22 de junho de 2018, 17h38

Métodos intermináveis de como censurar a produção artística alheia

A ditadura batia um carimbo e censurava. Hoje, inventam que o que você escreve é fake news e te arrancam da rede

Carimbo da Censura. Imagem: Bruno Santana

Começo com um relato pessoal. No início da década de 80 íamos apresentar um espetáculo musical na programação do antigo Movimento de Cultura Popular (MCP), que acontecia no auditório do Sindicato dos Metalúrgicos de Santos. No trâmite burocrático havia a obrigação de aprovar todas as canções no Departamento de Censura da Polícia Federal que, para nossa ‘sorte’ existia na cidade portuária, bem ao lado de onde funcionava (e funciona ainda) a Alfândega.

Eram 12 canções, que deveriam ser datilografadas em três vias e enviadas em um envelope para o departamento, onde eram devidamente protocoladas e havia um prazo, de dois dias, para as respostas. No dia determinado, lá fomos nós, ansiosos, saber se as canções seriam aprovadas através de um carimbo que nos permitia a liberação final do show.

A pessoa responsável pelo setor era uma mulher jovem, envelhecida, de aspecto infeliz e extremamente prepotente que, por puro voluntarismo, apaguei definitivamente o nome da memória. Depois de um certo suspense, ela nos disse que, das 12 canções, seis seriam vetadas, ou seja, terminantemente proibidas de serem apresentadas em público.

Como era uma pessoa de muito ‘boa vontade’, resolveu nos explicar uma a uma, as razões do veto. Fazia aquilo com grande prazer e um certo orgulho indisfarçável no sorriso de canto de boca. E os motivos iam desde questões morais até outras políticas, consideradas ‘subversivas’, quando não, em algumas, pelas duas razões.

Em um dado momento, diante da proibição da palavra ‘merda’, me arvorei a questionar a canção “Geni e o Zepelim”, da Ópera do Malandro, de Chico Buarque, que havia sido liberada pela mesma censura, portanto por eles, com a palavra ‘bosta’, um sinônimo um tanto mais forte e, portanto, ainda mais inadequado do que a minha ‘merda’. A sua resposta foi definitiva e exultante, enquanto dava um sorriso para o agente que estava de pé ao seu lado: “A ‘bosta’ foi liberada porque não passou por aqui”.

Aquela sessão interminável e de tamanha ‘acuidade profissional’ se encerrou com um outro agente nos dizendo, já à porta, em tom meio amistoso, meio de ameaça: “Olha, vocês são muito bons, gostei tanto que vou lá assistir à apresentação”. Se ele foi não descobri até hoje. O que sei é que cantamos cada uma das seis canções proibidas com orgulho de garotos, não sem antes anunciar a proibição e a razão para tal de cada uma delas, para delírio da plateia.

Já eram tempos de distensão, de abertura política, como gostavam de dizer na época. Do contrário, a nossa brincadeira não iria acabar lá muito bem. Este episódio, no entanto, serve bem para ilustrar como funcionavam as coisas. A censura, na grande maioria dos casos, dependia muito mais da vontade e da capacidade intelectual do agente de plantão do que qualquer outra coisa. Fosse ele católico fervoroso e qualquer menção à igreja e a Deus corriam sério risco, bem como questões morais e sexuais. Outros já preferiam vetar questões políticas e muitos ainda todas as anteriores e tantas outras mais. Isso sem contar que tudo dependeria também do humor do sujeito de plantão no dia.

No teatro era muito pior

Nossos colegas do teatro, no entanto, sofriam muito mais com a censura. Depois de terem texto aprovado, se caso o fosse, eram obrigados a fazer uma apresentação completa para os agentes, exatamente como seria na estreia com cenário, figurinos, sonoplastia e tudo o mais. O objetivo, de acordo com os zelosos profissionais, era saber como tudo ia se passar, se haveria algo que desabonasse a moral e a ordem pública escondido em algum canto das roupas e da montagem.

Aquilo rendeu inúmeras piadas, além de dar um enorme trabalho para os atores, diretores e técnicos. Tudo era abrandado para os agentes. Cartazes que seriam usados eram escondidos, textos eram trocados, palavrões escondidos, letras de canções mudadas e por aí afora. E, se por acaso, mesmo assim, o espetáculo fosse proibido, o investimento e o tempo despendido iam por água abaixo.

No final das contas, em tom de piada, ficou na memória de todos da época a questão que aquela mesma funcionária que nos vetou fazia pelo seu ingresso a cada vez que o ator Antônio Fagundes aparecia na cidade. Fã indisfarçável, tentava nos fazer crer que ia ver se estava tudo nos conformes na peça que, ironicamente, já estava aprovada de antemão por seus superiores em Brasília. E ali, no escurinho da sala, disfarçava seus suspiros buliçosos pelo grande artista que sabia da sua existência apenas enquanto pessoa jurídica. E, provavelmente, a desprezava.

A Constituição cidadã

A promulgação da Constituição. Foto: Agência Brasil

Estes e muitos outros burocratas se tornaram totalmente obsoletos e completamente inúteis por direito – pois de fato sempre o foram – apenas em 1988, com a promulgação da Constituição Cidadã, que acabava completamente com a censura. Foram, provavelmente, bater seus carimbos coloridos em outras sessões, à espera de melhores dias que, até muito recentemente, não aventavam voltar.

Estes tipos, no entanto, assim como diversos germes, vírus e bactérias, se adaptam ao meio, como nos ensinou Darwin, e voltam, se não mais fortes, com outros métodos que nos exigem ainda mais e melhores antibióticos e pesticidas.

Reaparecem em salas de espetáculos, exposições e onde quer que haja manifestação artística para se revolverem em jeitos de coibir, proibir e rejeitar. Sempre em um grande esforço para evitar que a família brasileira ouça palavras de baixo calão ou veja gente pelada. Assim como os golpes, que não são mais realizados com torturas e canhões, conseguem em suas instituições e afins retiradas estratégicas de patrocínios, vetos em salas e coisa que o valha.

A exposição Queermuseu. Foto: Divulgação

Foi assim com a exposição “Queermuseu”, com temática LGBT cancelada, em 2017, pelo Santander Cultural logo após um levante iniciado pelo grupo fascista Movimento Brasil Livre (MBL), que contou com a adesão de evangélicos e vários políticos, entre eles o ex-prefeito de São Paulo, João Doria.

A investida contra o “Queermuseu” foi apenas um entre tantos exemplos de estratégia de censura não estatal, coordenada com empresários e autoridades para dificultar, coibir e, até mesmo, vetar obras de arte.

Não bastasse isso, as ações na internet, mais sofisticadas ainda, conseguem, através do algorítimo de redes sociais, como o Facebook, por exemplo, proibir absurdos como no caso do Ministério da Cultura, que teve uma postagem onde aparece uma índia com os seios à mostra, censurada.

A capa censurada do disco Joia, de Caetano Veloso. Foto: Divulgação

Este que vos escreve teve, no mesmo Facebook, a capa do disco “Joia”, de Caetano, onde ele, o filho Moreno, ainda criança na época, e a então esposa, Dedé Gadelha, aparecem em um delicado e tímido nu, censurada e acompanhada de uma advertência bem clara. Se a ‘leviandade’ se repetisse, corria o risco de ser expulso da rede.

Fake news

A sofisticação assumiu ares ainda mais refinados e dissimulados com o propalado combate às fake news. Veículos de esquerda se tornaram, obviamente, a vítima preferencial dos ataques. Esta Fórum mesmo, ao lado do Brasil 247 e do Diário do Centro do Mundo (DCM), foi injustamente acusada pela Agência Lupa em caso recente que envolve a entrega, por Juan Grabois, de um terço abençoado pelo Papa Francisco ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A Agencia Lupa, mantida através de uma parceria de grandes veículos de comunicação, como a Folha, GloboNews e a Revista Piauí com a família Moreira Salles, indica ao Facebook o que ela considera que seja fake news. O Facebook, por sua vez, adverte o veículo sobre o ‘delito’ e o ameaça, assim como no caso anterior, de banimento da rede.

O caso, desmentido pelo próprio Vatican News, que foi a fonte de checagem da Agência Lupa, foi abordado durante discussão na Câmara sobre fake news e censura.

O fato, no entanto, inegável e irrevogável, é que são forças econômicas e políticas que se unem para tirar do ar mensagens, ideias e manifestações que consideram indesejáveis sem maiores explicações ou, quando muito, com explicações forjadas.

Com algum verniz, mas no fundo com a mesma prepotência daquela jovem senhora de há trinta e tantos anos atrás. “Se a ‘bosta’ passar por aqui, eu veto.”