Luiz Roberto Alves

13 de maio de 2019, 06h00

Mentiras que parecem verdades

Em sua coluna na Fórum, Luiz Roberto Alves discorre sobre os conceitos - mentirosos - de "bala perdida" e "bandido bom é bandido morto"

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O título vem da obra de Umberto Eco e Marisa Bonazzi, que trata das falsas estratégias e falsos conceitos no ensino escolar das crianças. Aqui também a questão é educacional, mas de educação política, que caiu no abismo das relações sociais do Brasil e, portanto, está a exigir uma revolução da consciência e da linguagem.

Mentira 1: Balas perdidas

Graciliano, Lins do Rego, Raquel de Queiroz, João Cabral, Dias Gomes, Ariano e outros criadores da arte brasileira nunca viram bala perdida. Toda bala tem destinação e destino. Por que repórteres e âncoras da mídia veem tantas balas perdidas? Simples: porque somente aos homens, mulheres e crianças comuns, populares, transeuntes e muitas vezes pobres as balas não são perdidas. Todas as balas têm endereços. Elas se cravam em algum lugar como ameaça ao humano e ainda quando se cravem nos vegetais e nas pedras não são perdidas. A frase bala perdida não é simples eufemismo; é covardia diante da narrativa de senso comum que se torna simples e fácil quando, na verdade, é mais complexa e exige pesquisa, investigação. Trata-se do humano violentado e que se vai fazendo estatística na voz débil e incompetente dos responsáveis pelas narrativas. Nem precisa dizer de policiais ou soldados, educados para produzir balas perdidas, pois essas querem se mostrar irresponsáveis, sem dono, sem gatilho, sem identidade. Também de contraventores, que pegam carona com os supostos homens da lei na produção de balas que se perdem no interior dos corpos daqueles que simplesmente querem ter o direito de viver. E esta terra bela vai-se transformando no horror do mundo, pois cada um, uma que tomba – inocente ou culpado – sob o gatilho bruto e irresponsável sinaliza a destruição da coletividade, acreditem ou não os armados. As balas perdidas aumentam a deformação e a insensibilidade da sociedade brasileira, já bastante disforme, como personagens de Eugene Ionesco. As balas chamadas de perdidas se avolumam e, na sanha do governo dos valentões covardes, mais se dispersarão até que os pobres repórteres fiquem envergonhados em chamá-las de perdidas. Não haverá como adjetivá-las.

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Caros/as jornalistas, façam jus aos seus diplomas de comunicadores e parem de participar da mentira que soa verdadeira!

Mentira 2:  bandido bom é bandido morto

É necessário lastimar a morte de bons soldados e policiais que tombam sob balas certeiras, misturados às mentirosas perdidas. Lastimar, mas pensar, pois o Estado violento e violentador, incapaz de induzir à justiça social equilibrada e de longo prazo, leva os sentidos de bandido para além das fronteiras e, por vias do seu treinamento brutal e da consciência infeliz de que os “outros” são maus – notadamente quando pobres e negros – transformam soldados e policiais em bandidos. Na sequência, cria-se um outro sentido, tão impreciso quanto preconceituoso, o de miliciano. A perda dessa referência revela a face profundamente autoritária do Brasil e suas chances remotas de alcançar um estágio de sociedade do bem-estar coletivo. Independentemente do ambiente chiquérrimo dos mercados e outros bens de produção. Esse pêndulo de injustiça, crime e bandidagem invade o campo de significações do bem social e a fronteira do mal e do bem é dizimada, produzindo bandidos em todos os segmentos da vida social. Até porque, por via de consequência, entre eles, alguns são defensáveis a alto preço e os outros não merecem defesa, mas somente os sete palmos ou o leito do riacho apodrecido. O que se dá no domínio do fogo e da morte pelas armas também se projeta para as relações políticas mais amplas, incluídos os colarinhos brancos. E quando um governo de valentões covardes se entrincheira no discurso mítico dos “homens de bem” como termo generalizado, todos os “outros” são necessariamente perigosos e merecem receber balas certeiras e “perdidas”, sempre companheiras entre si. Por isso, é necessário lastimar a morte dos “bandidos” negros e pobres e pensar que se está a matar a sociedade ela mesma. As ótimas experiências com a reinserção social dos apenados e apenadas, as ações de educação, trabalho e aconselhamento que se faz em diversas prisões e outros lugares de proteção estatal desfazem a mentira dos homens de bem versus o “outro” e o conceito indigente e mítico de bandido, que sequer resiste à análise biológica ou psicossocial. É mentira digerível na sociedade amedrontada, acuada, atolada à promessa de garantia de segurança que não segura nada e assusta o sono, dos equipamentos de proteção que são superados a cada dia e dos discursos que jamais passarão de idiotice politiqueira e demagogia. Pior é que amplos setores da sociedade estão a perder a sensibilidade para discernir e ver as coisas com alguma claridade.

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O melhor da literatura brasileira viu, há muito tempo, a corrupção e o horror social que criamos. Pistolagem, grilagem de terra, mandonismo, coronelismo, posse machista dos corpos dos outros, privilégios injustificáveis à custa da miséria social, emboscadas, experiência de armamentos nos corpos dos pobres dos sertões e das cidades, desinteresse fático, generalizado e contínuo pela educação popular, desprezo por políticas integradas e silenciosas a favor do gogó e do espetáculo, massacre das diferenciações humanas em nome de unidades míticas impossíveis na sociedade de homens e mulheres. Está tudo lá. Um ou dois exemplos não ajudam. Nem serve muito assistir a séries e novelas, pois dependem dos ibopes e humores editoriais. Melhor ler, pois ali há brechas para a compaixão, a solidariedade e a mudança. O professo e crítico Antonio Candido sempre teve razão: a literatura brasileira esvaziou-se um pouco em estética para se fortalecer em conteúdos reveladores das verdades do país desequilibrado e com forte tendência autoritária. Essa literatura viu que as balas não se perdem; elas têm direção e se tornam a metáfora da valentia medrosa e insegura que forjou boa parte da história subtropical.

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