“Corra!”: uma experiência de horror

por Cesar Castanha Na primeira cena de Corra!, um jovem homem negro (Lakeith Stanfield) caminha à noite pelas ruas de um subúrbio de classe média. Ele brinca com um amigo ao telefone, ironizando aquele espaço....

por Cesar Castanha

Na primeira cena de Corra!, um jovem homem negro (Lakeith Stanfield) caminha à noite pelas ruas de um subúrbio de classe média. Ele brinca com um amigo ao telefone, ironizando aquele espaço. Um carro para ao seu lado, e o rapaz, incomodado e com medo, dá meia volta, mas não escapa de ser atacado. Essa é uma cena simples, um tipo de antecipação da trama muito comum no filme de terror. Mas aqui ela antecipa algo além da trama: ela sintetiza uma experiência contemporânea nos EUA, a mesma sobre a qual o filme vai depois se debruçar com uma mistura de horror e ironia ao contar a história de um homem negro, Chris (Daniel Kaluuya, fantástico), que é convidado a passar um fim de semana na casa dos pais de sua namorada branca, Rose (Allison Williams).

A experiência negra em uma classe média hegemonicamente branca tem inspirado alguns trabalhos bem interessantes nos últimos anos. Há poucos meses, o trailer da série Cara Gente Branca, da Netflix, adaptação de um filme homônimo, foi recebido com repetitiva hostilidade nas redes sociais. Essas obras não falam na experiência negra forçada à margem da vivência urbana da classe média branca, mas da sua experiência como minoria justamente dentro desse espaço. Quando essas narrativas e personagens são trazidos adiante, elas denunciam a dimensão e a profundidade da cultura racista em nossa sociedade. E uma classe média (incluindo aqui a classe média liberal de esquerda), que pode ver a si mesma como estando além dessa cultura racista, tem seu lugar dentro dela reconhecido e apontado.

Seria um erro, no entanto, perceber essas obras apenas como parte de uma operação funcionalista de denúncia do racismo. O que elas trazem, no seu interesse pela vivência negra dentro da classe média branca, é muito mais complexo e sofisticado. É o confronto com os gêneros do mainstream de que essas obras se apropriam (como o humor indie na televisão e o horror no cinema). Justin Simien (Cara Gente Branca), Jordan Peele (Corra!) e Issa Rae (da série Insecure) estão negociando com esses gêneros, subvertendo-os, mas também incorporando algumas de suas tradições. Seria fácil dizer que, no momento em que eles aceitam participar do mainstream, eles estão cedendo a estéticas da branquitude. Mas o que surge dessa negociação — no formato das obras e na narrativa de seus personagens — é a própria angústia de se ver negociando, o sofrimento de uma contínua resistência quando se está imerso na hegemonia da cultura opressora, a confusão de não saber até onde se pode ceder sem perder a si mesmo, a dor de se questionar o que, de sua subjetividade, foi imposto pelo seu opressor.

 

Cara Gente Branca e Insecure são boas representações da angústia dessa experiência. Mais no caso da primeira que no da segunda, pode ser pensada uma satirização dessa vivência, como na opção pelo exagero, pelo humor mais direto, por uma estrutura narrativa menos realista. Mas é Corra! que decide explorar, na sátira, o horror. E é no modo como se utiliza do gênero que o filme se sobressai.

O tom cartunesco e excessivo do gênero de horror colabora com a sátira; e as observações da sátira diante daqueles personagens colaboram com o horror. Corra! não é exatamente pioneiro ao promover essa troca, alguns dos clássicos do gênero, como O Que Aconteceu com Baby Jane? (dir. Robert Aldrich, 1962) e O Bebê de Rosemary (dir. Roman Polanski, 1968), já seguiram por esse caminho. Mas isso funciona especialmente bem quando o gênero é definido totalmente pela experiência do personagem. Corra! é um bom filme de gênero porque, antes, é um excelente filme de personagem. É Chris que experimenta sua aproximação a uma família branca como uma experiência de horror — como, da mesma maneira, Rosemary experimentou sua gravidez.

No fim das contas o que esses filmes de horror-sátira entendem é que o gênero não se justifica em ceias satânicas ou cientistas malucos, mas na angústia de algumas experiências de estar no mundo, de compartilhá-lo com o outro ou com o seu opressor. Corra! ficciona sobre essa experiência, com cada detalhe do trauma desse personagem figurando em um ponto ou outro do seu pesadelo. Mas o filme não se coloca como um anagrama de críticas sociais a serem decifradas. Uma leitura social da experiência do personagem deve passar por algum compartilhamento dessa experiência, e é nesse ponto que Corra! se impõe como cinema: no controle do que é revelado, no mistério das expressões incompreensíveis de alguns personagens (e é aqui que o elenco de apoio encontra seu espaço, com destaque para Stanfield e Betty Gabriel). E é aí também que Corra! desenha seu limite.

Você pode, através do cinema, compartilhar de uma experiência do personagem, mas não de seus traumas. O cinema e a sátira são maneiras de figurar o trauma, de recriar a experiência como imagem. Mas a representação tem um limite, e, quando brinca com os excessos, as caricaturas e o humor do gênero, Corra! reconhece seu limite. Ele sabe que só apresenta um desenho da experiência real que inspira a de seu personagem, por isso se vê livre para brincar com as cores. O que esse filme traz à experiência que o inspira não cabe a mim dizer.