobre uma população próxima a dez milhões ou, mais exatamente 9.930.478, a população escrava era ainda um pouco maior que um milhão e meio, ou, mais precisamente, de 1.510.806, sendo 805.170 homens e 705.636 mulheres. Estudos demográficos históricos são somente aproximações de grandeza. PUBLICAÇÃO CRÍTICA DO RECENSEAMENTO GERAL DO IMPÉRIO DO BRASIL DE 1872, do Núcleo de Pesquisa em História Econômica e Demográfica – NPHED da UFMG. Consulta em dezembro 2014.Disponível em: www.nphed.cedeplar.ufmg.br/…/Relatorio_preliminar_1872_site_nphed